
Faroeste Caboclo

Jorge de Siqueira




Sinopse:
 Livro de Jorge de Siqueira baseado na msica da banda Legio Urbana, que conta toda a trajetria de Joo de Santo Cristo, em sua vida de muita aventura e sofrimento.





Captulo 01O NASCIMENTO DE JOO DE SANTO CRISTO

Joo Fernando voltava mais uma vez da roa. Havia passado mais um dia capinando a terra, envolto em seu trabalho 
de limpeza da plantao de milho. O mato no podia crescer naqueles dias. A chuva havia cado h dois dias e ele 
no podia perder tempo, tinha que aproveitar a estiagem. 
Joo Fernando estava cansado daquela luta. Todos os anos a sua batalha era igual. Trabalhava como um louco, 
procurando aproveitar as chuvas. Plantava tudo o que pudesse brotar e render boas colheitas naquelas suas terras. 
Eram uns poucos hectares, herdados de seu pai, e que mantinham o sustento de sua famlia. 
Sua famlia era apenas sua mulher, grvida de seis meses e necessitando de repouso absoluto, por ser a gravidez de 
risco. Com isso, todo o trabalho na roa havia sobrado para Joo Fernando. 
Ontem, o prefeito veio visit-lo. Homem bom aquele. Queria vender dois garrotes para Joo Fernando. E estava 
vendendo abaixo do preo que os outros vendiam no mercado. 
O restinho do dinheiro que Joo Fernando tinha do ano anterior, resultado da venda dos seus ltimos garrotes para o 
mesmo prefeito, dava justamente para comprar os dois garrotes. 
A sua vaquinha, a que restou, estava dando leite de novo. O bezerrinho estava crescendo bem, j que havia fartura 
nesta poca do ano. 
Com certeza iria aproveitar o timo preo que o prefeito estava pedindo nos dois garrotes e iria compr-los. 
O prefeito era muito bom mesmo, j que havia comprado os seis garrotes que ele tinha no ano anterior, naquela seca 
medonha... O prefeito comprou pela metade do preo, claro, porque estavam muito magros. Mas, se o prefeito no 
tivesse comprado, todos os animais estariam mortos. 
O outro partido, a oposio, estava comentando que o prefeito havia mandado os garrotes para o Par, aproveitando 
que havia alugado um pasto grande, onde no tinha seca. 
Diziam que ele aproveitava as trs carretas que tinha para despachar para o Par todos os garrotes, bois e vacas que 
comprava. E agora estava vendendo pelo dobro do preo... 
Mas a oposio no sabia o que falava. Como podiam falar mal do prefeito?. O prefeito era um anjo enviado do cu. 
Todo mundo sabia que se ele no comprasse os bois, eles iriam morrer...A seca no perdoava... 
Com o dinheiro que ganhou da venda dos seis garrotes, conseguiu comprar rao para a vaca que restou. A mesma 
que estava prenha e deu cria a um lindo bezerrinho. Comprando os dois garrotes, ficaria com quatro. Dois a menos 
que no ano anterior, mas era melhor do que nada. 
Se Deus ajudasse, a plantao daria lucro suficiente para poder comprar tudo de novo. 
Se Deus ajudasse, poderia at comprar mais do que tinha. 
Se Deus ajudasse, poderia at fazer estoque de feijo e milho, como havia feito h cinco anos atrs. 
Se Deus ajudasse, no mandaria a seca de novo neste ano. 
Mas Deus no ajudou. A seca veio novamente destruindo todas as plantaes, secando os audes, acabando com a 
esperana daqueles pobres agricultores. Houve perda total. Perda das plantaes, do gado e, principalmente, da 
esperana de Joo Fernando. 
Ele teve que vender, desta vez, todos os animais. No ficou nem mesmo com a vaca. 
E justo agora que Joozinho havia nascido. Antes da hora, aos sete meses, quando sua me quase morreu. Mas, 
graas a Deus, tudo estava estabilizado. A sade havia sido recuperada, e o menino, mesmo pequenino, estava 
passando bem. 
Mas Joo Fernando no sabia o que fazer. 
Como aliment-lo? Como alimentar sua famlia? Estava ficando cada dia mais difcil. 
Mesmo com a ajuda que o maravilhoso prefeito estava dando a ele, atravs da Frente de Trabalho da qual 
participava, no valor de meio salrio mnimo, e com a cesta de alimentos que o maravilhoso prefeito entregava todos 
os meses em seu comit, ainda no dava para alimentar sua famlia. 
A oposio continuava falando que no era o prefeito quem dava aquelas coisas. Nem o dinheiro, nem a comida. 
Como no? Se tudo era entregue pelas mos dos funcionrios da prefeitura, com a presena do prefeito e tudo mais? 
O prefeito at fazia um discurso no seu carro de som, antes da entrega dos produtos, falando de como ajudava os 
necessitados... 
A oposio continuava igual... 


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Captulo 02A MORTE DE JOO FERNANDO 

Joo j estava com sete anos quando seu pai morreu. A sua me morrera h trs anos, e desde ento o seu pai era 
outra pessoa. Comeou a sair com diversas mulheres, a beber demais e a se envolver em confuses. 
J havia at sido preso, por roubo. Haviam falado que ele estava tentando entrar em uma casa, achando que no 
tinha ningum, mas havia um homem dentro da casa, que chamou a polcia. Joo Fernando disse que no era isso. 
Ele estava bbado, e tentava pegar uma galinha no galinheiro daquela casa. Naquele pedao da Bahia isso ainda era 
possvel. A galinha seria cozida e servida entre uns poucos beberres que estavam num bar, ali perto. Joo Fernando 
foi escolhido por ser um grande intil, quando bebia. 
Todos aproveitavam dele. Era um homem derrotado, sem moral, e que se entregou completamente a um futuro 
miservel. 
Depois do nascimento de seu filho, Joozinho, tudo havia dado errado. A seca reduziu suas terras a umas poucas 
notas: teve que vender suas terras ao prefeito, que no era to bonzinho assim, como ele pensava. Agora estava 
concordando com a oposio. Comeou a enxergar o que o prefeito fazia, apenas quando no tinha mais nada nas 
mos. 
No podia fazer nada. Tudo estava acabado. O seu gado era agora do prefeito, que todo ano de seca os mandava para 

o Par, para ficarem gordos e pesados. Bons para serem repassados a outros moradores da cidade. 
A sua terra foi vendida para pagar o tratamento de sua esposa, que estava com uma doena que no tinha explicao. 
O curandeiro do bairro havia falado que no tinha como cur-la. Os mdicos do hospital disseram a mesma coisa. 
Falaram que era uma doena que ela pegou por ficar muito no sol, uma coisa ruim na pele. Um nome esquisito, 
Melanoma. Primeiro apareceram manchas pelo corpo, umas manchas escuras. Depois as manchas viraram feridas 
escuras. A o mdico disse que j no tinha mais jeito. 
Mesmo assim ele vendeu a terra. O prefeito se prontificou a ajud-lo, comprando a sua terra, por um preo um 
pouco abaixo do que valia, mas que era uma sada para ele, naqueles tempos de seca. 
E sua mulher morreu, mesmo depois que haviam ido morar na cidade, naquela sada de bairro, muito pobre, mas que 
estava perto dos mdicos. Morreu apenas cinco dias depois que eles foram para a cidade. 
Joo Fernando no quis aceitar o fato, sempre criticando a tudo e a todos pelo que aconteceu. O curandeiro, por no 
conseguir cur-la. Os mdicos, que no deram nenhum remdio que sarasse aquelas feridas. O prefeito, por deix-lo 
mais pobre do que era. E a Deus, que no tinha pena dele e nem das pessoas das quais ele gostava. 
Joozinho tinha apenas quatro anos de idade. Como iria viver com um pai que no conseguia nem mesmo sustentar 
a si prprio? O que fazer com Joozinho? Ainda bem que a irm de Joo Fernando tomou conta dele. Pelo menos, 
at o menino comear a aprontar. 
Era um menino muito esperto, muito inteligente, mas que no gostava de escola. Adorava travessuras e vivia sempre 
aprontando. 
Com cinco, seis anos, j praticava suas malvadezas, no poupando as vidraas das escolas, as goiabeiras dos 
vizinhos, nem os gatos que ali apareciam. 
Aprendeu um palavreado diferente do que sua famlia falava. Famlia pobre, sofredora, como tantas outras da regio, 
entregue ao futuro sem dono, sem perspectivas. 
Joozinho, no. Joozinho enfrentava os moleques maiores na pedrada. Sabia que se dependesse s de sua mo ele 
apanhava, mas na pedrada ele conseguia nivelar a briga. Os palavres que outros aprendiam s com nove, dez anos, 
ele conseguira aprender j aos sete. 
E foi um desses palavres a ltima coisa que ouviu da boca de seu pai, antes da morte. 
Joozinho estava no campinho, jogando futebol com outros moleques, quando viu a confuso. Um homem correndo 
na frente de um policial. Era o seu pai. O policial tinha um revlver na mo, e Joo Fernando estava bbado, mas 
no o bastante para impedi-lo de correr bem. Conseguia fugir daquele policial que no estava em boa forma. 
Joozinho no sabe por qu o pai parou. Pegou uma faca que sempre trazia consigo, em uma mo, e uma pedra na 
outra. O policial espumava de raiva. Parece que Joo Fernando tinha desistido de tudo. Enfrentou o policial como se 
quisesse mesmo morrer. 
-Voc vai atirar ou no vai, filho da puta? -gritou Joo Fernando 
E correu pra cima do policial, que disparou uma vez apenas, quando Joo Fernando estava a alguns passos dele. 
Covardia? Autodefesa? Cada um diz uma coisa, mas Joozinho viu um suicdio... 
A bala atingiu o corao de Joo Fernando. 
Um corao sofrido, que no merecia ter parado dessa forma, mas que talvez fosse o melhor para aquela pessoa. 
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Joo Fernando havia perdido a esperana de uma vida melhor. Havia perdido a esperana de encontrar pessoas que 
realmente faziam o bem, sem interesses prprios. Havia perdido a coragem de tentar melhorar. Havia chegado ao 
seu limite. Para ele, o melhor era morrer. 
E, depois que o tumulto foi se dispersando, depois que levaram Joo Fernando, Joozinho comeou a ouvir s 
elogios ao seu pai. Ele sabia que o povo iria falar bem de seu pai agora, mas s o que ele lembrava era como o seu 
pai procurou a morte. Porque ele humilhou aquele policial? 
O que soube foi que, quando o policial ia entrando no bar em que Joo Fernando estava, ele colocou o p na frente 
do policial, que caiu imediatamente. Ainda de quatro, o policial levou um chute de Joo Fernando, que o chamou de 
gordo, vagabundo, e outros nomes menos significantes. 
Mas, naquele lugar, ningum levava desaforo pra casa. Houve a perseguio e a morte. 
Joozinho passou a ter orgulho do seu pai. Sempre em seus sonhos ele pensava no chute que o pai dera no policial. E 
sentia orgulho por no ter chorado em nenhum momento do enterro de seu pai. 

Captulo 03A INFNCIA DE SANTO CRISTO 

Joo andava por uma rua de terra, dessas feitas por carroas de boi. Esta era uma estrada que ligava Boa Vista at 
Serra Preta. Boa Vista era a cidade natal de Joo. Uma cidade pequena, com casinhas mal acabadas. Serra Preta j 
era bem maior. Ficava a 36 quilmetros de distncia. Crescia muito mais do que Boa Vista, j que conseguia 
centralizar o mercado financeiro da regio. Todas as cidades da regio tinham um comrcio inferior ao de Serra 
Preta. 
Joo vinha tranqilo, quando pulou em sua frente o Maurcio, moleque da outra rua, lder de uma turminha rival  de 
Joo. Ele sabia que precisava tomar cuidado com o Maurcio, pois era invejoso e no aceitava que Joo pudesse 
fazer mais sucesso que ele. 
-Agora vamos acertar nossas contas -disse Maurcio. 
Pularam mais dois moleques que ficaram ao lado de Maurcio. 
-Pois , neguinho, chegou a sua vez. 
Encararam-se, cada um prevendo o prximo movimento do oponente. Deviam ter muito cuidado. Sabiam que 
qualquer vacilo era fatal. 
Joo sabia que estava em desvantagem. Ele precisava ser esperto para sair dessa. Alm de Maurcio ser maior que 
ele, estava acompanhado de dois moleques, maiores tambm. 
O primeiro soco de Maurcio acertou o ombro de Joo, que desequilibrou e deu dois passos para trs. 
-Olha, Maurcio, acho melhor voc me deixar em paz. Voc sabe que se fizer qualquer coisa comigo, depois eu e 
minha turma vamos pegar vocs e vocs esto ferrados... 
Joo arriscou. Sabia que no ia adiantar nada, mas precisava ganhar tempo para pensar em como fugir. Sim, a sada 
era fugir. Precisava perder essa batalha. De nada valia querer ser valente nesse momento. 
Os trs moleques j estavam rodeando Joo quando uma pedra acertou violentamente no brao de Maurcio. Surgia 
Z Luiz na mesma estrada. 
Z Luiz era o melhor amigo de Joo. Nunca fazia nada sem que Joo no estivesse presente. J tinha dez anos, um a 
mais do que Joo. Mas, em se tratando de malvadeza os dois eram da mesma idade. 
A pedrada acertou Maurcio, que, assustado, virou-se para Z Luiz, esquecendo-se por um momento de Joo. Foi o 
que Joo queria. Deu um chute na barriga de Maurcio e correu. 
-Corre, Z Luiz, vamos dar o fora -gritou Joo. 
Saram em desabalada carreira pela estradinha, sem olhar para trs. No viram nem que os dois moleques at 
tentaram correr atrs, mas quando viram que Maurcio estava cado, com as mos na barriga, pararam e voltaram 
para socorrer o amigo. 
Joo ainda corria, quando apontou para o caminho da casa abandonada. Z Luiz o seguiu. 
-Ah, ah, ah... -ria Z Luiz. -Voc viu s como ele ficou gemendo no cho? 
-Ah, ah, ah... Ele nunca vai esquecer esse dia -disse Joo. 
-Voc acertou ele direitinho. Que chute... 
-Eu tava com muita raiva. Aquele cara vem me perseguindo h muito tempo. Logo hoje me pegou desprevenido. Eu 
no tinha nada na mo. 
-Voc no pode andar sozinho por a... Quando voc vier por essas bandas voc me chama. 
Aquilo era a afirmao de uma amizade sincera, que estava baseada no sentimento mais forte existente nas pessoas. 
Era uma amizade que ningum duvidaria que um morreria pelo outro, se fosse necessrio. 


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Mas tambm era uma amizade ruim, entre dois moleques de rua, que no tiveram uma boa infncia. 
Z Luiz foi abandonado por sua me, quando ainda era bebezinho, em um orfanato da cidade. Sempre seguiu as 
maldades que os maiores faziam. Sempre nas bagunas, era um dos lderes. 
Aos sete anos, fugiu e vivia se escondendo por a. A princpio, o pessoal do orfanato o encontrava e o levava de 
volta, mas sempre ele arrumava um jeito para fugir novamente. Com o tempo, os funcionrios do orfanato foram se 
cansando e amolecendo. Estavam esgotados com os problemas causados por Z Luiz. Ele podia fugir que eles no 
iriam mais atrs. 
Z Luiz fugiu. Eles no foram atrs. E o mundo ganhou mais um menino de rua. 
Era negro, tambm, assim como Joo. E j sofria com o preconceito das pessoas. Aprendeu a roubar devido a esta 
discriminao. Ia pedir as coisas, mas percebeu que era muito difcil. As pessoas se fechavam para ele. Nunca 
conseguiu nenhum carinho. Sentia uma dor enorme quando pedia um prato de comida, tendo fome, e recebia um no 
como resposta. 
Com isso, aprendeu a tomar. Aprendeu a pegar o que no era dele. A princpio, comeou a pegar comida. Depois, 
passou a pegar brinquedos, roupas, e coisas desse tipo. 
Joo conheceu Z Luiz depois do enterro de seu pai. Joo foi levado para a casa de sua tia, mas na primeira chance 
ele fugiu. Ele no queria curtir aquele sentimento de perda ao lado daquelas velhas choronas. Foi para a beira do rio. 
Na beira do rio estava Z Luiz, num daqueles dias de depresso, causados pela solido. Era tempo das chuvas e o rio 
estava cheio, e aquele cantinho era bem silencioso. 
Joo sentou-se numa pedra e s ento percebeu aquele moleque em outra pedra. Ia se levantar para ir embora, mas 
resolveu ficar. Percebeu que o outro moleque tambm no se mexeu. Parecia estar chorando. 
Z Luiz disfarou as lgrimas, mexendo nos olhos, como se estivesse tirando um cisco. 
-O que aconteceu? -perguntou Joo. 
Z Luiz no respondeu. No sabia quem era aquele moleque. Por qu deveria falar com ele? 
Mas falou: 
-Nada. Quem  voc? 
-Joo. 
-E o que voc t fazendo aqui, no meu rio? 
-Seu rio? Eu no sabia que o rio tinha dono... O seu pai  dono dessa terra? -perguntou Joo.
-No  do meu pai.  minha terra.  meu rio. 
Joo admirou-se daquele neguinho. To mal vestido, sujo e dono daquilo tudo. 
-Posso ficar aqui um pouco? -pediu Joo. 
O Z Luiz pensou, fingiu que estava verificando o seu arquivo mental se podia deixar ou no. Afinal: 
-Pode, mas s hoje... -demorou um pouco e falou: -Meu nome  Z Luiz... 
-Z Luiz? J ouvi falar de voc. Voc no  do orfanato? 
-Era. Agora no vou voltar mais pra l. 
-Eu no gostaria de morar num orfanato. Dizem que os caras, l, so muito ruins. Dizem que batem na gente...
- muito ruim mesmo. Mas comigo, no. Eu mandava em todo mundo, l -se vangloriou Z Luiz. 
E comeou a falar o que fazia com os outros meninos, com as meninas e tudo o que acontecia de ruim. Falou de 
coisas que aconteceram e coisas que ele queria ter feito, mas, como ningum podia desmentir, ele inventou uma 
srie de perversidades. 
-Ah, desse jeito at me deu vontade de ir morar num orfanato -disse Joo, em sua ingenuidade de sete anos. To 
homem, to menino. 
-Voc no tem famlia? -perguntou Z Luiz. 
-Minha me morreu, faz tempo. Meu pai morreu ontem. Foi enterrado hoje. Mas, eu no morava com ele. Ele 
sempre bebia muito e ficava jogado pelas caladas. Eu aprendi a morar nas ruas porque no gostava de morar com a 
minha tia. E voc? Mora aonde? 
-Eu moro na rua, eu no tenho ningum. Eu moro em qualquer lugar. 
E da surgiu uma grande amizade. A amizade dos meninos de rua. Alguns dias depois comearam a se encontrar 
mais vezes e a aprontar cada vez mais. 
Se Joo aprontava alguma coisa, Z Luiz queria fazer pior. Se Joo quebrasse uma vidraa, Z Luiz queria quebrar 
duas. 
O tempo passou, a amizade cresceu. Transformaram-se em irmos. 
-Eu j sei o que vou ser quando crescer -disse Joo. 
Joo j tinha onze anos e estava se tornando um belo rapaz. Estava alto, com um corpo forte, musculoso, ajudado 
pelas brincadeiras nas rvores, a natao no rio. 
-E o que voc vai ser? -perguntou Z Luiz. 


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Estavam mais uma vez na beira do rio. Mas, desta vez, era um ano de seca, e o rio estava seco. Havia s o leito do 
rio. 
-Vou ser bandido. 
-Bandido no  profisso... 
-Pra mim vai ser. 
-E por que voc escolheu isso, Joo? 
-Eu no sei. No consigo tirar da cabea como meu pai morreu. De vez em quando eu sonho com ele me chamando 
para conversar com ele. Nunca sonhei com minha me, mas sempre que sonho com meu pai, no final do sonho ele 
morre baleado por aquele policial. Eu j te falei que assisti na hora que ele levou o tiro? 
-J, Joo... 
-Ento... Eu acho que, por pior que meu pai tenha sido, ele no precisava ter morrido daquele jeito... 
Z Luiz sabia que era inevitvel acontecer isso. Se no acontecesse nada de diferente, tanto ele quanto Joo seriam 
bandidos. Estavam cada vez mais ousados. Agora j estavam tendo mais necessidades. Se queriam alguma coisa 
mais cara, tentavam roubar algo e trocar por aquilo. Foi assim com o walkman, com o videogame, com a cmera 
fotogrfica... 
-Joo, eu gosto da vida que a gente est levando. Mas, acho que falta alguma coisa... 
-Eu sei, Z Luiz... No fica achando que eu no sei que o que ns fazemos  errado... Mas, tem muita injustia, no 
tem? 
-Ah, isso tem. 
-Ento... Voc viu o Jairzinho, aquele menino, filho do seu Gerson? No falta nada pra ele. Por qu uns tem muito e 
outros no tem nada, que nem a gente? 
Z Luiz lembrou de Jairzinho. Era um menino branquinho, bem limpinho, com roupas novas e bem passadas. Mas 
ficava preso em casa o dia todo. No saa pra nada. A me no deixava. Tinha as coisas, mas no tinha amigos para 
brincar. 
-Sabe, Joo, o que eu no gosto mesmo  quando fazem discriminao com a gente. Acham que porque a gente  
preto e pobre devem ficar com medo da gente... 
-Ah, eu tambm no agento... E j viu como nos tratam quando a gente anda juntos?
-, se vi... 
-Ento. -disse Joo. -Quantas vezes a gente no ia em algum lugar s pra conhecer, ou pra fazer alguma coisa 
normal, igual aquele dia em que a gente foi na sorveteria. 
-Ah, aquele dia eu fiquei com muita raiva... 
-Pois ... Trataram a gente que nem bandido. Aquele policial at nos expulsou de l... Mandaram a gente embora 
sem a gente ter feito nada errado...
-. Mas a gente se vingou... -disse Z Luiz, sorrindo. 
Joo se lembrou, com orgulho da vingana. Lembrou-se de como pularam o muro da sorveteria. Entrar no prdio foi 
mais fcil, porque eles esqueceram uma janela aberta. Ele e Z Luiz foram at onde os sorvetes eram fabricados, 
abriram os freezers e urinaram nos sorvetes que j estavam prontos. 
-Foi legal... -disse Joo. -Ser que eles venderam os sorvetes assim mesmo? 
-Eu no sei... S sei que nunca mais voltei l, nem chupei mais sorvete daquela sorveteria... Ah, ah, ah 


Captulo 04PEQUENAS EXPERINCIAS 

-Joo, quanto voc pegou? -gritou Z Luiz. 
Joo corria rpido, subindo a rua, em direo  casa abandonada. 
-Eu no sei, eu no contei ainda... -respondeu Joo. 
-Joo, espera por mim... -gritou Sandrinha. 
Era uma garota que acompanhava Joo e Z Luiz em suas maldades. Ela era muito til para eles, porque, como 
vinha de famlia rica, nunca iriam suspeitar de que estava envolvida com os pequenos furtos que os dois praticavam. 
-A Sandrinha foi muito esperta. Assustou-se l no fundo da igreja, deu um grito e desmaiou, assim que acabou a 
missa. O dinheiro ainda estava em cima da mesa do padre. Todo mundo correu pra ver o que tinha acontecido e foi 
fcil pegar todo o dinheiro e vir ligeiro pra c. Ningum me viu. 
-E ningum suspeitou que eu estava s fingindo -disse Sandrinha. 
Riram os trs, contando quanto dinheiro haviam conseguido. Joo pegou o dinheiro e os trs j haviam decidido com 


o qu iam gastar. J fazia muito tempo que queriam experimentar maconha e agora era o momento. Joo pegou todo 
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o dinheiro e foi direto ao bar onde estava o Alemo, o cara que ofereceu maconha para Joo, uma vez. Alemo sabia 
que estava conquistando um cliente e foi supercamarada. Pegou sua melhor erva e ensinou tudo a Joo. Como 
enrolar, como acender, a tragar, a segurar a fumaa, tudo. 
-Joo, voc vai se sentir o mximo. 
Joo j era o mximo, mas tudo bem. Ele queria ser mais do que era. Pegou o embrulho, uns guardanapos na mesa e 
rumou para a casa abandonada. 
Encontrou Sandrinha e Z Luiz se beijando. 
-O que vocs esto fazendo? Parem j com isso... Chegou a erva! -brincou Joo. 
Joo, com toda a prtica que a natureza lhe ensinou, abriu o pacote, fez o cigarro, parecendo ser muito experiente. 
-Joo. Parece que voc j fumou isto -falou Sandrinha. 
-Eu acho que levo jeito para maconheiro -falou Joo, brincando. -Mas, nunca usei. Uma vez quase usei, mas na 
hora ag, os caras acharam que eu era muito pequeno e no me deram. 
-Acende logo, Joo -falou Z Luiz. 
Joo acendeu. Ele j havia fumado cigarro algumas vezes. No se assustou com a primeira tragada. Mas foi rpido, 
com receio de ser diferente do cigarro. Passou para Z Luiz, que fez o mesmo e passou para Sandrinha. 
Mais tarde, rindo  toa, eles pareciam ter descoberto o paraso. 
-Joo? -chamou Z Luiz. 
Joo no respondeu. Era como se estivesse viajando em seus pensamentos, longe... 
-Joo? -gritou Z Luiz. 
-Oi! 
-No me escutou? 
-Tenho andado distrado... 
-Como voc est? 
-Ainda estou confuso... S que agora  diferente. Estou to tranqilo e to contente. No sabia que era assim.  
gostoso. E voc? 
-Estou tonto. Ser que  normal? 
-Eu tambm! -falou Sandrinha. 
- claro que  normal. -responde Joo. - a primeira vez que a gente usa. Deve ser assim mesmo... Vamos fumar 
outro? 
-Ah, eu no quero, no, Joo. -respondeu Z Luiz. -Ns j fumamos dois. 
-Eu tambm no. -falou Sandrinha. 
Joo volta aos seus pensamentos. Estava longe. Estava lembrando do que havia vivido at ali. J estava com doze 
anos e no tinha perspectivas de melhorar a vida. 
-Sabe, Z Luiz, estava pensando nas coisas que eu vejo na televiso. Ser que  tudo verdade? 
-Uma parte, . Outra, no. O pessoal diz que tem um monte de coisa naquelas novelas que so falsas. So que nem 
os filmes. De mentirinha. 
-No... Isso eu sei -falou Joo. -Eu digo aquelas paisagens. Voc j foi na praia? 
-Eu no! -disse Z Luiz. 
-Eu fui -falou Sandrinha. -Uma vez eu fui com minha famlia. S no fomos mais porque meu pai s pensa em 
ganhar dinheiro. No se preocupa em se divertir. Ele no vai nem deixa minha me ir sozinha... 
-Um dia ainda vou ter uma casa na praia -disse Joo. -Vou acordar, andar descalo na areia. Molhar os ps na 
gua. De tarde, quero descansar. Depois ir at a praia, ver se o vento ainda est forte. Vai ser bom subir nas pedras e 
deixar as ondas me acertarem. 
E os trs ficaram conversando sobre a praia, sobre os filmes, sobre televiso. 
J estava escurecendo quando Sandrinha resolveu ir embora. Tinha uma casa e tinha que dar satisfao de sua vida. 
Os seus pais no a queriam metida em encrencas e nem de longe sonhavam com o envolvimento dela com aqueles 
dois. 
-Tchau, vocs dois, eu vou pra casa. Depois a gente se v... 
Sandrinha piscou para Joo, deu um beijo no rosto de Z Luiz e desceu a rua em direo  sua casa. 
-Joo, sabe... Eu e a Sandrinha resolvemos namorar... O que voc acha? 
-Legal, Z Luiz. Ser que vai dar certo? 
-Por que no? 
-Voc sabe... Ela  rica; voc, pobre. Ela, branca; voc, negro. 
-Porra, Joo! Voc tambm  negro e pobre. No est percebendo que est com preconceito? 
Joo parou pra pensar no que disse. Foi como um murro no estmago. Realmente. Ele, negro e pobre, era o primeiro 
a ter preconceito. Estava sofrendo por antecipao. 
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-Voc tem razo, Z Luiz... -disse Joo. -Desculpe! 
-Eu sei que vai ser difcil, Joo. Eu sei que nunca vamos poder nos declarar abertamente para cidade. Mas, ns 
podemos curtir um ao outro, por muito tempo. Eu gosto dela e ela gosta de mim. Acho que vai dar certo. 
-Tomara que sim... 
-E voc, Joo? Com quem est saindo, agora? 
-Nem te falo. Sabe a Cida, aquela loirinha l da rua Quinze? 
-Sei, Joo. No vai me dizer que voc...?
-Pois ...  o que sempre falo... Se voc no tentar, no sabe o que pode acontecer... Eu fiquei a fim dela, falei pra 
uma amiga que queria falar com ela. Ela topou, cara! Marquei um encontro l no fundo da escola, no domingo. 
Rolou uns beijos e depois, voc nem sabe, mas de vez em quando estou dormindo na casa dela... Pulo a janela, de 
noite,  claro. Sem o pai dela ver... 
-Joo. Voc ainda t com a mania de dormir na casas de suas namoradas? 
-Por qu no? 
-Quando o pai de uma menina dessas te pegar, voc vai ver... 
-Sai fora! Se eu pensar nisso, no vou fazer nada. Por falar nisso, daqui a pouco tenho que ir na casa dela. 
-Quantas meninas voc j comeu, Joo? -perguntou Z Luiz. 
-Olha, Z Luiz, -respondeu Joo -um monte. Voc sabia que quando a fama espalha, a gente no precisa mais 
procurar?
- por isso que eu nunca sa com ningum...
- porque voc  tmido. L no orfanato no tinha isso? 
-Ah, tinha umas coisas, mas eram coisas de criana... 
-Por qu voc no tenta com a Sandrinha? 
-Voc acha que ela quer? 
-Se eu te falar uma coisa, voc no fica com raiva? 
-Claro que no... -respondeu Z Luiz. 
-Eu j peguei a Sandrinha... -falou Joo. 
-At a Sandrinha? 
-Como voc acha que ela ficou minha amiga?
, realmente, Joo, em relao a sexo, estava muitos passos  frente de Z Luiz. E foi Z Luiz quem perguntou: 
-E como  que eu fao? Eu no sei nem como comear... Eu no quero passar vergonha... 
-Z Luiz. A gente j nasce sabendo. Quando voc tiver beijando ela, deixa a mo escorregar um pouco e voc vai 
perceber que ela vai te ajudar. Eu conheo a Sandrinha... 
E, como um professor, Joo vai falando o que deveria ser feito e o que no deveria. Z Luiz escutava tudo 
atentamente, perguntando alguma coisa de vez em quando. 
Escureceu. Era preciso seguir a vida. 
-Joo, amanh  o grande dia. Vamos pegar o Maurcio. Vamos descontar os murros que ele j nos deu. Chamei o 
Andrezinho e o Marquinhos para ajudar a gente. 
-Legal. Eles toparam? 
-Claro! Eles so corajosos que nem ns. Vamos deixar o Maurcio esbagaado. 
-E como ns vamos fazer? 
-Vamos, bem cedinho, nos encontrar l no campinho. Quando ele descer a rua, a gente sai de trs do muro, l da rua 
Inocncio, aquele muro cado. O Andr e o Marquinhos saem por trs. No vamos dar chance pra ele. 
-E a que hora ns vamos? -perguntou Joo. 
-Voc vai dormir aonde, hoje? 
-Vou dormir com a Cida, lembra? 
-E a que hora voc sai de l? 
-Ah, quando o sol bater na janela do quarto eu corro pra rua. Bem cedinho, sem ningum ver... 
-Ento, a voc vai l pro campinho e espera a gente. 
-Beleza. Vamos descendo? 
E desceram para a cidade. Joo foi para um lado esperar a hora certa de subir para o quarto da Cidinha, e Z Luiz foi 
para o outro, tentar descolar um rango, como ele falava. 
Joo ficou ali por perto, at que uma loirinha apareceu na janela, apagou e acendeu as luzes do seu quarto trs vezes. 
Esperou um pouco e apagou definitivamente. 
Joo esperou um pouco, esgueirou-se e subiu no muro daquela casa. Com a habilidade natural que a vida lhe deu, foi 
fcil subir at a janela e pular para o lado de dentro. 


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Ningum o viu, mas eles sempre esperavam um pouco para acenderem as luzes. Cidinha sempre guardava alguma 
coisa para Joo comer. Naquele dia ela havia guardado um sanduche caprichado de po com presunto. Enorme. E 
um copo de suco de maracuj. Ela falava aos pais que iria comer o lanche no quarto. Os pais ficavam satisfeitos com 
a boa alimentao da filha. 
Joo no sabia porqu, mas, naquele dia a sua fome estava muito maior. Ele no desconfiava que era a maconha que 
fazia aquilo. Comeu o sanduche rapidamente e se tivesse mais dois, comeria ambos. Que delcia! Quem imaginou 
que ele viveria to deliciosamente? 
Depois, abraar aquele corpo clarinho, que tanto contrastava com a sua negritude. Ficava muito excitado. 
Tiveram uma noite maravilhosa. 
Cida tinha catorze anos, mais velha do que Joo. Gostava muito de sexo. Transava j h algum tempo e achava 
maravilhoso. Fazia loucuras para realizar seus desejos sexuais. No momento, Joo a estava satisfazendo. 
Dormiram abraados naquela noite. Logo pela manh Joo se esquivou do abrao de Cida e pulou a janela, para a 
rua. Foi para o campinho. 
Era cedo ainda, mas logo chegou o Z Luiz. Um pouco mais tarde chegaram o Andrezinho e o Marquinhos. Eles 
trouxeram dois pes com manteiga. Um para cada um. Eles sabiam conquistar uma amizade. 
Estavam os quatro conversando, medindo pedaos de pau, para usarem, caso houvesse necessidade. Ouviram duas 
mulheres passando e comentando:
- to cedo e j so tantas crianas com armas na mo... 
-Cruz credo... Vamos ligeiro! 
Perceberam que estavam chamando a ateno, mas j estava chegando a hora. Separaram-se. Dois para cada lado. 
L no incio da rua, viram Andrezinho levantando a mo, dando o sinal de que Maurcio estava chegando. 
Maurcio ainda estava sonolento quando comeou a atravessar aquela rua, mas o susto que tomou quando Joo e Z 
Luiz pularam na sua frente o fez acordar rapidamente. 
-E agora, Maurcio? O que voc vai fazer? -falou Z Luiz. 
-Isso a, Man... E agora? -gritou Joo. 
Maurcio ainda tentou correr, voltando o caminho, mas percebeu que Andrezinho e Marquinhos j haviam fechado a 
passagem. 
Foi uma surra feia, sem chance para Maurcio. Apanhou tanto que ficou no cho, gemendo. Perdeu dois dentes... 
Algumas pessoas acharam justo, j que Maurcio era malcriado, briguento e tinha muitos problemas sociais. Outros 
acharam injusto, porque Joo e Z Luiz tambm tinham seus problemas. E foram quatro contra um. 
Apesar da opinio de todos, a famlia de Maurcio tomou a deciso de mudar de cidade e recomear a vida na cidade 
vizinha. 
Maurcio nunca mais foi visto em Boa Vista. A justia havia sido feita. 


Captulo 05 
ENSINANDO AO PROFESSOR 

O tempo passou e Joo j tinha quinze anos. A sua vida continuava igual. No tinha perspectivas de um futuro 
melhor e percebia a discriminao em tudo quanto ia fazer. Sentia a m vontade das pessoas em ajudarem-no. 
Entrou na escola, mas percebeu que sabia mais do que a maioria. Sempre foi preocupado em estar mais adiantado 
que os outros. S no tinha pacincia em ficar preso em uma sala de aula por horas e horas. 
J sabia ler e escrever, mas tinha muita coisa que no entendia. E uma grande maioria de lies foi aprendida na 
raa, na arte de viver a vida. 
Estudava num desses cursos recuperativos. Formaria quatro perodos em um ano. Pensou que com isso poderia 
ainda melhorar alguma coisa em sua vida. 
Sentia-se diferente, achava que a escola no era o seu lugar. A princpio no queria ir, mas, como no fazia nada o 
dia todo foi convencido pelos amigos. 
Na escola no entendia essas coisas complicadas de matemtica. Frmulas e mais frmulas que no sabia onde usar 
no dia-a-dia. No sabia para que estudar histria. Saber do passado? "Eu quero saber  daqui para frente. No 
mximo, uns dez anos atrs e j est bom demais" -dizia Joo, convencido de que estava certo. "O que eu quero 
saber de Egito, Roma...?" 
Mas, o mais engraado aconteceu em uma aula de portugus. Joo discutiu feio com o professor. 
O professor estava ensinando verbos. O presente, o passado e o futuro. 
Joo j sabia disso, afinal, isso a gente aprende no dia-a-dia. Mas, ele nunca falou "tu", nem "vs". para que 
aprender? J estava ficando nervoso, quando o professor explicou: 


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-O tempo presente  o que est acontecendo agora. O futuro  o que vai acontecer ainda. E o tempo passado,  o que 
j aconteceu. Todos estes tempos tem divises. Por exemplo, no passado, se voc vai falar que fez uma coisa, como 
se diz? 
-Eu fiz... -responderam alguns alunos. 
-Isso! E se voc fosse fazer alguma coisa, mas por algum motivo no deu para fazer? 
-Eu faria...? -gritou uma vozinha l no fundo. 
-Isso mesmo. 
Foi nessa hora que Joo se levantou. 
-Eu no aceito isso, no -falou Joo. 
-O que foi, Joo? -perguntou o professor. 
-Eu no aceito esse passado que voc falou. 
-Passado Imperfeito? Ou Pretrito Imperfeito? Por qu, Joo? 
-Porque agora eu posso tomar a deciso, ou eu fao ou eu no fao, mas, no passado, j passou. Como eu posso 
falar que faria? Eu estou mentindo... 
-Joo, isso  outra coisa... Ns estamos conjugando verbos... 
-Mas, tem que ensinar direito. Acho que o imperfeito no participa do passado... 
-Joo, voc no pode agir assim... Sempre, em toda a minha carreira de professor eu ensinei assim, todos os 
professores ensinam assim, por qu isso de querer no aceitar? 
-Por que eu no aceito... Posso? Acho que quem inventou isso fez uma jeito para termos uma desculpa do passado. 
"Sabe, eu no pude ir na sua casa... 
Eu iria, mas chegou algum l em casa... Desculpa. Professor, simplesmente, o que aconteceu? Eu no fui na sua 
casa. Chegou algum em casa e eu no fui. Iria? Pode ser verdade ou pode ser mentira... No deveria fazer parte do 
nosso vocabulrio.... 
Nisso, os outros alunos comearam a cochichar, uns concordando, outros discordando. 
-Acho que a nossa acentuao tambm est errada -gritou algum do meio dos alunos. 
-E para que ficar colocando "esse" onde deve colocar "z". 
-Parem com isso...! -gritou o professor. 
Mas no tinha mais jeito. O caos estava formado. Criou-se um tumulto que o professor no conseguiu mais 
controlar. Ele no teve mais como terminar a aula, naquele dia. 
Joo foi chamado  diretoria. Foi suspenso por uma semana para aprender a no ficar criando polmica na aula e 
incentivando os alunos a ficarem contra o professor. 
To pouco Joo ia  escola e quando ia, aconteciam essas coisas. E tinha bom aproveitamento. Mas, neste dia, Joo 
resolveu no ir mais  escola. 
Resolveu que deveria mudar o rumo de sua histria, falar o seu portugus, e resolver os seus problemas... 
Joo continuava amigo de Z Luiz, mas a sua turma estava maior. Percebeu que muitos amigos estavam se 
aproximando, cada um com tipo de problema. 
-No sei o que  direito, s vejo preconceito -falou Joo para Z Luiz. 
-Eu tambm, Joo. Eu tambm. O que podemos fazer? O sistema  assim... 
Joo, h algum tempo, passou a conversar mais sobre poltica com algumas pessoas influentes da cidade. Todas da 
oposio. Joo havia aprendido a entender alguns problemas sociais que ocorriam, como o que aconteceu com seu 
pai h alguns anos atrs. 
-Ah! Sei l... Acho que temos obrigao de fazer alguma coisa. No podemos ficar sempre pensando s na gente. 
Eu acho que estou pegando um pouco daquele jeito do Robin Hood. 
-Aquele do filme? -perguntou Z Luiz.
-... Estou achando que a gente deveria roubar dos ricos e dar para os pobres. -brincou Joo. 
-Voc t brincando, n Joo? 
-Claro que estou. J  perigoso a gente pegar estas coisas baratas que a gente pega, imagina se ns comeamos a 
roubar para os outros! Mas, acho que a gente tem que fazer alguma coisa. 
Joo estava pensativo naqueles dias. Depois que abandonou a escola a sua mentalidade cresceu muito. Percebeu que 
com as palavras certas conseguiu fazer todos os alunos a seguirem seus comandos. Estava comeando a se tornar um 
lder e no sabia. 
-Z Luiz. Aprendi a roubar para sobreviver. Aprendi o que era certo com a pessoa errada. Nada era como eu 
imaginava. Eu pensava na vida como uma brincadeira. Nunca levei nada to a srio. Agora estou pensando em algo 
grande. Voc topa participar de um negcio grande? 
-O que , Joo? 


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-Estou pensando em invadir o prdio da prefeitura, de noite, e escrever umas mensagens nas paredes. Sabe... Falar 
que a gente existe. 
Z Luiz era amigo de Joo at debaixo d'gua. Ele nunca deixaria Joo fazer uma coisa dessas sozinho. 
-Joo. Voc  o meu melhor amigo. Nem sei desde quando estamos juntos. Vou com voc at o fim do mundo. 
Voc sabe disso. Mas que vai ser divertido, isso vai. 
-Ento, vamos preparar as coisas. Vamos fazer nossos planos. Imagine como seria se aceitassemos tudo o que nos 
mandam fazer? Seramos como robs. Ns seriamos aceitos no meio deles s se fizessemos o que mandam. 
-Mas, a no poderiamos fazer tudo o que quisessemos.
- isso a, Z Luiz. Vamos comear a modificar isso. 
Era uma quarta-feira. Joo planejou entrar na loja de tintas,  noite, roubar umas cinco latinhas de spray e depois 
irem  prefeitura, pichar. J tinham escrito o que iriam pichar, em um pedao de papel. Tudo estava certo.
 noite, perto das onze, entraram na loja de tintas. Foi at fcil. Quebraram uma janela de vidro, destrancaram-na e 
entraram. 
A cidade quase no tinha violncia, nem roubos. O ndice de arrombamento era mnimo, e quando ocorria algum 
roubo, geralmente eram coisas insignificantes, como o que estavam fazendo. 
A populao no vivia com medo como nas capitais. 
Pegaram quatro latinhas de tinta spray, uma de cada cor. Saram com cuidado e foram para a prefeitura. Sabiam que 
havia vigia noturno, que mais dormia que vigiava. 
Mas, neste dia, a sorte no estava ao lado deles. O vigia viu quando eles entraram no prdio. Acionou a polcia da 
cidade, que chegou em dez minutos. 
A polcia encontrou os dois marginais, mas eles j haviam pichado algumas paredes internas do prdio da prefeitura. 
Quando foram levados para o carro de polcia, Joo percebeu que estava diferente. O dio que ele sentiu durante 
toda a sua vida tinha mudado. Ele agora tinha dio do sistema. 
E mais dio ele sentiu quando o prefeito o visitou no dia seguinte. 
Joo e Z Luiz estavam em uma cela da cadeia local. Esperavam que o prefeito os libertasse, j que no era uma 
coisa muito sria, afinal haviam pichado apenas a esttua do fundador da cidade, o cofre, e apenas trs paredes. 
O atentado de Joo repercutiu por toda a cidade, alguns contra, outros a favor. Falavam sobre o Joo, o filho de um 
bbado, que perdeu a vida depois de ser enganado pelo prefeito da poca, tio do atual prefeito. O prefeito havia 
mudado, mas o modo de governo ainda era o mesmo. 
Falavam sobre Z Luiz, um Z ningum, ex-morador do orfanato. 
Falavam que, duas pessoas que no tinham eira nem beira tiveram uma atitude respeitvel. Tentaram mandar uma 
mensagem que nem pessoas mais experientes teriam coragem. 
O prefeito ficou com cime da repercusso do assunto. Ele sabia que, no futuro, teria problemas com eles. 
Depois de verificar que nenhum dos dois tinha famlia poderosa, as quais pudessem prejudic-lo politicamente, 
resolveu dar uma lio nos dois moleques. 
Iria deix-los presos alguns dias e depois os libertaria, humilhados e sem coragem para fazer outro ato daqueles. 
Encontrou os dois sentados no cho da cela. 
-Quer dizer que foram vocs dois os safados que picharam a minha prefeitura? -perguntou o prefeito. 
Joo levantou, abruptamente. 
-Fui eu mesmo... Por qu? -respondeu, com ignorncia. 
-Seu desaforado, isto vai te custar caro...
- assim que funciona, no ? Vai custar quanto? Como eu sou negro e pobre, provavelmente eu devo pagar sendo 


o seu escravo... 
-Moleque atrevido. Voc est enrascado e quer se encrencar mais ainda? 
-Encrencado ficar voc quando o povo perceber quantas falcatruas voc anda fazendo... -disse Joo, sem saber 
direito o que falava, acompanhando o discurso da oposio. 
-Moleque safado -disse o prefeito. E, virando-se para o delegado, ordenou: 
-Mande este moleque para o reformatrio, e este outro pode deixar dormir aqui uns dez dias, depois pode soltar. 
Virou a costa para Joo e ia saindo, quando este gritou: 
-Um dia eu volto e vou te mostrar quem  safado, velho miservel. 
O prefeito no agentou. Virou-se para Joo, furioso: 
-Voc no sabe o que est falando. Olha para voc. Olha aonde voc est, seu moleque. Voc no v que perdeu a 
guerra. Voc no v que sou eu quem manda aqui? 
-Vocs venceram esta batalha. Quanto  guerra, vamos ver... -ainda gritou Joo, quando o prefeito j estava saindo. 
Joo estava humilhado. O que fazer? Tudo deu errado, desta vez. E onde foi que eles falharam? 
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Joo se agachou em um canto, colocando a cabea entre as pernas. Z Luiz percebeu que o amigo estava sofrendo 
demais. 
-Joo, eu vou com voc. Vou fazer confuso e vou com voc... 
-No, Z.  preciso voc ficar aqui. Apenas me espere que um dia eu vou voltar. 
-Mas, quanto tempo ser que voc vai ficar l? 
-Isto no importa. Fique aqui e faa alguma coisa para ajudar este povo explorado, estes coitados que so 
dominados e nem sabem disso. Igual foi meu pai, um dia. 
-Mas, Joo, eu no sou igual a voc. Eu durmo o dia inteiro, e a, no  direito, porque quando escurece estou a fim 
de aprontar. 
-Mas isso vai acabar. Voc est se transformando. Eu percebo isso. 
-Tudo bem, Joo. A partir de agora eu vou prestar mais ateno ao que acontece com o povo. Quando voc voltar 
ns vamos lutar contra isso que est a. 
Joo estava contente. Havia conquistado mais do que um amigo. 
Mas, no dia seguinte o tempo havia mudado radicalmente. Uma tempestade se aproximava. 
-Joo, Deus mandou os seus anjos se despedirem de voc. 
-Obrigado, Z. Espero que seja Deus. 
-Pra com isso, Joo. Vai ser por pouco tempo e voc estar de volta. 
-Assim eu espero, meu irmo. Assim eu espero... 
Mas Joo estava morrendo de medo do que iria acontecer naquela mudana. 
Ele esperava que fosse uma coisa simples, mas estava com medo do que encontraria. 
-Z Luiz, lembra de quantos banhos de chuva a gente tomou? 
-Foram tantos, n Joo! 
-Andar a p, na chuva, s vezes, eu me amarro -disse Joo. 
-Eu gosto dos pingos da chuva, dos relmpagos e dos troves -disse Z Luiz. 
E ficaram olhando a escurido que se aproximava. 
-Sabe, Joo. A tempestade que chega  da cor dos teus olhos. 
Joo sabia o que Z Luiz queria dizer. Joo tambm estava sozinho. Precisava de carinho, s vezes. Mas, sem 
famlia, quem poderia dar este carinho? 
Joo percebeu que Z Luiz no era mais um amigo. Era muito mais do que isso. Era o seu verdadeiro irmo. Era o 
irmo que nunca teve. E sabia que Z Luiz tambm pensava assim. 
-Z, voc ser sempre o meu irmo. Onde eu estiver voc ser muito importante para mim. 
-Voc tambm, Joo. Eu gosto muito de voc. 
-Z, eu preciso ter amigos, eu preciso ter dinheiro, eu preciso de carinho. 
E chorou. 
Um choro silencioso, que Z Luiz percebeu entrando em sua alma. 
Era o choro de um heri. Um heri incompreendido. 
Dali a pouco a sirene tocava, indicando que Joo estava sendo levado para o Reformatrio. 
A sirene anunciava para a cidade que o prefeito havia ganho mais uma briga. 
Era como se a sirene falasse: "Eu sou o prefeito, sou todo-poderoso e vocs devem me obedecer". 
Mas, Joo e Z Luiz prometeram mudar essa voz. 


Captulo 06O REFORMATRIO 

O reformatrio no era como Joo imaginava. Era muito pior. 
Ali dentro, presos, estavam os piores elementos da regio. Estavam juntos, bandidos, ladres e traficantes. E todos 
eles com idade menor de dezoito anos. 
Joo, quando chegou, foi motivo de chacota por parte dos mais velhos. Passou por diversos tipos de iniciao, que o 
humilhavam e o feriam internamente. Eram cascudos, pontaps e murros que pretendiam mostrar quem  que 
mandava no pedao. 
Joo resistiu bravamente, a princpio, mas foi cedendo  humilhao e no reagia como no incio. Isolou-se em um 
cantinho e tentava fugir dos outros moleques. 
Pressionaram Joo por dinheiro, comida, cigarro ou outras coisas. Insistiram que ele deveria mandar os parentes 
trazer essas coisas para ele, mas, depois dele insistir que no tinha parentes, que era rfo, os outros moleques foram 
cedendo  presso. Afinal, sempre quem chegava naquele lugar era miservel mesmo. 

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Depois de uma semana, Joo j havia se acostumado e at participava de algumas brincadeiras. Havia um grupo 
novo no qual ele se infiltrou. 
Esse grupo de cinco moleques estava isolado dos outros, mas foi a forma deles se prevenirem contra algum ataque. 
Na prtica, aprenderam que a unio faz a fora. 
Nesse grupo tinha o Guto e o Neco, amigos, da cidade vizinha, que roubavam pequenos comrcios. O Grilo foi 
preso depois de matar um aposentado, atrs de algum dinheiro. O Bernardo era grande, forte, e foi preso por realizar 
pequenos furtos. 
Juntos com Joo, formaram um grupo, mas que no tinha nenhum tipo de poder. Sabiam que os mais velhos 
mandavam e desmandavam. Eles no eram burros a ponto de tentarem algum tipo de herosmo e depois receberem 
algum castigo. 
Desse grupo, apenas Guto recebeu visita na quarta-feira. Era uma garota bonita, que ficou com ele em uma sala 
separada, onde havia grande quantidade de vigias. Eles no permitiram a entrada da garota porque sabiam que no 
seria bom para o restante dos detentos, principalmente por Guto ser recm prisioneiro. 
Joo sentiu inveja. No tinha ningum que se preocupasse por ele. Mas, ao invs de sentir tristeza, era como se 
estivesse brotando um outro sentimento dentro dele. 
A sua revolta era maior. A vida no havia dado chance a Joo, o prefeito no teve decncia e agora estava pronto a 
ser pior do que era. Afinal, ms companhias no faltavam. O dio aumentava dia aps dia dentro de Joo. 
No sbado, Guto se encostou a Joo, e sussurrou algumas palavras: 
-Joo, estive andando por a e escutei uns papos que me assustaram. 
-O que foi, Guto? -perguntou Joo. 
-Estava passando por um lugar e vi dois caras conversando que estavam a fim de te pegar. Parece que no vai ser s 
na porrada... 
Joo assustou-se: 
-E vai ser o qu? 
-Joo, os caras querem te fazer de mulherzinha... Os caras falavam em te comer! 
Joo ficou branco. No tinha pensado que seria fcil, mas j havia dez dias que estava ali e no pensava que os 
outros moleques ainda pensavam em molest-lo. Afinal, j haviam parado com a mania de dar cascudos e chutes 
neles. 
-Quem foram os caras, Guto? -perguntou Joo. 
-Olha, Joo, desculpa, mas eu no sei quem eram. Voc sabe, eu tava andando e s ouvi o papo. Se eu fico olhando, 
voc imagina o que os caras no iam fazer comigo. 
Joo sabia. Ele tambm no encarava ningum. No era por medo, mas por respeito. Sabia que no momento, era o 
melhor a fazer. 
-Guto, eu no sei por que isso. Todo mundo aqui  gente ruim. Todo mundo aqui tem um crime para pagar. para qu 
essa mania de querer ser melhor do que o outro? 
-Eu sei, Joo. Eu tambm no entendo. 
-Valeu, Guto, obrigado por me falar. Eu vou tomar mais cuidado. 
A partir daquela noite Joo dormiu diferente. Acordava por qualquer coisa, qualquer barulho. Tinha conseguido um 
cantinho onde pudesse dormir. No tinha colcho, que eram s para os mais velhos. Estendia algumas roupas no 
cho e dormia sobre elas. 
Passaram-se cinco dias que Guto havia falado aquilo e Joo j estava achando que nada ia acontecer. Comeou a 
relaxar aos poucos, entrando na vida normal do reformatrio. 
Estava lavando as suas poucas roupas num canto do prdio, quando percebeu um grupo de moleques se 
aproximando. Estava numa espcie de corredor e no tinha como fugir para frente. Atrs havia a parede que 
terminava o prdio. No havia chance para escapar. Joo j pensava na luta que teria para no permitir a humilhao 
que o esperava. 
O lder daquele grupo era o Roger. Joo j o conhecia e sabia que ele era violento. No podia dar moleza para ele, 
mas sabia que Roger o espancaria at a morte, caso fosse necessrio. 
Roger era o lder dos Anjos, grupo radical de dentro do reformatrio. Eram violentos, e j haviam at cometido 
crimes dentro da priso. O grupo rival, os Beatos, era menos violento, mas os dois grupos no se bicavam. Joo, 
nestes poucos dias que estava ali, j havia presenciado algumas brigas entre membros das duas gangues. 
-Joo? -disse Roger. -O seu nome  Joo, n? 
Joo se assustou, pronto para sair no tapa.
- -respondeu Joo, com determinao. 
-Eu sou o Roger. Voc j me conhece, n? Voc sabe que sou eu quem manda neste reformatrio? 


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Joo ficou calado. No sabia o que falar. Se falasse que sim, poderia ser considerado fraco, puxa-saco. Se falasse 
que no, poderia ser compreendido como um membro dos Beatos. 
-Joo, voc nunca participou de nada no prdio. Nunca deu dinheiro, nem cigarro, nunca brigou e fica a pelos 
cantos. Ento, Joo, a gente resolveu te dar uma moral. 
Joo percebeu que um dos moleques tinha um estilete em uma das mos. Outro trazia um soco ingls, que o 
machucaria, com certeza, caso fosse lhe acertado um murro. 
-Ns sabemos que voc no  mulherzinha, mas resolvemos te dar uma chance de escapar do que preparamos para 
voc. A gente no gosta de machucar ningum que no fez mal para gente, mas, voc precisa tomar uma deciso. Ou 
voc entra na nossa turma, ou vai para o lado de l. E a, ns vamos passar a dar umas porradas em voc... 
Joo sabia o que ele queria dizer. Roger estava intimando-o a tomar uma deciso e no ficar em cima do muro. 
-Pois , mano -falou o outro rapaz. -Eu sou o Beco. Antes era famoso por entrar nas casas, pelo telhado. Agora 
sou famoso por no ter d de matar um cara. Sacou? 
Beco estava com o estilete na mo. 
-Aqui tem muito bandido. Ningum liga se morrerem alguns -falou o outro moleque. -Eu sou o Geraldo. 
-E eu sou o Neto. T aqui h um ano e meio. 
Joo percebeu que a turma no queria molest-lo. Apenas queriam que Joo ficasse por dentro do que estava 
acontecendo. Sabiam que se no apertassem Joo, ele poderia partir para a turma dos Beatos. 
-E eu sou o Joo -afinal, Joo falou. -Eu vim de Boa Vista. 
-Boa Vista? E em Boa Vista tem bandido? Nunca ouvi falar... 
Joo se lembrou do Z Luiz, e do prefeito que o havia mandado para aquele lugar. 
-Pois , cara. Eu ca numa cilada. Mas no vou ficar aqui muito tempo, no. 
Os caras ficaram por ali, at que Joo entendeu o que estava acontecendo. Ele era muito ingnuo. Os caras no 
estavam interessados em Joo, como eles disseram. Estavam conversando, dando um tempo, at que sobrou a grande 
chance para o que eles realmente estavam querendo. 
De repente, algum foi empurrado para dentro daquele corredor. Era Chico Doido, membro dos Beatos. Enquanto 
eles estavam conversando com Joo, outros dois caras da gangue de Roger estavam cercando Chico, que estava ali 
por perto. Os outros rapazes na entrada do corredor eram da gangue de Roger, tambm. 
Foi s uma facada. Fatal. Estavam a uns dez metros de Joo. O grito de Chico foi terrvel. Ainda algum tempo 
depois, Joo se lembraria daquele grito. 
O prprio Roger havia dado a facada. Ele se voltou para Joo, entregou o estilete em sua mo e disse: 
-Pronto, neguinho, agora t com voc. Agora ns vamos te conhecer. 
Pouco depois chegavam os agentes. Deduziram logo que havia sido uma briga de Joo e Chico, e que Joo havia 
levado vantagem. 
Joo se calou. No falou nada nem quando foi transferido para a solitria. Um quartinho sem janela, sem cama, sem 
nada. Joo foi deixado l durante trinta dias. Quando saiu, estava muito debilitado. Mas, havia crescido sua moral. 
Para quem no sabia do fato, foi Joo quem matou o Chico. Os Beatos estavam prontos para pegar Joo. E os Anjos 
estavam apoiando-o. 
Joo recuperou-se aos poucos. J fazia quase trs meses que ele estava preso, quando recebeu a visita de Z Luiz. 
A emoo foi enorme. Lembrava-se com carinho do seu irmo. No o considerava mais como um amigo, mas sim 
como um irmo. 
-Desculpa, Joo, no ter vindo antes. Mas, eu tinha medo de como te encontraria aqui dentro. Voc sabe que a gente 
escuta umas conversas. 
-Que nada, Z. No comeo  fogo. Mas, depois, vai se enturmando. Aqui no  lugar para ningum, nem para o pior 
bandido, mas, voc sabe como eu cresci. Morava na rua, no tinha mordomia e sempre vivi sozinho. Aqui no  
muito diferente, cara. 
-Mas, Joo, e a violncia. A gente sabe que nesses lugares tm uns caras que sempre mandam mais. 
-Ah, isso tem, Z. Aprontaram uma para mim que eu to levando a fama at hoje. 
-O que foi, Joo. Saiu o comentrio l em Boa Vista que voc tinha feito uma besteira, aqui dentro. 
-O que falam por l, Z. 
-Ah... Falam que voc matou um cara... -falou Z Luiz. 
-Ento, mano, o que aconteceu foi o seguinte. Os caras aprontaram para cima do Chico e jogaram o material na 
minha mo. Eu tinha que agentar a fama seno tava fudido. 
-Como assim, Joo -perguntou Z Luiz, observando que Joo agora falava cheio de grias. 
-Ou eu assumia que matei o cara, ou eles me matavam. Fiquei preso na solitria um bocado de dias. Z, voc tinha 
que ouvir o grito do cara quando os caras enfiaram aquele estilete no peito dele. 
-Foi alto, Joo? 


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-, se foi... Foi um grito para acordar todo mundo em uma casa. 
-To alto assim? 
-Vou te falar uma coisa. O grito acordaria no s o pessoal da casa, mas toda a vizinhana. 
Joo mudou de assunto: 
-E como esto as coisas l em Boa Vista? 
-Olha, Joo, depois que voc veio para c eu fiquei meio perdido. Agora estou comeando a fazer umas amizades 
com o pessoal da poltica. Estou tentando aprender umas coisas diferentes, igual voc falou... Joo, estou ficando 
sabendo cada coisa do prefeito... 
-Z, vai aprendendo essas coisas... Depois que eu sair daqui, ns vamos aprontar para cima daquele prefeito... 
E seguiram conversando at o final da visita. 
Foi com tristeza que Z Luiz foi embora. Mas, ele estava satisfeito em ter visto o seu amigo com sade, e, apesar de 
tudo, com coragem de recomear a vida. 
E a vida no reformatrio seguia assim. Joo se enturmando cada vez mais. Participava de jogos, brincadeiras e 
festinhas com a turma dos Anjos. O cuidado com os Beatos crescia a cada dia. Escutava os rumores de que estava 
com os dias contados, mas ele sabia que se andasse em turma, no daria chance aos Beatos. 
O Guto continuava seu amigo. Apesar de no ser to influente, ele estava do lado dos Anjos. Talvez mais por medo 
do que por outra coisa. 
Sua namorada o visitava de vez em quando. Agora era mais livre e ela at circulava perto da entrada do 
reformatrio. 
O futebol era o esporte mais praticado naquele ambiente. Havia uma quadra central, onde os detentos faziam times e
jogavam suas peladas. Por incrvel que parea, no futebol no havia nenhum tipo de violncia.  claro que havia 
separao entre as gangues. No havia jogo entre membros de gangues rivais. 
Havia os baralhos, os domins, os dados. 
Z Luiz visitava Joo, periodicamente, e levava alguns presentes. Algumas frutas, algum cigarro, coisas assim. Joo 
comia o que dava. Passou a fumar bem mais do que antigamente. Um pouco do dinheiro que Z Luiz levava, ele 
comprava cigarro, quando faltava, e jogava. 
E foi num dia de jogo que aconteceu a coisa mais sria de todo o tempo que ele passou na priso. 
Estavam reunidos alguns moleques jogando dados. Estavam o Joo, o Roger, o Guto, e outros membros dos Anjos. 
Joo percebeu que a amizade entre Guto e Roger havia aumentado. Estavam bem unidos, ultimamente. 
A aposta estava ficando cada vez mais alta, e Joo at tinha ganhado algum dinheiro. De repente, Roger assumiu o 
jogo. Comeou a jogar, apenas ele, o dado. Sempre era Roger que dava o dado e ele mesmo que jogava, quando era 
sua vez. 
Joo comeou a perder sempre. Quando ganhava uma rodada, perdia dez em seguida. O seu dinheiro comeou a ir 
embora. 
Joo percebeu que Roger sempre ganhava com um nmero certo de pontos. Sempre quando ele jogava, os seus 
pontos mudavam, mas quando Roger jogava os seus pontos sempre eram os mesmos. Sempre dava cinco pontos. 
Sempre caia o cinco para cima. 
-Esse dado est viciado! -gritou Joo. 
Roger apelou. Havia bebido um pouco e havia cheirado cocana. No estava nada bem. Joo percebeu isso, mas 
tambm havia bebido um pouco e no agentou. 
-Esse dado est viciado! -repetiu. 
-Por qu voc fala isso, Joo? -perguntou Roger. 
-Porque s d o mesmo nmero de pontos para voc...
-? Ento vamos ver... -e Roger jogou o dado. 
O dado rolou. Deu dois. 
Pegou, jogou de novo. Deu quatro. 
-Olha a, palhao. O que est viciado? -gritou Roger. 
Joo no agentou e bateu nas mos de Roger. Caiu um dado no cho, com o nmero cinco para cima. 
-Isso a, cara, eu sabia que estava sendo roubado... -gritou Joo. 
E saiu para cima de Roger. 
Os outros membros da gangue separaram a briga e sabiam que o negcio ia ferver. Aquilo no ia ficar assim. Tinha 
certeza de que um dos dois faria alguma coisa contra o outro. Mas, Roger era o lder, sabiam que ele sairia vencedor. 
Joo tambm ficou receoso de como ficaria a situao. Foi ao banheiro e resolveu tomar um banho. Guto foi com 
ele. 
-Voc viu, Guto, que sacanagem? 
-Vi, Joo. Aquilo no se faz... Muito menos com um amigo, um cara da turma... -falou Guto. 


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Joo tirou sua roupa e entrou no chuveiro. Nem percebeu que Guto havia feito a mesma coisa. 
Joo estava falando alto, reclamando de como ficariam as coisas dali para frente, e nem percebeu que Guto se 
aproximava cada vez mais. De repente, sentiu uma mo pegando em seu pnis. 
-O que  isso, Guto? -gritou Joo, se afastando. 
-Qual , Joo? S estou querendo te acalmar -falou carinhosamente, Guto. 
-Eu no preciso desse tipo de carinho, cara. Sai para l, viado. 
-Que  isso, Joo. Pra com frescura, vem c que eu quero fazer uma coisa gostosa contigo. 
-Porra, Guto, no sabia que voc era viado. 
-Olha, Joo. No vamos falar sobre isso. Vem c, vem... 
-E sua namorada, cara, eu vi voc com sua namorada... 
-Pois , Joo. Eu gosto de meninas e meninos... 
E Joo empurrou o Guto, que escorregou e caiu. Guto levantou-se com raiva. No gostava de ser rejeitado. At o 
Roger sabia dar valor aos seus desejos femininos, por que Joo, esse coitado, no aceitaria. 
Guto levantou e agarrou-se, com raiva a Joo. Os dois tinham corpos iguais. Eram da mesma altura, e Joo levava 
alguma vantagem na musculatura, mas havia dez meses que estava preso, e havia perdido um pouco da fora. 
Mesmo assim, Joo conseguiu acertar um murro em Guto. Este se levantou e enfrentou Joo. Desta vez havia se 
transformado novamente em macho. Armou as mos na direo de Joo e tentou acertar-lhe um soco. 
Estavam no banheiro, nus. O murro de Guto no acertou, mas o de Joo foi fatal. Acertou em cheio a boca de Guto, 
que escorregou para trs, caindo e batendo a nuca no vaso sanitrio. A batida foi to violenta que o vaso sanitrio se 
quebrou. 
O sangue escorreu na hora. Guto ficou imvel. 
Joo no esperou para ver o que aconteceu. Vestiu sua bermuda e saiu rapidamente, ao mesmo tempo em que 
vinham chegando os primeiros curiosos. Rapidamente a notcia havia se espalhado: Joo havia matado o Guto. 
Na verdade, quando Guto caiu, a batida em sua nuca foi fatal. Havia morrido na queda. 
A diretora do presdio recebeu a notcia: 
-Dona Vnia, mataram um moleque... 
-Merda... Nem bem eu cheguei e j acontece isso.. 
Dona Vnia, a nova diretora, era linha dura. Autorizara a violncia como preveno. Autorizara aos seus 
funcionrios a serem mais duros do que j eram. 
E foi ela, mesma, avaliar o que havia acontecido. 
-Dona Vnia, no sabemos o que aconteceu, mas pegamos esses moleques que estavam aqui perto, se voc quiser 
falar com algum deles. 
Ela encarou um a um os moleques que estavam ali. Joo estava entre eles. J havia secado os seus cabelos, e se 
ningum o dedurasse, no haveria de forma alguma a possibilidade de Dona Vnia descobrir alguma coisa. 
Ela, com doze anos de experincia em diretoria de outros reformatrios, sabia como agir. 
-Voc a, por qu voc bateu neste rapaz? -falou Dona Vnia, apontando para Roger. 
-Sai de mim. Eu no encostei o dedo nesse man... -se defendeu o Roger. 
Dona Vnia j conhecia a fama de Roger e suspeitou dele logo que soube o que aconteceu. 
-Tem uma pessoa que me falou que voc bateu nesse cara. 
Nisso, Os moleques que estavam na frente de Roger foram abrindo o caminho e ele ficou cara a cara com Dona 
Vnia. 
-Olha, diretora, se algum falou alguma coisa aqui, para senhora,  um grande mentiroso. E eu vou falar uma coisa 
para senhora. Se um dia eu bater em algum, eu mesmo serei o primeiro a falar. Olha l na minha ficha se eu j fiz 
mal para algum, aqui. 
Realmente, na ficha de Roger no tinha nada. Tudo o que acontecia com ele, os laranjas, os outros moleques de sua 
gangue,  que acabavam assumindo os crimes. 
-E voc, moleque. O que voc fez? -virou-se de repente para Joo. 
-Eu simplesmente encostei aqui porque vi o pessoal chegando. No sei de nada do que aconteceu. 
Dona Vnia virou-se para o Guto, que ainda estava estendido no cho... Depois se virou para os moleques: 
-Eu sou a nova diretora desse lugar. E agora, ou vai ou racha. Vou dar um castigo em vocs. Voc, voc e voc. 
Venham aqui. 
Escolheu Joo e mais dois moleques. Deixou o Roger. 
Virando-se para os agentes, falou: 
-Levem estes trs para a solitria, at que eu descubra quem matou este sujeito. Ou ento, at que algum resolva 
me falar o que aconteceu aqui. 
E pegou na mo de Joo, puxando-o: 


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-Tire suas mos de mim... -gritou Joo. -No sou escravo de ningum. Eu vou sozinho. Eu tenho pernas e sei o que 
tenho que fazer. No precisa ficar me empurrando. 
Dona Vnia ficou surpresa com a personalidade daquele garoto. No primeiro encontro com a diretora e ele j a 
tratava assim. Deveria ficar de olho nele. 
Joo e os outros dois foram para a solitria. Cada um em uma cela separada. E foi bom para Joo, porque nove dias 
aps sua priso, houve uma grande rebelio no reformatrio. 
Tudo comeou com uma briga entre as gangues dos Anjos e dos Beatos. Roger havia aproveitado outra distrao dos 
Beatos e havia esfaqueado mais um membro deles, s que este no morreu. E desta vez, os Beatos estavam atentos. 
Assim que perceberam o que estava acontecendo, os membros dos Beatos se armaram e partiram para cima dos 
Anjos, que estavam no corredor. No mesmo corredor que aconteceu o acidente com Joo. 
Houve um confronto muito poderoso. As armas no eram muitas, mas, pelo menos alguns estiletes de cada lado 
podiam ser contados. 
A todo o momento chegava reforo das gangues. Dois moleques j estavam deitados, machucados, quando 
chegaram os agentes do reformatrio. Houve confronto entre os moleques e os agentes, que recuaram. 
No se sabe de onde, comearam a surgir os pequenos focos de incndio. As celas comearam a ser incendiadas, os 
colches, as roupas, e o caos estava se formando. 
Os moleques estavam inflamados. Pegavam pedaos de paus, incendiados e ficavam brincando nos telhados, na 
quadra. Havia uma grande farra. A bebida e a droga havia sido liberada pelos lderes das gangues. 
-Eu vou acertar... -disse um detento, jogando um pedao de pau pegando fogo em outro moleque. 
Este se afastou e atirou uma pedra no outro. 
A violncia continuava forte. 
Um moleque apareceu com querosene, jogando pelas celas, fazendo com que o incndio aumentasse 
extraordinariamente. 
Outro pegou um pouco de querosene e brincou: 
-Olha o sopro do drago -gritou, enquanto cuspia querosene em um pedao de pau, com fogo na ponta, como 
faziam no circo. 
Outros imitaram-no. Afinal, estavam exaltados demais, se divertindo. Nem percebiam que estavam sendo usados 
para que uma pequena turma tirasse proveito disso tudo. 
De repente ouve-se um grande estrondo. Haviam explodido uma bomba em uma das paredes do prdio. Enquanto 
alguns moleques estavam fazendo tumulto de um lado do reformatrio, os lderes estavam fugindo pelo outro. 
Quando o reforo policial chegou, muitos moleques j haviam fugido. A rebelio foi controlada rapidamente pela 
tropa de choque. 
Conseguiram capturar uma parte de fugitivos, mas uma outra grande parte de detentos conseguiu fugir, inclusive 
Roger. 
Joo foi solto da solitria aps ter sido controlada a rebelio. No incio estava uma verdadeira destruio, mas, 
mesmo assim, os menores ficaram no reformatrio. 
Nessa poca, o prefeito de Boa Vista estava comeando um ano eleitoral. Era a campanha para deputado. Dali a dois 
anos teria a campanha eleitoral para prefeito. Ele havia comeado a se preocupar em se tornar bonzinho junto aos 
olhos do povo, do seu eleitorado. 
Fez um grande discurso, e anunciou que havia conversado com Joo, que havia se arrependido do que fizera. E o 
prefeito resolveu mandar soltar o menino. 
E assim foi feito. Com a influncia que o prefeito tinha junto ao governador, por ter uma grande quantidade de 
eleitores sob cabresto, o prefeito conseguiu a liberao de Joo. 
Foi uma farra na cidade. O prefeito falou sobre a reabilitao dos jovens delinqentes, falando sobre como aquele 
menino poderia ser dali para frente. 
S que o prefeito no sabia que Joo estava pior do que antes. Havia passado muitos momentos de dio e, inclusive, 
matou uma pessoa. Aquilo, dentro de Joo, havia confundido todos os seus sentimentos. Ao mesmo tempo em que 
tinha pena de Guto, tinha dio da vida, de ter nascido da forma que nasceu. Tinha dio do sistema, e percebia que 
havia muita coisa a recuperar. 


Captulo 07JOO ENTRA NA POLTICA 

Joo, a princpio, aceitou que o prefeito estivesse fazendo campanha sobre a sua situao miservel. Ele no 
desmentiu que havia pedido desculpas ao prefeito, muito menos que estava arrependido de ter feito as pichaes. 

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Foi at bom para Joo, pois este comeou a ser aceito em alguns estabelecimentos que antes no freqentava. 
Conseguiu at um emprego como balconista na loja de materiais de construo da cidade. O dono da loja, Seu Raul , 
era da oposio, e pretendia sair candidato a prefeito no prximo processo eleitoral. 
Alm de dar uma ajuda a Joo, ele conhecia o potencial que aquele rapaz tinha. Sabia que podia ser muito til ao seu 
lado. 
Joo estava bem. J tinha completado dezesseis anos e estava mudando sua viso do futuro. Sabia que devia ter 
algum sentido por qual batalhar. Percebia, cada vez mais, as manobras eleitorais que todos faziam, tanto o prefeito e 
seus asseclas, quanto o prprio senhor Raul e seus amigos. Ele percebia que nem todo mundo era santo, e que o 
sistema era diferente do que ele queria. 
Continuava amigo de Z Luiz, e se encontravam quase todos os dias. Z Luiz continuava atento s mudanas 
polticas de Joo e s suas prprias, tambm. Depois de prometer ao Joo que ficaria atento a isto, desenvolveu 
algumas afinidades com a poltica. 
Conversava muito com pessoas influentes e falava bastante sobre poltica. Preferia a oposio, que tinha um 
discurso mais eloqente, condizente com o que ele pensava. 
E, cada vez mais, ele e Joo trocavam idias polticas. 
-Sabe, Joo, estava pensando estes dias. No tenho mais aquela ambio pelo crime. Acho que deveria mudar meu 
modo de viver. Acho que vou tentar ser mais til do que sempre fui. 
-Eu tambm, Z. S que no estou entendendo nada desse pessoal que est a. Sabe, cara, comecei a perceber que 
poltica  um jogo de interesse. Estou com medo de fazer uma escolha errada.
-, Joo, eu j pensei nisso. Quando eu vejo o prefeito falando em ajudar as pessoas, fico esperanoso, mas depois, 
quando o vejo explorando o mesmo povo fico em dvida. A mesma coisa acontece com o Seu Raul. 
-Seu Raul  legal, no  igual a esses caras a. Se ele sair candidato eu vou fazer campanha para ele. 
-Eu acho que Seu Raul  melhor do que o prefeito, mas no sei se ele  a salvao, entendeu. 
-O que eu penso -falou Joo - que o prefeito  muito mentiroso. Um dia pretendo tentar descobrir porque  mais 
forte quem sabe mentir. 
-Sei l, Joo. E se Seu Raul tambm estiver mentindo? 
-S vamos ter certeza disso quando ele estiver no poder. Uma vez eu li numa revista que para saber quem  a 
pessoa, basta dar responsabilidades para ela. 
-Joo, estou com voc. Por qu voc no se candidata? -brincou Z Luiz. -Aproveita que voc t cheio de moral. 
-Ah, vai catar lata... -respondeu, brincando, Joo, empurrando o Z Luiz. -Deixa eu varrer o ponto, seno daqui a 
pouco eu vou ser despedido por ficar aqui conversando com voc. 
-Ah, Joo, esqueci de te falar. Amanh eu comeo a trabalhar l no posto de gasolina. Vou lavar os carros. 
-Que legal. 
-E o melhor, Joo,  que o Marcelo vai deixar eu dormir naquele quartinho que tem l no fundo. Tem at uma cama, 
l. Vou ter casa... -brincou Z Luiz. 
E ficaram brincando sobre o momento deles. Os dois estavam mudando, estavam ficando adultos e no percebiam 
isso. 
O tempo passava e Joo mergulhava cada vez mais na poltica. Formou uma boa amizade com Seu Raul , que se 
impressionava com a facilidade de pensamento de Joo. Rapidamente ele captava as mensagens e conseguia 
entender recados que outras pessoas no conseguiam. 
Com isso, foi permitindo a Joo se aprofundar nas suas decises polticas. 
-Joo, estou indeciso se devo me candidatar a prefeito... O que voc acha? -perguntou Seu Raul, testando Joo. 
-Bem, Seu Raul. Eu aprendi a confiar no senhor, nesses meses que estou trabalhando aqui. Acho que o pensamento 
do senhor  bom para a cidade. Se o senhor fizer o que fala, acho que ser um timo prefeito. 
-Voc acha, Joo? 
-Bem melhor do que este que est a, com certeza! -brincou Joo.
-, Joo, para ser igual ao Manuel, eu prefiro nem tentar me eleger. 
Manuel era o atual prefeito que estava saindo candidato a reeleio, e estava muito forte na campanha. Todos 
sabiam que ele era desonesto, que roubava bastante, mas, fazia algumas obras, dava bastante assistncia social e isso 
era o que bastava para calar a boca daquele povo. 
Era um povo ingnuo, apesar de toda evoluo poltica do pas, e ainda era um povo preocupado em ganhar as 
coisas. Era muito comum presenciar o comentrio de pessoas falando o que ganhavam para poder votar em 
determinado candidato. 
E mesmo assim, ainda eram fiis  palavra de que votariam, sim, naquele que os ajudou. 
-Seu Raul, o que eu percebo desse povo,  que eles no pensam. Acham que o prefeito  honesto,  bom, e por 
ganhar qualquer coisinha, j votam nele e em quem ele indicar. 


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-Joo. Voc j pensou em sair candidato? Por que voc no entra na eleio? Voc podia sair para vereador... perguntou 
Seu Raul. 
-Ainda no, Seu Raul. Ainda estou aprendendo. Acho que falta muita coisa para eu ser um bom candidato. Mas, 
pode ter certeza, eu vou participar desta campanha para prefeito. Se o senhor entrar, eu vou estar l na frente, 
tentando conscientizar o povo de que o senhor  a melhor alternativa. 
-Obrigado, Joo. Acho que depois desta, no tem outro jeito. Eu vou sair candidato, mesmo. E se prepare, Joo, 
porque eu vou precisar de muita gente inteligente do meu lado. 
-Quem pensa por si mesmo  livre, e ser livre  uma coisa muito sria. Eu acho que o senhor deve batalhar para 
libertar esse povo do coronelismo que existe a. O senhor deve mostrar para esse povo que no se pode olhar para 
trs sem se aprender alguma coisa para o futuro. 
Seu Raul estava satisfeito. Seu funcionrio tinha aprendido bastante sobre a poltica. Ele conseguira mais uma 
pessoa para batalhar pela mudana de Boa Vista. 
E o dia da eleio estava chegando. Joo participava de comcios, de entrega de folhetos, de visitas a casas dos 
moradores, de palestras em escolas, e assim por diante. Aprendeu a falar para as pessoas, sendo simples como era, e 
aproveitando o seu passado pobre, demonstrava um sentimento de esperana ao povo. Alm de tudo, sempre 
lembrava do que havia acontecido com seu pai. A poltica era um vcio e ele estava gostando. 
Joo formou um grupo de rapazes como ele, que iriam trabalhar juntos na poltica. Seu Raul liberou Joo do trabalho 
para que ele trabalhasse apenas na campanha. 
Z Luiz participava ativamente deste grupo. Na ausncia de Joo, era Z Luiz quem tomava as decises. 
Mas, no dia a dia era que aprendiam as dificuldades da poltica em uma cidade pequena. Enquanto conscientizavam 
algumas pessoas, em uma determinada semana, na seguinte percebiam que as mesmas pessoas estavam  porta da 
casa do prefeito, atrs de alguma ajuda. 
O grupo poltico de Joo estava reunido no salo do comit do partido de Seu Raul. Conversavam seriamente. 
-Olha, gente -falou Joo -eu achava que seria mais fcil do que est sendo, mas estamos reunidos hoje aqui para 
decidirmos algumas coisas. Do jeito que as coisas esto caminhando, o seu Manuel vai ganhar a eleio facilmente. 
Comeou um cochicho entre os rapazes. 
-Ento, olha! Todos ns somos jovens e temos quase a mesma idade. Falta pouco tempo para eu fazer dezoito anos. 
Acho que devemos desenvolver um trabalho bem srio junto aos jovens da cidade. Se a gente atacar mesmo, 
debatendo com os jovens os problemas que eles tm, fazendo reunies, discursos, tentando captar as carncias dos 
jovens, iremos cativ-los para votar em Seu Raul. O que voc acham? -perguntou Joo. 
Novamente comeou um cochicho entre alguns jovens, que demonstrava alguma insegurana a respeito do que ele 
falava. 
Z Luiz se levantou. 
-Eu estou percebendo que, entre ns, alguns no esto ligando tanto para poltica como eu. Acho que, primeiro, 
precisamos nos preocupar em ter o mesmo objetivo. 
-Concordo -gritou Zeca. -Tambm acho que estamos precisando de mais incentivo. Que tal pedir ao Seu Raul um 
salrio para ns, para podermos trabalhar com mais nimo. 
-Porra, Zeca -gritou Joo. -Ns estamos falando em poltica verdadeira, em mudana de mentalidade. No estamos 
falando de Seu Raul... 
-Mas, Joo, ns no estamos fazendo campanha para o Seu Raul? -perguntou o Zeca. 
-Zeca, preste ateno. Se Seu Raul no fosse o candidato, e tivesse outro candidato que tivesse o pensamento que 
ele tem, que  mudar as coisas, acabar com o roubo, desenvolver a cidade, quem voc iria apoiar? O candidato que 
tivesse um ideal, mas que no tivesse dinheiro e que no nos pagasse, ou o candidato corrupto, mas que pagasse um 
salrio para voc? 
-Olha, Joo... Eu no sei... Eu preciso ganhar algum dinheiro para viver... No sei, no... -falou Zeca. 
Foi um choque em Joo. No achava que algum do grupo poderia ter a mentalidade que todo o resto da cidade 
tinha. Achava que todos os jovens estavam conscientes da necessidade de ter no poder um prefeito inteligente, um 
prefeito disposto a mudar as coisas, e no um prefeito preocupado com o seu prprio sustento. 
-Mas, Zeca, voc no se preocupa com o futuro da cidade? 
-O que  que eu tenho a ver com isso? E se a cidade tiver futuro e eu no tiver? -respondeu Zeca. 
-Zeca... Se a cidade tiver futuro, voc tambm vai ter. Se o prefeito trouxer fbricas para c, aumentar o 
saneamento, melhorar a distribuio da renda da cidade, e outras coisas, voc tambm sair ganhando. De que 
adianta voc ganhar salrio dois, trs meses, e depois passar mais quatro anos desempregado? 
Zeca ficou calado. Havia cansado de discutir. 
Os outros membros da reunio estavam calados. Foi Z Luiz quem quebrou o silncio. 


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-Vamos deixar isso para outra hora. S faltam trs meses para a eleio. Se ficarmos discutindo, daqui a pouco no 
vamos ter feito nada. -E perguntou: -Joo, aquela palestra na escola foi autorizada? 
Joo estava chocado. De repente, como de um tranco ele se ligou, novamente. 
-Ento, Z... O prefeito no deixa a gente entrar na escola. A, resolvi fazer o seguinte. Vamos ver se vocs 
concordam... Amanh, na sada dos alunos, ns formamos um grupinho, com aquela caixa de som amplificada que 
temos e tentamos falar alguma coisa para os estudantes.
-, para mim t bom... -falou Z Luiz. -Acho que, dentro da escola, ns nunca vamos conseguir entrar. Escola 
municipal, do prefeito... Sem chance. 
O resto da turma tambm concordou. Ningum percebeu que o Zeca estava mais quieto do que o normal. 
No dia seguinte,  tarde, eles se reuniram na frente da escola. Com exceo do Zeca, que no apareceu. Quando deu 
a hora dos estudantes sarem da aula, a turma comeou a falar. 
Nem bem tinham comeado, apareceu o carro da polcia. 
-O que vocs esto fazendo a? -perguntou o policial. 
-Estamos falando com os estudantes -falou Joo. 
-Vocs tm autorizao para fazer discurso? 
-Ns no estamos fazendo discurso. Ns estamos conversando com os alunos. Isso  proibido? 
-T falando demais. Vamos passear... 
O policial pegou no brao de Joo e o levou para o carro da polcia. Levaram Z Luiz tambm. O resto do grupo 
nem percebeu que um dos policiais havia chutado a caixa de som deles, e havia estourado o alto-falante, impedindo 
que funcionasse bem. 
O resto da turma ficou assustada e foi embora. 
Joo e Z Luiz foram levados para a delegacia. Chegando l, o delegado recebeu os dois em sua sala. 
-Olha, vocs dois... Se quiserem fazer poltica, faam, mas respeitem as leis. No basta vocs acharem que est 
certo e pronto. Precisam observar algumas normas. 
-Qual  a norma? O prefeito quer e o prefeito no quer? So essas as normas a seguir? 
-Rapaz, cuidado com o que voc diz aqui dentro -falou o delegado. -Eu no sou obrigado a ficar ouvindo suas 
opinies. Eu j passei por um monte de poltica na minha vida e sei como isto funciona. Daqui a pouco isso acaba e 
voc vai entender o que estou falando. 
Joo calou-se. Sabia, por experincia prpria que no adiantava discutir com a lei. 
-Olha -continuou o delegado. -Eu no vou prender vocs, mas, dem um tempo. No fiquem aprontando muito, t? 
E liberou os dois. 
O que eles no sabiam era que Zeca havia visitado o prefeito naquela manh e contou o que os rapazes estavam 
planejando. Zeca estava interessado em ganhar alguma coisa com aquela histria. E ganhou! O prefeito, 
aproveitando o vacilo do grupo, contratou Zeca, at a eleio, para ficar visitando o povo dos stios. Pagaria meio 
salrio-mnimo. 
Zeca ficou to satisfeito que dedurou seus amigos. Falou ao prefeito os planos de Joo e Z Luiz. Tudo o que eles 
haviam planejado at a eleio o prefeito ficou sabendo naquele momento. 
Manuel, o prefeito, deu ordens  polcia para tirarem os rapazes dali e inibirem o evento, e que ficassem de olho nos 
rapazes. 
Joo percebeu que Zeca deixou de freqentar o grupo. Mais tarde soube que este havia mudado para o partido do 
prefeito. Com certeza o prefeito havia dado algum dinheiro a Zeca. 
-Que pas  este? Que lugar terrvel  este? Somos to carentes, assim? -dizia Joo, para Z Luiz. -Como podemos 
mudar nossos pensamentos to de repente? 
-O dinheiro faz isso, Joo. Nem todo mundo tem os nossos ideais. -falou Z Luiz. 
-Mas, Z. Se todo mundo fizesse assim, imagine que futuro ns teramos? 
-Joo. Perceba que ns tambm pensvamos diferente. Ns mudamos, sabe por qu? Porque no estvamos no meio 
deles. Sempre ficamos  margem. Foi fcil ver que existem dois lados: um justo e um injusto. E eles? Eles cresceram 
assim. Imagina uma pessoa que nunca assistiu televiso. Se crescer sem nunca assistir, nunca vai sentir falta. Mas, 
tira a televiso de algum que cresceu assistindo. O que vai acontecer? 
-Voc tem razo, Z. Eu s posso sentir pena deles. Mas, o nosso tempo vai chegar...
- isso a, Joo. Vamos levantar a cabea e fazer o que for possvel para mudarmos este sistema. Tenho certeza de 
que ainda teremos nossa vez. 
E comearam a fazer planos para o futuro. Resolveram consultar os lderes do partido de Seu Raul para promoverem 
um encontro com jovens da cidade. Estavam decididos a promover uma conscientizao dos jovens. 


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Faltando dois meses para a eleio eles conseguiram o encontro que queriam. Foi marcado um comcio especial para 
os jovens. Na verdade, foi marcado um show. Diversos artistas da regio e um grupo mais famoso foi chamado para 
animar o evento. 
Diversos jovens discursaram. Z Luiz, Joo e mais alguns jovens de seu grupo e de outros partidos coligados 
falaram, incentivando os jovens a tomarem um rumo. 
Joo foi um dos que arrancou mais aplausos. 
-Jovens -falou Joo. -Eu tive muitos problemas na minha vida. Eu j fiz muitas coisas erradas. No vou mentir 
para vocs. J roubei, j freqentei lugares ruins e at j fui preso. 
-De tudo o que fiz eu no me arrependo. Sabem por qu? Porque, quando eu fazia aquelas coisas, eu no sabia o que 
fazia. 
-Hoje, no. Hoje em dia eu aprendi o que  certo e o que  errado. E aprendi a lutar para melhorar, no s a minha 
vida como a de todas as pessoas desta cidade. Resolvi lutar para melhorar a situao de todos ns. A minha vida, a 
vida de vocs, a vida dos pais de vocs, e tambm, dos seus filhos. 
-Vamos mudar a situao de hoje e o futuro. Amigos, ns somos os filhos da revoluo. Ns somos o futuro da 
nao. Se ns cruzarmos os nossos braos, o que teremos no futuro? Eu respondo: teremos um povo obediente, 
robotizado, que no pensa no que est fazendo. 
-Vocs querem ser assim? Fazer tudo sem saber se est certo ou errado?. 
-Pois eu digo a vocs. Eu vejo um mundo doente. Um mundo dominado por uma turma que no pensa em vocs. 
Pensam s neles. Esse  o sistema. E o sistema  mau. O sistema  como uma planta carnvora. Vai devorar aqueles 
que no forem fortes o suficiente para lutarem contra. 
-Vocs parecem ter medo de quem pensa diferente. Vocs no vem que eles nos querem todos iguais? Vocs no 
vem que assim  mais fcil nos controlar?". 
Nisso, a multido de jovens bateu palmas e gritou acalorada. Joo conseguiu mexer com eles. Joo conseguiu fazer 
com que eles pensassem e no s obedecessem. 
O discurso daquele dia repercutiu por toda a cidade. 
No dia seguinte, Seu Raul foi um dos primeiros a dar os parabns a Joo. 
-Joo, que coisa linda voc falou ontem. De onde voc tirou tudo aquilo? 
-Seu Raul, eu no sei. De repente foi saindo e eu falava sem nem perceber o que estava acontecendo. Parece que eu 
estava dominado por alguma coisa. 
-Joo, voc nasceu para ser um lder. A partir de agora, voc vai falar em todos os discursos que formos fazer. Voc 
e o Z Luiz. Ele tambm foi magnfico. Vocs conseguem dominar o povo de uma forma diferente, que ningum 
consegue. 
-Obrigado, Seu Raul. Vamos ficar muito felizes em falar para o povo. Tenho certeza de que o Z Luiz vai querer 
falar, tambm. 
Z Luiz ficou contente quando soube que iria discursar nos comcios. Ele estava gostando da poltica. Parece que 
tinha nascido para poltica. 
-Joo, eu vou te falar uma coisa. H tempos tive um sonho. No meu sonho eu estava falando para uma multido 
igual  que a gente falou ontem. Eu sentia muito prazer em perceber que eles me escutavam. Ontem aconteceu 
igualzinho ao meu sonho. 
-Eu tambm fiquei muito satisfeito, Z. Vamos trabalhar bastante para tirar o seu Manuel da prefeitura e colocar o 
Seu Raul. 
Fizeram seus planos. Faltavam poucas semanas para a eleio. 
Eles comearam a participar mais ativamente da campanha de Seu Raul, que era bem recebido nas casas. Tinha uma 
boa audincia nos comcios mas sabia que a disputa seria muito apertada. 
Faltando dez dias para a eleio, Seu Raul chamou Joo para conversar. 
-Joo, esto faltando poucos dias para a eleio e o negcio agora vai ser diferente. Como est a sua turma? 
-Seu Raul, a minha turma  legal, est unida. Se depender de ns, o senhor  o novo prefeito. 
-Ento, Joo,  sobre isso mesmo que eu quero conversar contigo. As coisas vo ficar mais complicadas porque 
agora o Manuel vai esparramar dinheiro na cidade. 
-Mas isso ele j vem fazendo... -disse Joo. 
-No, mas agora  diferente. Agora ele vai dar roupa, sapato, pano, e at dinheiro mesmo. Agora o negcio : quem 
gastar mais, ganha. 
-E o que ns fizemos? No serviu para nada? 
-Claro, Joo. Vocs convencem os mais preparados, mas uma grande parte, que  a mais carente, no vai pensar 
assim. Viu o Zeca? Mudou o pensamento, rapidinho, por causa de um salrio. 
-E o que ns vamos fazer? 


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-Ns vamos fazer igual. Vamos esparramar dinheiro na cidade. 
Joo ficou vermelho. 
-O que o senhor est falando? Vamos nos rebaixar ao nvel deles? 
-Isso mesmo, Joo, seno a gente no ganha. 
-No acho certo. A vamos estar agindo igual ao que condenamos durante toda a eleio! 
-Eu sei, Joo, mas o sistema funciona assim. Ento, daqui a dois dias eu vou dar uma quantidade de dinheiro para 
voc trabalhar uns votos para mim. Voc  capaz de cuidar desse dinheiro? 
Joo no sabia o que falar. Estava perplexo em perceber que teria que se submeter a fazer o mesmo que o seu 
adversrio se quisesse ganhar a eleio. Teria que esquecer o que falou com tanta convico se quisesse continuar 
lutando pelo poder. 
Apenas balanou a cabea, positivamente. 
-Ento, quando eu tiver com o dinheiro na mo, vamos conversar melhor. Deixa eu sair agora que preciso ir na casa 
do vice-prefeito. At mais, Joo. 
-At mais, Seu Raul. 
Mal Seu Raul saiu para a rua, Joo desabou em sua cama. Como poderia ter sido to ingnuo assim? 
Saiu para conversar com Z Luiz. 
Era noite e Z Luiz estava na praa, conversando com um grupo de rapazes. 
-Vocs tm que entender que o Manuel sempre roubou a cidade -dizia Z Luiz. 
-Quem insiste em julgar os outros sempre tem alguma coisa para esconder -disse um dos rapazes. 
-Eu no estou julgando ningum. Julgar  quando voc suspeita alguma coisa, mas no tem certeza. No caso de 
Manuel, no, todos sabem os problemas que tivemos no calamento da avenida principal. Sabemos do desvio que 
ele fez da obra da escola que ele no construiu, e um monte de outras coisas. 
-Ah, Z Luiz, mas voc no fala das obras que ele fez. O cartrio, a rodoviria. Isso voc no fala! 
-E a obrigao de um prefeito no  fazer isso mesmo? Voc queria que ele fizesse o qu? Ele no estava ganhando 
para fazer essas obras? Ou voc acha que ele fez com o dinheiro dele? 
Nisso, Joo chama o Z Luiz: 
-Z, d um pulinho que eu quero falar contigo. 
Z Luiz percebeu que Joo estava abatido, diferente. 
Saiu do meio do pessoal e foi conversar com Joo. 
-O que foi, Joo. Por qu voc t assim? Est chateado? 
-Aconteceu um negcio chato, cara. Eu tive um papo com Seu Raul e fiquei bem chateado. 
-O que aconteceu, Joo? 
E Joo contou o que se passou com Seu Raul. 
-Joo. Eu no acredito nisso... No  possvel! 
-Pois ... No estou inventado nada. Agora, o que eu sinto, era como se eu estivesse nadando a um ano e percebesse 
que quando estou chegando do outro lado, vejo os mesmos tubares que deixei l atrs. 
-Sei l, Joo. E se for s para ganhar a eleio? 
-No sei... At pensei nisso. O que vamos fazer? 
-Que surpresa, Joo, que chato, hein? -falou, surpreso, Z Luiz. 
E no sabiam o que fazer. Despediram-se e cada um foi para o seu quartinho. Joo dormia num quartinho no quintal 
da casa de Seu Raul j fazia quase um ano. 
Joo e Z Luiz no aceitaram comprar votos. Continuaram a tentar conquistar votos para Seu Raul at o dia da 
eleio como fizeram desde o incio da campanha. Reuniram-se algumas vezes com seus amigos da turma jovem de 
Seu Raul, como eles se autodenominavam e decidiram que iriam continuar a apoiar Seu Raul, j que era bem melhor 
do que Manuel. 
Apesar de toda presso, acreditavam que Seu Raul iria ganhar a eleio. Era quem levava mais gente aos comcios, 
era o favorito nas pesquisas encomendadas por eles, as quais eles conheciam os verdadeiros resultados e os 
resultados divulgados nos palanques, que sempre eram a favor de Seu Raul, quando era discurso de seu partido, mas 
tambm era a favor de Manuel, quando era ele quem fazia os discursos. 
Seu Raul levava vantagens nas casas que tinham pregado os seus cartazes. Naquela regio isso era exemplo de 
liderana poltica. 
Mas, chegou o dia da eleio. Houve muitos problemas com os eleitores. Em uma regio caiu uma ponte, 
milagrosamente, na madrugada anterior, o que impediu a muitos eleitores votarem. Em outros lugares, carros 
quebravam, urnas chegaram atrasadas, e algumas falhas ocorreram com os mesrios e ajudantes. 
No houve nenhuma priso, mas houve muita briga e tumulto. Muitos nibus de outras cidades traziam eleitores que 
moravam fora. Pelo menos era o que eles falavam. 


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A apurao comeou na manh do dia seguinte. Joo foi um dos fiscais do partido. Chegou logo cedo. O trabalho de 
conquista de votos havia terminado. Agora, era esperar os resultados. 
O partido havia se reunido  noite e discutido a eleio. Estavam satisfeitos com o trabalho que haviam feito, mas 
tinham percebido as falcatruas que o prefeito fez. A compra de votos ocorreu abertamente. Tambm por parte deles. 
A grande vantagem do prefeito estava em ter a mquina em seu poder. 
Verificaram que diversas pessoas de outros locais votaram na cidade. Constataram alguns casos de pessoas que j 
tinham morrido, que votaram, como se houvessem ressuscitado, justamente naquela eleio. E verificaram uma 
grande quantidade de ttulos cancelados. A grande maioria de eleitores de Seu Raul. 
Quando comeou a apurao, perceberam o que ia acontecer. As urnas dos locais onde Seu Raul conquistaria mais 
votos foram sendo abertas antes das outras, onde a frente de Manuel era esperada. 
Mesmo assim, a diferena de votos era muito pouca. 
Ao final, a vitria ficou mesmo com Manuel, reeleito para mais quatro anos de mandato. 
Joo estava desolado. J era noite e ele no acreditava no resultado que ele via. Uma vitria esmagadora de Manuel. 
Onde estaria o erro das pesquisas? 
Onde estariam os votos da platia de Seu Raul? 
Ele percebeu que nadar contra a correnteza era muito difcil. J era quase meia-noite quando voltou para casa. 
Percebeu que o movimento na casa de Seu Raul era maior que o normal. Encostou-se e percebeu que ele recebia 
visitas. 
Ainda deu tempo de ouvir as ltimas frases. 
-Raul, Raul, foi bacana a nossa disputa -dizia Manuel, o prefeito -mas, somente um tinha que ganhar. 
-Tudo bem, Manuel, mas no esquea da sua promessa. Na prxima eleio ns vamos trabalhar juntos. Eu serei o 
seu candidato! 
-No vou me esquecer, Raul, eu no vou. 
E, entregou um pacote para Raul. 
-Tome aqui, o dinheiro que eu te prometi. Falei que voc no ia perder nada, e aqui est o que eu te falei. Foi bom 
saber que ns ficamos amigos, agora, neste finalzinho... 
Joo no queria acreditar no que ouvia. Tudo estava errado. No era possvel! 
Voltou para a rua. Encontrou Z Luiz em um bar, bebendo. Joo pediu um copo e se serviu da cerveja. Contou a 
histria para Z Luiz, que duvidou, a princpio, pois era impossvel ter acontecido esta unio. 
-E eu pensei que a gente tinha perdido a eleio por causa de roubo de votos. Eu culpei essa justia. Desafinada. 
Esquisita... 
-Pois , Z, eu ainda acho que estou sonhando. Sonhando, no. Isto  um pesadelo -falou Joo. 
-Est tudo errado. Essa justia  to humana e to errada. No sabemos em quem acreditar. 
-Mas a justia  certa, Joo. Quem a usa de forma ilegal  que a est corrompendo. 
-E o que voc vai fazer, Z Luiz? Eu no fico nem mais um dia naquela casa. No quero nem olhar na cara de Seu 
Raul. Perdi a confiana nele. 
-Eu no, Joo. Eu vou lutar contra isso. No vou desistir. 
E Joo tomou uma deciso drstica: 
-Z, meu amigo. Eu vou embora. Aqui no  meu lugar. Est tudo errado. No confio em mais ningum, no confio 
no sistema, no acredito na poltica. No tem trabalho decente, s escravido. Os meus amigos todos esto 
procurando emprego. No tem como viver neste lugar. 
-No, Joo, voc no pode ir embora. Vamos nos juntar para combater este sistema. Ns no vamos nos corromper. 
Estamos chegando  maioridade e agora teremos mais participao no sistema. 
-No acho bom para mim, Z. Acho que voc deve ficar aqui e batalhar por esta mudana, j que voc est 
pensando assim, mas eu vou atrs de algo maior. 
-Joo, sinto voc to fraco. Quero a tua fora como era antes. De nada vale fugir. 
-Eu no estou fugindo -disse Joo. -Estou correndo atrs do que preciso para ter sentido na vida. Quero ter algum 
com quem conversar e que depois no use o que falei contra mim. Eu vou procurar um emprego decente, eu vou 
procurar um lugar para morar, eu vou procurar a felicidade que vemos e ouvimos falar desde pequenos.
-Joo, est bem... s vezes parecia que, de tanto acreditar em tudo que achavam to certo, ns teramos o mundo 
inteiro aos nossos ps. Agora, veja como estamos: desiludidos. No sei como, Joo, mas eu vou lutar para mudar 
isto. 
-Isso mesmo, Z. Se houvesse mais gente como voc, este mundo seria muito melhor. Faa dessa cidade uma 
cidade melhor. Desenvolva habilidades que eles no tm. Um dia o povo vai perceber o que est acontecendo e vo 
lutar contra este sistema que a est. E, quem sabe, voc no estar como lder, neste momento, tendo a possibilidade 
de realizar os nossos sonhos? 


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-Vou correr atrs disso, Joo, pode ter certeza... E j estou pensando em me preparar mais. Vou comear a procurar 
um emprego melhor. Vou fazer alguns cursos para ficar mais especializado. J estou pensando em estudar... 
-Quer saber de uma coisa? Voc tem que passar no vestibular... 
E riram juntos. 


Captulo 08JOO ABANDONA SUA CIDADE NATAL 

Joo conversou com Seu Raul, mas no explicou a razo por que estava indo embora. A princpio Seu Raul ficou 
furioso, pois havia investido bastante em Joo, formando uma pessoa politizada, com um timo senso de trabalho, e 
tambm porque reconhecia em Joo a grande qualidade que ele tinha, para possveis usos na poltica. 
-Joo, voc no pode ir agora! -falou Seu Raul. 
-Por qu, Seu Raul? 
-Porque voc est comeando a aprender muitas coisas, Joo. Voc no percebe que agora que est comeando a 
melhorar, resolve ir embora? 
Mas Joo no acreditava mais em Seu Raul. O que ele falava entrava nos ouvidos de Joo como agulhas. 
-Seu Raul, o senhor tem que entender que eu preciso progredir. A minha vida  muito mais do que essa cidade. Se 
eu no for agora, daqui a pouco vou casar, arrumar um empreguinho insignificante e nunca mais vou ter essa 
chance. 
-Eu concordo, Joo. Mas observe como voc est. Voc vai arrumar um bom emprego, eu tenho certeza. Se voc 
quiser, eu posso at tentar alguma coisa para voc, j que voc acha que trabalhar comigo no  bom... 
-No  bem isso, Seu Raul. O senhor  uma pessoa boa, mas, eu quero mais do que tenho -respondeu Joo, 
pensando diferente daquilo que falava, mas no queria ofender Seu Raul. 
-Joo, eu no vou me humilhar, mas at posso pedir ao prefeito para lhe arrumar um emprego... 
Joo sentiu nojo de Seu Raul. 
-No, obrigado, Seu Raul. Vou-me embora. 
-Tudo bem, Joo. O que eu podia te ajudar, eu ajudei. Agora, vamos acertar nossas contas e vou te deixar livre. S 
no se arrependa e venha me procurar de novo. A partir de agora eu no quero mais saber de voc. 
E mandou o contador preparar as contas de Joo. O contador omitiu uma srie de direitos que Joo tinha e fez com 
que Seu Raul pagasse muito menos a Joo do que deveria ter pagado. 
Joo no sabia quanto deveria receber e no percebeu como estava sendo enganado. Comprou uma passagem para
Salvador, para a manh do dia seguinte.  noite fez uma festinha com os amigos mais chegados. 
Gastou a metade do que tinha ganho na sua demisso com a festinha. Foi uma farta feijoada regada  cerveja 
geladinha. 
Z Luiz estava entre os mais tristes. Mesmo disfarando, ele no escondia a tristeza em Joo ir embora. No sabia 
como segurar aquela separao. 
Apesar de no estarem to ligados como antigamente, reconhecia em Joo o seu irmo, ou seja, o irmo que no 
teve. 
E foi Z Luiz que pediu o primeiro brinde: 
-Vamos brindar. Vamos celebrar a nossa tristeza. Um brinde ao sucesso de Joo, mesmo que seja longe de ns. 
E todos levantaram seus copos, no maior silncio. 
-Pessoal, eu no estou morrendo. Eu no quero tristeza essa noite. 
E abraou Z Luiz, forando-o a sorrir. A seguir, abraou um a um, todos os que estavam naquele bar para 
despedirem-se de Joo. 
-Gente. Eu queria agradecer a todos vocs. Eu no seria o mesmo se no tivesse a amizade de vocs. Eu vou embora 
tentar a minha vida. No tenho chance de progredir neste lugar. Com a poltica aprendi que preciso tentar a minha 
melhora e tambm a melhora de todo mundo. Se eu ficar aqui, no vai adiantar muito. 
-Quero que vocs faam o trabalho que tem que ser feito aqui, e eu vamos procurar alguma coisa melhor. Prometo a 
vocs que vou, de todas as formas, procurar os responsveis por este pas, as pessoas que podem modificar a vida. 
Quero, se for possvel, at encontrar com o presidente do nosso pas, para pedir que ele ajude essa nossa gente 
sofredora. 
-Joo -disse Z Luiz. -Ns no gostaramos que voc fosse embora, mas, j que tem que ser assim, ns desejamos 
muito sucesso para voc. Ns desejamos que seus sonhos se realizem e que voc atinja o seu objetivo. Saiba que 
seremos seus amigos para sempre e estaremos sempre aqui, lhe esperando, se voc quiser voltar. 


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-Eu sei, Z, eu tambm vou sentir muita falta de vocs, mas, eu sei que meus verdadeiros amigos sempre esperaro 
por mim. 
E divertiram-se at amanhecer. Naquela noite Joo no dormiu. Todos foram at o quarto onde Joo dormia, 
pegaram suas poucas roupas e o levaram at a pequena rodoviria de Boa Vista. Ficaram com ele at que ele entrou 
no nibus. 
Realmente, Joo tinha deixado bons amigos. 
No nibus, em direo a Salvador, Joo pensava em sua vida e percebia a mudana que havia ocorrido quando foi 
mandado ao reformatrio. Apesar de ter sido involuntrio, havia matado uma pessoa. Depois, tentou a regenerao 
pessoal, sem ningum saber o que havia acontecido. Quase conseguiu. Quando comeou a acreditar em um futuro 
honesto, justo, veio o descrdito, novamente, no sistema, nas pessoas, em tudo o que o cercava. 
Agora, sentia medo de seus amigos. Um medo de se entregar a uma relao e depois se decepcionar. No queria 
desacreditar em pessoas que ele tratava como irmos. 
Pensou em Z Luiz. Quanto sofreu e quanto sofreria para atingir os seus objetivos. At agora estava imbudo no lado 
bom da poltica. Acreditava que poderia mudar as coisas. 
Joo esperava, de corao, que isso fosse verdade. 
Neste momento, Joo estava ansioso. No sabia o que estava fazendo. Resolveu ir para Salvador, por ser a capital 
mais perto dali. Boa Vista ficava a trezentos e quinze quilmetros de distncia de Salvador. No sabia nem o que 
faria naquele lugar. 
Esperava que, quando chegasse l, pudesse encontrar algum lugar para trabalhar, algum lugar para dormir, e depois 
comearia a sua transformao. Cresceria, enriqueceria e transformaria a sua cidade natal. 
Mas, na verdade, no sabia por onde comear, e nem o que o esperava. Nunca havia se afastado de Boa Vista, nem 
imaginava como era Salvador. Tinha medo de ser como as cidades grandes que apareciam na televiso, com aquele 
monte de carro, de prdios e de falsidade. 
Mas, agora, era tudo ou nada. 
Estava cansado da farra da noite passada, por isso dormiu por toda a viagem. Nem notou quando entrava na cidade. 
S percebeu que tinha chegado quando o seu parceiro do banco ao lado o cutucou, falando que j estavam entrando 
na rodoviria. 
Joo se assustou. Estava sonhando com a sua vida na pacata cidade de Boa Vista, e achava que ainda estava 
sonhando. Aos poucos a sua memria foi voltando e ele percebeu a dura realidade. Estava em Salvador. 
Desceu do nibus, um pouco assustado. Era enorme aquela rodoviria. No sabia para onde ir. Viu que as pessoas 
iam para um s lugar e as seguiu. Todos iam para a sada. Ele foi junto. 
Quando j estava dentro da rodoviria viu a enormidade daquele lugar. Nada tinha a ver com Boa Vista. Ficou 
assustado. Via gente passando para todos os lados e ningum sorria. Todos estavam com pressa. 
-Que lugar diferente. Essa gente no perde tempo nem para olhar para as pessoas. Olham para frente e caminham 
rpido. 
Joo viu o ponto de encontro, com suas cadeiras de espera. Foi para l e esperou. No sabia o qu. Apenas achava 
que devia esperar um pouco. 
Enfiou a mo no bolso, puxou suas ltimas notas. Era pouca coisa, talvez daria para uma semana em alguma 
pousada barata, com uma refeio por dia. Mas, onde encontrar esta pousada? Quem poderia lhe indicar alguma 
coisa? Todo mundo ali estava com pressa, tinha a cara fechada e parecia no se preocupar com Joo nem com 
ningum. 
Joo levantou-se, com vontade de ir ao banheiro. Seguiu andando pela rodoviria olhando, assustado, para as lojas, 
as filas nas bilheterias, as lanchonetes. Viu a placa indicando o banheiro e seguiu para l. 
Joo ficou surpreso quando percebeu que tinha que pagar para usar o banheiro. E no era barato. Era quase o preo 
de uma cerveja em lata. Pagou, foi ao banheiro, aproveitou e ficou o mximo que podia ali, pois estava pagando. 
Lavou seus cabelos, seu rosto, trocou a camisa. 
Leu algo que estava escrito na parede do banheiro. Eram diversos telefones, outros tantos palavres, mas uma frase 
chamou a sua ateno: 
"Esqueceram de avisar para todo mundo que talvez tivesse nome e era a mulher acusada do crime da contrao da 
preposio em mais o artigo definido a, porque quando a criana d alguma coisa, pode ser o smbolo do Rutnio na 
cidade de Salvador". 
Joo leu umas cinco vezes, mas no entendeu nada. "-Qual ser a respostas deste enigma?" -pensou, sem saber a 
soluo. 
Passou desodorante e saiu. 
Se contasse em Boa Vista que pagou to caro para usar um banheiro, seus amigos no iriam acreditar. E olha que o 
banheiro no era to limpo assim. 


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Saiu do banheiro e continuou andando. Resolveu comer alguma coisa. Viu uma lanchonete e j se preparou: -se o 
banheiro custava tanto, imagina a lanchonete?. 
Ficou meio perdido. Eram muitos cartazes com fotos bonitas, lanches que pareciam deliciosos, mas que custavam o 
preo de quase trs pratos de comida, l em Boa Vista. 
Resolveu tomar apenas um cafezinho. Caro demais, mas j era alguma coisa. Precisava comer alguma coisa, e se 
tudo era to caro, precisava ir se acostumando. Pediu um salgado tambm. Pagou, pegou o lanche e foi para uma 
mesa, bem no canto da lanchonete. 
Comeu o salgado devagarzinho, sentindo o gosto como se estivesse provando algo extraordinrio. Na verdade, o 
gosto era igual ao dos diversos que j tinha comido onde morava, e que custavam cinco vezes menos. 
Acabou de comer seu lanche e continuou sentado. Ficou disfarando que ainda restava um pouco de caf, porque 
sempre passava um rapaz que limpava as mesas, e ele achava que, j que tinha acabado o lanche, deveria ir embora. 
Ficou observando as pessoas, que at para comer eram apressadas. Comiam sem mastigar direito, quase no se 
conversavam entre si, e no se cumprimentavam. 
Estava curioso, quando reparou no senhor que se sentou  mesa ao lado. Tambm parecia meio assustado. Estava 
sozinho, sem lanche nenhum, sem malas nem bolsas, e parecia estar perdido naquele lugar. 
Joo o cumprimentou balanando a cabea. O senhor sorriu, meio desconfiado, afinal, no conhecia o rapaz. 
Passado o primeiro impacto, perguntou: 
-De onde voc , garoto? 
-Sou de Boa Vista, o senhor conhece? -respondeu Joo. 
-Boa Vista? Fica perto de Serra Preta, no ?
- sim! 
-No conheo, no, s ouvi falar. J fui em Serra Preta, mas no cheguei ir  Boa Vista. O que voc faz l? 
Joo percebeu que era uma pergunta difcil de responder, j que no tinha treinado para conversar com ningum. 
Demorou um pouco e respondeu: 
-Eu trabalhei como balconista numa loja de material de construo. Mas resolvi sair de l. No estava gostando das 
coisas em Boa Vista e resolvi procurar alguma coisa melhor para minha vida. 
-E o que  essa coisa melhor? -perguntou o senhor. 
-Eu quero trabalhar em paz, quero um trabalho honesto em vez de escravido, quero ser valorizado e quero fazer 
alguma coisa pelos outros tambm. Em Boa Vista no tinha condio de fazer isso. L, ns somos explorados 
porque tem mais gente do que trabalho. Os coronis de l mandam e desmandam. Acham que devemos fazer tudo o 
que eles mandam. 
-Eu sei como  isso, garoto... -disse o senhor. -Meu nome  Fernando, e o seu? 
-Eu me chamo Joo. Joo de Santo Cristo. 
-Prazer, Joo. Voc pode me fazer um favor? 
-Claro! 
-Eu estou com fome e no sei como funciona esse sistema dessas lanchonetes. L onde moro no tem dessas coisas. 
Queria comer uma coisa diferente, mas, aqui nesse lugar s tem essas porcarias. Fazer o qu? Faz um favor de 
comprar um lanche para mim? -falou e enfiou a mo no bolso tirando um mao de dinheiro bem maior do que o de 
Joo. 
Tirou a nota de maior valor e falou: 
-Aproveita e compra um para voc tambm! 
-Ah, no precisa se preocupar, no! Eu comi um salgado e... 
-Deixe estar, garoto. Voc parece estar com fome. Compre l esse negcio... Compre um daquele ali... -e apontou 
um dos lanches que estava  mostra no cartaz. 
-Ento, t, obrigado. 
Joo ainda estava com fome. E no podia deixar de economizar um pouco com a camaradagem daquele homem. 
Foi at a lanchonete, comprou os lanches, pagou e voltou para a mesa. Serviu o de Seu Fernando e o dele. 
Comearam a comer, continuando a conversa, desta vez, sentados  mesma mesa. 
-Sabe, Seu Fernando, o que acontece, mesmo,  que estou perdendo a esperana de encontrar pessoas boas. Sabe, 
pessoas em quem confiar... 
-Joo, olha, se voc quiser algum em quem confiar, confie em si mesmo. A gente conhece a gente mesmo, mas, os 
outros? Ningum  uma pessoa s a vida inteira. Uma pessoa que  boa hoje pode ser ruim amanh. Pelo menos  o 
que eu acho. 
-E o senhor faz o qu da vida, Seu Fernando? O senhor mora aonde? 


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-Eu tenho uma fazenda, daqui a uns duzentos quilmetros, Joo. No  para o lado de Boa Vista,  para o outro 
lado. J estou velho para fazer as coisas. Hoje em dia, eu s mando. Eu vim para c para viajar para Braslia. Voc j 
ouviu falar? 
-Falar, eu j ouvi.  onde ficam os polticos, no ?
- l mesmo, Joo.  onde mora o presidente e todos os ministros, deputados e os polticos.  a terra da poltica. 
Mas, tambm, tem muitas oportunidades. A minha filha casou e foi morar l. J tem seis anos e ela est se dando 
muito bem naquele lugar. 
-E o senhor est indo para l, Seu Fernando? 
-Mais ou menos, Joo. Eu at iria, j tinha comprado passagem e tudo mais. Para mim e para Gertrudes, minha 
mulher, mas Deus no quis que ela viajasse. Hoje est fazendo cinco dias que Gertrudes morreu. De repente, Joo, 
do corao!. A minha passagem est marcada para hoje, daqui a umas trs horas. Mas, eu no sei se vou. Estou sem 
nimo para fazer essa viagem... 
-Eu sei, Seu Fernando. Realmente deve ser muito chato. Todo um plano que o senhor fez para viajar com sua 
mulher e de repente acontece isso... 
J tinham acabado de comer os lanches. Joo estava at mais animado, depois da refeio. Era caro, mas que enchia, 
enchia. Percebeu como Seu Fernando ficou triste quando falou de sua mulher. 
-No fica triste, no, Seu Fernando. A vida  assim mesmo. Deus faz as coisas, e no entendemos, mas  sempre o 
melhor. 
-Eu sei, Joo, eu sempre fui muito catlico, mas, no d para entender por qu Deus levou minha Gertrudes. Podia 
ter levado eu antes dela... 
-E o senhor j imaginou se o senhor tivesse ido primeiro? Como teria sido a vida de sua mulher? Ser que ela teria 
agentado? Ser que Deus no a levou primeiro por que o senhor  mais forte, e, por algum motivo precisava passar 
por isso? 
Fernando ficou pensando. Era difcil entender os desgnios de Deus. Como acreditar, como ter f, com tantas 
tristezas? Mas, era preciso ter f... 
-Obrigado, Joo, afinal no temos resposta para tudo, no  mesmo? 
-E o que o senhor resolveu, Seu Fernando? Vai viajar hoje? -perguntou Joo. 
-Hoje, no! Hoje no d! -respondeu Fernando, parando para pensar. -E voc, Joo, est indo para onde? 
-Seu Fernando, eu vim para Salvador. Vou tentar alguma coisa a, nesse mundo. No sei o que vou achar l fora. 
Estou at sentindo medo, uma coisa que nunca senti. Mas, seja o que Deus quiser. 
-E o que voc pretende fazer? Vai trabalhar em qu? 
-Vou trabalhar em qualquer coisa... -respondeu Joo. -Eu no tenho medo de nada, no, Seu Fernando. O difcil 
vai ser comear. 
Veio na cabea de Seu Fernando uma idia que o balanou.
-Joo, voc espera um pouquinho aqui at eu dar um telefonema?  daqueles telefones dali, est vendo? -e apontou 
os telefones pblicos. -Eu j volto, t Joo? 
-Pode ir, Seu Fernando, eu no tenho aonde ir mesmo. 
Seu Fernando se levantou, foi at os telefones e ficou conversando com algum durante uns quinze minutos. 
Gesticulava, fazia silncio, como se escutasse atentamente algum falando, at que desligou e veio falar com Joo. 
-Joo,  o seguinte. Eu estava falando com minha filha. Eu estou precisando visit-la; faz mais de dois anos que eu 
no a vejo, e a gente tinha combinado que eu iria para l, hoje. Mas, eu conversei com ela, e vou lhe fazer uma 
proposta. 
-Joo, o meu genro, Fausto, marido de Isabel, minha filha, tem uma carpintaria, l em Braslia. Eu conversei com 
eles agora, e combinei que mandaria um amigo meu, um rapaz, para morar com eles, durante um tempo, e para 
trabalhar na carpintaria, ser um aprendiz, at conseguir uma coisa melhor. 
-E esse rapaz  voc, Joo. Voc quer ir? Eu lhe dou minha passagem, voc pega o nibus, daqui a pouco, j vai 
com um lugar certo para morar e para trabalhar. O que voc acha? 
Joo estava abismado com a bondade de Seu Fernando: 
-Mas, Seu Fernando, o senhor nem me conhece. Por qu o senhor est fazendo isso por mim? 
-Porque, Joo, estou querendo mostrar para voc que a vida sempre tem altos e baixos, mas, a gente nunca deve 
esmorecer. A gente sempre tem que ter confiana. Mais cedo ou mais tarde, as coisas se arrumam e tudo d certo. 
-Voc me mostrou o porqu de eu ter vindo aqui, hoje. Desde ontem eu resolvi no viajar, mais. E agora eu entendi 
porque vim para c, hoje. E talvez, eu tenha entendido porque esteja vivo. Eu ainda posso fazer algumas coisas pelas 
pessoas. A idade no importa. Nem to novo e nem to velho. Sempre  possvel fazer algo pelo nosso semelhante. 
-O que voc acha, Joo? Quer arriscar? Braslia  maravilhosa. J fui l duas vezes, e fiquei abismado com o que vi.
 o melhor lugar do pas. Tenho certeza de que voc vai adorar. 


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Joo sentiu-se muito emocionado com a bondade de Seu Fernando, mas no tinha certeza de que era aquilo que ele 
queria. Depois, reconheceu que poderia ser a chance que ele tanto precisava. No podia deixar escapar esta chance. 
J teria emprego, casa e comida, e ainda estaria perto dos lderes polticos, onde poderia trabalhar pelo povo, 
conseguir ajuda, e influir em alguma coisa. 
-Seu Fernando, eu vou. 
-Joo! -seu Fernando abraou-o, alegre. -Joo, voc ser feliz naquele lugar. 
-Obrigado por arriscar em mim, Seu Fernando. No vou decepcion-lo. E sua filha? Aceitou tudo?
-A princpio ela no queria.  claro que todos ns temos medo do que  novo, mas eu a convenci. Falei da 
necessidade de abrirmos as portas para as pessoas. Eu li em um jornal um artigo que fala sobre abrir as portas para 
as pessoas, Joo. E estamos fazendo isso para voc. Saiba aproveitar. O nibus sai em menos de uma hora. Vamos 
descer para l? 
-Vamos! 
Joo estava feliz. Nem percebeu como as coisas aconteciam to acertadamente em sua vida. No sabia o que era, 
nem sabia como aconteciam estas coisas. Nem se preocupava com isso. 
Joo entrou no nibus, despedindo-se de Seu Fernando. 
Seu Fernando estava feliz por poder ajudar uma pessoa. Lembrou-se de toda a sua riqueza e sua mesquinharia por 
toda a sua vida. Agora, com sessenta e cinco anos, sozinho, no sabia o que fazer com o dinheiro que tinha. Tinha 
apenas uma filha, que morava muito distante e vivia a sua vida particular. 
Seu Fernando sentiu a presena de Deus nas palavras de Joo. Cada um tem sua f, e Seu Fernando comeou a ter a 
dele. Nunca foi homem de igreja, mas, quando Deus fala ao corao, todo mundo entende. 
Estava comeando a sentir uma coisa diferente. Uma emoo que nunca conseguira. Voltaria para sua fazenda bem 
mais satisfeito. Sabia que tinha ajudado uma pessoa, e que poderia fazer mais por outras pessoas. E iria fazer. Iria 
usar seu dinheiro e o resto de sua vida para fazer o bem a algumas famlias. 
Sem saber, Joo j havia ajudado algumas pessoas, conforme ele queria, quando saiu de Boa Vista. 
Joo estava em um nibus bem mais confortvel. O banco era maior, deitava mais, e at tinham dado um pacote com 
lanche, para ele. Tinha televiso. 
-Como conseguiam ligar a televiso, se ali no tinha energia? 
Joo adormeceu algumas horas depois da viagem. J era noite do dia seguinte quando entrou em Braslia. Desta vez 
ele estava acordado. Era poca de Natal e a cidade estava toda enfeitada. 
Joo nunca havia visto algo to bonito. Luzes brilhavam, formando figuras. Muita cor e luz. Enfeites e bonecos 
espalhados pelas ruas. As casas comerciais estavam todas enfeitadas. Joo ficou impressionado com o que via. Era 
muito maior do que esperava. E tambm era muito mais bonito. 
Entrou na rodoviria. O nibus parou. No era igual  de Salvador, mas era enorme, tambm. Desceu do nibus, 
meio assustado, sem saber para onde ir. Seu Fernando falou que seu genro iria esper-lo. Seguiu em direo  sada. 
Uma pessoa, um homem, parou em sua frente e perguntou: 
-Voc conhece seu Fernando? 
-Conheo. Voc  Fausto? 
-E voc  o Joo? 
Apertaram-se as mos. Fausto estava com o carro estacionado na rodoviria e se dirigiram para l. Conversaram 
banalidades, sobre como era Boa Vista, sobre como havia conhecido Seu Fernando, e Fausto comeou a gostar de 
Joo. 
Fausto era uma pessoa justa. Era bom para quem era bom para ele. Mas era justo com quem fazia maldades. Tinha 
oito funcionrios trabalhando em sua carpintaria. Era pequena, mas o suficiente para manter um status de classe 
mdia. Tinha o seu carro novo, uma casa bem mobiliada e algum dinheiro de reserva. 
Joo conheceu Isabel, a filha de Seu Fernando. Ficou muito feliz com a simplicidade dela. E ficou muito surpreso 
em saber o quo rico era Seu Fernando, que em nenhum momento ostentava toda aquela riqueza da qual falavam 
Isabel e Fausto. Era uma pessoa boa, sem dvida. 
Arrumaram um quartinho no quintal da casa, onde dormia a empregada. Mas, nesta poca, eles estavam sem 
empregada domstica. 
Joo achou o quartinho muito bom. Tinha at televiso. Tinha a sua cama, um pequeno guarda-roupas, e uma 
mesinha com cadeira, onde poderia escrever algumas cartas, se quisesse. 
Comeria junto com eles, e viveria ali at que arranjasse algo melhor. No tinha pressa, segundo Fausto e Isabel, e 
Joo poderia viver ali por bastante tempo, se quisesse, mas se fosse como Seu Fernando falou, um rapaz ambicioso, 
cheio de planos, poderia arrumar um emprego melhor e procurar viver sua vida, como quisesse. 
Joo ficou muito feliz e se preparou para comear a trabalhar na carpintaria j no dia dois do ano novo. Aquele final 
de ano era de festas e Fausto havia dado folga para os empregados. 


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Joo estava muito bem, sem dvida. 

Captulo 09O COMEO DA PLANTAO 

A vida de Joo, em Braslia, comeou como em qualquer lugar. Preso em uma carpintaria, durante todo o dia, e  
noite estava to cansado que s pensava em deitar, assistir televiso e dormir. 
Os seus primeiros dias foram assim, at que recebeu o primeiro pagamento. Com dinheiro no bolso as coisas 
comearam a acontecer. 
Fausto pagava a Joo o equivalente a outro funcionrio aprendiz, que j trabalhava h dois meses na carpintaria. Nos 
servios externos, quando precisavam de algum ajudante, os outros funcionrios revezavam entre Joo e o outro 
rapaz. Quando um ia, o outro ficava para ajudar no prdio da carpintaria. 
Mas, Fausto ajudava Joo na alimentao e na estadia, no cobrando de Joo, nada por isso. Como havia prometido 
a Seu Fernando. 
A princpio, Joo era uma pessoa meio complicada, no to asseada, deixando de cuidar de seu quartinho como 
deveria. No varria, no arrumava suas roupas, e deixava restos de lanches pelos cantos do quarto. Aps algumas 
broncas ele foi se conscientizando de que precisava ir melhorando. 
Foi se organizando. E tambm, foi aumentando sua amizade com os outros funcionrios. Com o dinheiro no bolso 
comeou a dar suas voltas, sempre acompanhado pelos amigos da carpintaria. 
Havia, ali perto, um barzinho que o grupo gostava de tomar uma cervejinha. Era um lugar pequeno, mas bem 
arrumadinho. Tinha umas cervejas bem geladas e servia algumas pores de comida. 
Sempre o grupo ia para l, nos finais das tardes, aps o trabalho. Joo, a princpio era meio tmido, mas com o tempo 
foi se soltando e j comeava a beber mais do que era acostumado. 
Nunca havia ficado bbado, mas sempre bebia bastante. Dentre seus amigos, havia tambm alguns que eram mais 
malucos que outros. O Milton, por exemplo, bebia e usava drogas. J havia fumado maconha junto com Joo. O 
Tiago, tambm. Eram os dois mais loucos de todos, e foi justamente com eles que Joo fez maior amizade. 
Joo estava maravilhado com o lugar e estava to empolgado com a sua evoluo que no percebia que estava 
saindo da linha. Comia e dormia de graa na casa de Fausto e no teve trabalho em conseguir emprego. Foi tudo 
muito fcil e ele no estava acostumado. Achava que a sua vida seria assim, dali para frente. 
J havia passado alguns meses que Joo estava em Braslia e agora ele j saa mais com Milton e Tiago, para lugares 
mais distantes. O uso da maconha era essencial para a boa amizade. 
Compravam o material de um traficante daquele bairro. No era um material de boa qualidade, mas era o que eles 
podiam conseguir. 
Nas sextas-feiras eles iam para a Boate Sonho Azul, que ficava mais no centro. L, bebiam e namoravam  vontade. 
Ficaram conhecidos de todas as garotas pelo modo de no ter misria; gastavam muito. Todo o salrio de Joo era 
gasto com esse tipo de coisa. 
As moas, entre si, disputavam para ver quem dormiria com Joo. Era um negro alto e forte. Esbanjador pensava em 
agradar os seus amigos, pagando rodadas de bebidas para todos. 
Na Boate, era bem conhecido dos freqentadores. E, a cada dia, conhecia mais gente. Primeiro, Joo passou a 
freqentar a Boate acompanhado de Tiago e Milton, mas, depois, passou a dar desculpas para ir mais vezes  Boate. 
Bebia bastante e conhecia pessoas diferentes. 
Determinado dia, Joo usou cocana. Foi a sua primeira vez. 
Estava sentado quando chegou o Pablo. Ele no o conhecia, ainda, mas Pablo, um rapaz de uns vinte anos, estava 
comeando sua vida de traficante. 
-Ol... Tudo bien? -falou Pablo, com uma mistura de sotaque, que ele usava nos primeiros encontros, com a 
inteno de impressionar. 
-Oi... Quer um copo? -respondeu Joo. 
Joo ainda nem o conhecia, mas j oferecia bebida. Era isso que o diferenciava e fazia amizades. Nem sempre eram 
amizades boas, mas, eram as amizades que existiam naquele ambiente. 
-Eu sou Pablo. Qual  o seu nombre? 
-Joo. Joo de Santo Cristo. Pablo? Que nome diferente. 
-Sou descendente de peruanos. Minha av morava na Bolvia, at vir para o Brasil. Voc  de onde, Joo? 
-Da Bahia. Tem um ano que moro aqui, cara. 
-Trabalha no qu? -perguntou o Pablo. 
-Trabalho numa carpintaria, sou carpinteiro. E voc? 


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Pablo parou de falar. Fez suspense. Olhou para um lado, olhou para o outro, como nos filmes. Pigarreou e 
finalmente disse: 
-Estou montando um esquema novo a.  um lance perigoso, pesado... 
Joo se empolgou. Pablo havia tocado em seu ponto fraco. 
-E o que ? -falou, abaixando o tom da voz.
- um lance que estou comeando. Tem um material bom para fumar, voc entende? 
-Ah... Claro... E como  que ? 
-Poxa, cara, comecei a pouco tempo, estou engatinhando. Estou arrumando uns fregueses... Voc  chegado? Na 
erva? 
-De vez em quando. No quero me viciar... 
-Ah, deixa disso... Voc sabe que na maconha ningum vicia... Agora, no p, cara,  foda! Passei por uma fase barra 
pesada. J escapei. Hoje em dia eu s uso por diverso... 
-E voc consegue usar sem viciar? -perguntou Joo. 
-Eu consegui, Joo. Consegui. Foi difcil, mas hoje sou eu quem manda. Eu uso de vez em quando porque eu quero. 
Mas, se eu quiser parar, eu paro a qualquer momento. 
Joo ficou observando aquele cara que conseguia dominar a droga. Ele j havia usado maconha, diversas vezes, 
bebia constantemente, mas nunca usara algo mais forte. 
-Joo -falou Pablo. -Hoje eu no te prometo, mas, sexta-feira, se voc quiser, consigo um papel para gente. D 
para voar legal... 
-Eu no sei, Pablo, estou morrendo de vontade, mas no sei, mesmo, se eu devo... 
-Joo, voc no sabe o que  voar, at que voc use isso. 
Joo ficou com vontade de experimentar. No sabia o que era "voar", como falou Pablo. 
-Pablo, qual  o efeito? Eu no vou viciar?
- a melhor coisa da vida. Voc cria foras no sei de onde. Voc voa... Joo, voc j voou? 
-Com drogas, bebidas? 
-Voc sabe o que eu estou falando, Joo... 
-Olha, Pablo, na minha despedida de Boa Vista teve um lance incrvel. Naquela noite a gente estava bebendo para 
caramba, at que um cara apareceu com um baseado. Ns fumamos, bebemos. Comeamos as dez da noite e 
viramos a noite, bebendo. Voamos alto, depois das duas, mas as cervejas acabaram, e os cigarros tambm. O pai de 
um amigo tinha um bar e ns fomos para l, num lugar mais escondido. L rolou de tudo. Acho que foi a noite mais 
louca da minha vida. 
-Ento, Joo, depois que voc conhecer o p, voc vai saber o que  voar, mesmo... 
E combinaram que iriam se encontrar na sexta-feira. 
Joo ficou ansioso, pediu at um vale no emprego, pronto para ter uma noite excepcional. 
Chegou na Boate e Pablo j estava l. Chamou Joo no canto e conversaram: 
-Joo, consegui. Comprei com meu dinheiro, no vai precisar pagar. Depois voc descola umas cervejas, falou? 
Vamos l para o banheiro... 
Foram para o banheiro. Em um dos compartimentos, em cima do vaso sanitrio, Pablo ensinou Joo a usar. 
Quando Joo voltou para a Boate, no sabia onde estava; se andava ou se voava, se falava ou se sorria. Estava 
completamente alterado. 
Sentia-se o mximo. 
Pablo estava satisfeito. Sabia que no havia mentido para Joo. A primeira vez  extraordinria. 
Da para Joo passar a usar mais e mais foi um pulo. Ele se viciou e era com muita ansiedade que esperava os 
encontros com Pablo. 
Comeou o sofrimento. Joo achava que trabalhava demais. Era o dia todo no batente e o que ganhava no dava para 
manter seus vcios. Sentia raiva em trabalhar at a morte e no encontrar melhores empregos. Mas, ele no se 
perguntava por que no procurava um novo emprego. 
No tempo ocioso que ele tinha, ele simplesmente se entregava  bebida e  droga. 
O tempo passava e ele comeou a achar que Fausto e Isabel o exploravam, pagando mal e no davam chance para 
ele crescer. Joo foi se aborrecendo e comeou a discutir com Fausto, por qualquer motivo. Raramente via-os aps o 
trabalho. Era o tempo suficiente para a alimentao e ia para rua, ia pros bares, ia para boate. 
Raras foram as vezes que ele conversava amigavelmente com Fausto e Isabel. Tambm raras foram as vezes que ele 
se lembrou do passado, da luta que teve para chegar ali, e porque tinha ido para l. 
Certo dia, em entrevista na televiso o ministro da economia explicava os seus atos tentando estabilizar a economia, 
a reduo de juros, a conteno da inflao, mas Joo no queria aceitar nada. Achava que j estavam falando 
demais e ele precisava de mais dinheiro, de mais poder. 


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Uma sexta-feira estava conversando com Pablo, sobre a sua situao: 
-Pois , Pablo, o meu dinheiro no est dando para nada. Tenho que arranjar um emprego melhor, cara. 
-Ou ento, Joo, fazer alguma coisa para aumentar o que voc ganha. 
-O que voc quer dizer com isso? -perguntou Joo. 
-Joo, estou com um plano a. Se der tudo certo, vou fazer uns negcios de umas plantaes. Se voc quiser, pode 
entrar na turma. 
-Plantao de qu? Milho, feijo? Quando eu era pequeno o meu pai mexia com isso, mas eu no sei como  que ... 
-Joo, deixa de ser bobo,  plantao de maconha... 
Os olhos de Joo brilharam. -Plantar maconha. Onde? D para enriquecer? 
Joo conheceu os detalhes do plano de Pablo. 
Era um grupo de cinco pessoas, inclusive Pablo, que tinham conseguido um patrocnio de uns traficantes de outro 
estado e estava tudo pronto para comear a plantao. Com Joo, seriam seis pessoas, com cotas iguais, mas com 
trabalho igual. 
-E como ns vamos fazer? Onde ns vamos plantar? 
-Joo, vamos ter um encontro da turma, amanh,  tarde. Se voc tiver a fim, pode vir. 
Joo pensou no modo que estava vivendo. No conseguia juntar dinheiro, no conseguia ter dinheiro para seus 
vcios. Fausto tinha trocado de carro, reformou a casa, e at tinha contratado mais gente para carpintaria. Estava 
crescendo bastante, mas, Joo, no tinha ganhado nada a mais com isso. Continuava o mesmo pobreto. 
-Pablo, vamos comear a plantao... 
E pediu mais uma cerveja. 
A reunio aconteceu numa casa alugada, exclusivamente para estes encontros. Todos estavam nervosos, quase no 
se conheciam, mas todos estavam com o mesmo propsito de enriquecer urgentemente, nem que usassem os meios 
ilegais para isso. 
-Vamos comear a falar do plano -falou Paulo, um moreno alto, que parecia muito experiente. -Em primeiro lugar, 
vamos nos conhecer. 
E pediu que cada um falasse de sua vida, de suas honestidades e de seus problemas com a justia. Ali ningum era 
santo. 
O que eles tinham em comum era a droga. Alguns usavam a mais tempo e outros a menos, mas, todos, j tinham 
usado. 
Paulo, o lder, j havia sido preso algumas vezes por porte de droga, assalto e tinha cometido um assassinato, mas 
ele jurava que no havia sido ele. 
Felipe era o menos experiente. Nunca teve grandes problemas com a justia. Era viciado e estava comeando a 
vender maconha. 
Pablo era o amigo de Joo. J usava drogas h algum tempo, mas tambm nunca teve problemas com a justia. 
Michel j havia sido preso por porte de drogas. Depois que saiu da priso cometeu trs assassinatos e estava 
envolvido com o trfico grande. Sentia, neste plano, a chance de comear alguma coisa por conta prpria. 
Roberto era criminoso. Usava drogas desde os doze anos e j no sabia contar os problemas com a justia que tinha. 
Inclusive, era foragido e no podia andar por todos os lugares, como os outros. 
Joo era usurio, mas j teve os problemas quando menor de idade. Ultimamente, no tinha tido nenhum problema 
srio. 
Quanto mais Joo conversava com seus amigos, mais ele se animava com o plano. Era com Pablo que ele mais se 
identificava. Passava, agora, quase todo o tempo ao lado do amigo. 
-Pablo, quem so esses caras do Rio de Janeiro que querem nos financiar?
-Joo, eu j tive um contato com eles na semana passada.  um pessoal barra pesada, mas  um pessoal legal. Eles 
sabem que ns vamos conseguir vender bastante por aqui e ainda sobrar para eles. Eles esto emprestando a grana,
esto dando as sementes e at bancaram a gente para comprar carros, equipamentos, tudo o mais.  um pessoal 
forte! 
-E no tem perigo deles se voltarem contra ns? 
-Claro que tem, mas a gente deve andar desconfiado, no s com eles, mas com os outros caras, tambm. Voc acha 
que a gente pode confiar no Paulo, no Lipe, e nos outros? Claro que no! E fique sabendo que eles tambm 
desconfiam da gente. 
-Da gente? -perguntou Joo. -Eu no fiz nada. 
-Mas eles no sabem o que voc j fez no passado. E se voc quisesse matar um deles agora, para ficar com maior 
parte do que os outros? Voc sabe o que faz, mas eles no sabem nem o que voc pensa! 
-Pablo, ento quer dizer que eles podem querer matar a gente para pegar uma parte maior? 
-Claro, Joo, claro! Temos que ficar de olho! 


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Quando Pablo falou isso, j estava com um plano em sua mente. Sabia da facilidade de Joo em entrar em seu plano, 
mas sabia que no era a hora de falar sobre isto. Primeiro precisavam comear a plantao. 
Foram Paulo, Felipe e Michel em um carro, Joo, Pablo e Roberto em outro e foram colocar o plano em ao. 
Visitaram agricultores da regio e comearam a oferecer as vantagens em plantar maconha. Seriam financiados 
pelos rapazes, que j comearam a deixar algum dinheiro com os agricultores. O que eles deveriam fazer era plantar, 
cuidar da plantao at a colheita, e receber o dinheiro que o grupo iria dar. Tudo, desde semente, adubos, irrigao, 
mo-de-obra e todas as outras despesas sairia por conta dos rapazes. No plantariam muita maconha em apenas um 
lugar para que no chamasse a ateno das autoridades. 
A nica coisa que os rapazes queriam era que os agricultores calassem a boca. Ningum poderia ficar sabendo do 
que eles estavam tramando. E a entravam com a chantagem. Se algum ficasse sabendo, algum morreria. 
E deu certo. Pelo menos metade dos agricultores cederam  vantagem financeira que o grupo oferecia. 
Algum tempo depois j tinham a primeira colheita. Nessa mesma poca, houve um brutal assassinato de Paulo. 
Quando estava chegando em sua casa, uma dupla em uma motocicleta parou em sua frente e disparou diversos tiros. 
Paulo no teve a mnima chance. 
Os outros rapazes, mesmo chocados com o que havia acontecido, continuaram com o plano. Ainda no haviam 
negociado, estavam apenas colhendo o material para beneficiamento. 
A maconha estava quase boa. Estava quase na hora de colocar a droga no mercado. 
Felipe, Roberto, Pablo e Joo estavam em um bar, conversando, comemorando o resultado das colheitas. Ainda no 
estavam vendendo, mas o pessoal do Rio de Janeiro estava satisfeito com os resultados at o momento. 
Inclusive, Michel havia viajado para o Rio de Janeiro, a fim de combinar os detalhes de como iriam transferir a parte 
deles da mercadoria. 
J era mais de duas horas, quando se despediram. Felipe e Roberto seguiram em uma direo e Pablo e Joo foram 
na outra. Antes de Felipe e Roberto chegarem em casa, um carro com dois ocupantes, ambos com capuz na cabea, 
parou na frente dos dois, freando bruscamente. Os dois saltaram do carro, armados e atiraram nos dois rapazes, sem 
dar chance para a defesa. Ambos morreram na hora. 
Da mesma forma, Michel foi morto no Rio de Janeiro, sem ter aparentemente feito nada. 
A polcia notificou o caso como uma queima de arquivo entre grupos traficantes rivais. Joo e Pablo estavam 
satisfeitos. Seriam os donos de todo o plano, com seu sucesso. 
Na verdade, Pablo e Joo resolveram adiantar o que eles pensavam que os outros fariam. Fizeram um acordo com o 
pessoal do Rio de Janeiro e combinaram em exterminar os amigos da regio. Da mesma forma pediram que fizesse o 
mesmo com o Michel. Com isso, ficaria mais fcil a diviso da mercadoria entre os dois e a turma do trfico do Rio. 
Em uma das visitas que os cariocas fizeram, de surpresa, pegaram Joo e Pablo totalmente voltados para o sucesso 
do plano, o que fez com que ficassem super satisfeitos. Era isso que eles esperavam. Dedicao total para que o 
plano desse certo. 
Eram dois rapazes do Rio. Visitaram a ltima fazenda que iria entregar o produto. J estava no ponto para a colheita. 
Os dois acompanharam Joo e Pablo nesta ltima visita. 
Chegando na fazenda, encontraram o casalzinho de velhos, sorrindo, felizes com o sucesso da plantao. 
-Oi, meus filhos, vocs vieram buscar o produto? -perguntou Seu Slvio, j idoso, mais de cinqenta anos, que 
pareciam mais de sessenta, acabado pela dureza da vida, como ele mesmo dizia. 
-Viemos, Seu Slvio. O caminho vem daqui a pouco. Estes dois so nossos amigos, do Rio de Janeiro. 
-Oi, prazer! Como vai? 
-Tudo bem, Seu Slvio. Com foi  plantao? Tudo certinho? 
-Foi tudo bem... S na primeira vez que no deu muito certo. Falhou demais... 
-Na primeira vez? Qual foi a semente que voc plantou? 
-Os meninos trouxeram umas sementes mais escuras... Da primeira vez... Depois, trouxeram umas mais brancas... 
A, no falhou nada. 
-Ah, Seu Slvio, aquela semente era ruim mesmo. Todo mundo reclamou. 
Os rapazes ficaram satisfeitos com a simplicidade do agricultor. 
-O senhor ficou satisfeito com os rapazes, Seu Slvio? 
-Eles foram muito bons, mesmo! Me deram tudo o que eu precisava. No faltou nada. 
-Daqui uns dias vai ter mais, Seu Slvio. 
E chamaram a todos para dentro da casa, para acertar o pagamento. Seu Slvio recebeu o dinheiro diretamente das 
mos de Pablo e Joo. Ficou muito contente, afinal, nunca ganhou tanto com a agricultura. 
Ficou tudo certo de como os rapazes iriam transferir o produto j beneficiado para o Rio e como ficaria a parte de 
Pablo e Joo. 
Joo e Pablo comearam a distribuir o produto. Entraram com tudo no movimento de drogas em Braslia. 


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Pouco a pouco foram instalando o seu poder e criaram os seus pontos de drogas. Uniram-se a alguns traficantes mais 
velhos e, devagarzinho foram crescendo. Algum tempo depois comearam os problemas com os traficantes maiores, 
mas o pior j havia passado. 

Captulo 10O COMEO DO TRFICO DE DROGAS 

Joo se envolvia de corpo e alma no trfico. Gostava de vender drogas, adorava ir para as ruas, sentir que as pessoas 

o respeitavam, tratavam-no como uma pessoa poderosa. 
E Joo no hesitava em tomar providncias violentas para seguir o seu rumo. O dinheiro aumentava em sua conta 
dia a dia. Nunca havia ganhado tanto. 
Joo e Pablo tambm continuavam a usar drogas continuamente. 
Joo, pessoalmente, disputava os pontos de venda de drogas. A primeira vtima, um traficante do bairro, foi 
emocionalmente chocante. 
Joo e dois comparsas foram diretamente  boca de fumo, onde estava Adriano. Eles j o conheciam, pois 
costumavam comprar drogas em sua mo. 
Adriano sorriu, achando que seria mais uma venda. Joo ainda no havia espalhado a sua fama. Estava fazendo 
pouco a pouco. 
-E a, mano, o que vai ser hoje? -perguntou Adriano. 
Joo foi direto ao assunto. Puxou seu revlver e deu quatro tiros em Adriano. Os seus comparsas mataram outro cara 
que estava no local. Dois comparsas de Adriano, que tambm estavam no local ficaram estagnados. Joo imps sua 
vitria e decretou que eles deveriam sair dali imediatamente. 
A partir deste momento, Joo iniciou sua prpria boca de fumo. O seu produto era puro. Sua maconha era tima. A 
repercusso foi instantnea. O seu movimento subia gradativamente. 
Da para a conquista de outras bocas foi um pulo. Os seus comparsas iam aparecendo, pouco a pouco. Sempre 
existem aqueles que querem ficar ao lado de quem est por cima. 
Rapidamente, Joo acabou com os piores traficantes da regio. Outros traficantes menores no esperaram a visita da 
gangue do Joo, e fugiram para outras cidades. 
O trfico do Rio de Janeiro comeou a investir na turma do Joo. Mandavam dinheiro, armas e droga pesada. Joo 
conseguia maconha de boa qualidade e enviava para o Rio. 
Pablo fazia todo o servio de contatos, continuava a conquista de novos agricultores, inclusive de outros estados, 
conseguiu contatos importantes com a Bolvia, pas que conhecia bem. 
Em pouco tempo, Joo e Pablo passaram a ser alvo de conversas em todas as rodas. 
Os polticos falavam nos bastidores, do poder que eles conquistavam e ficavam receosos de tomarem aes que no 
fossem de acordo com a vontade de ambos. 
A polcia era financiada pela gangue de Joo, e hesitavam em agir contra eles. 
A alta sociedade, com seus vcios convidava os dois para freqentarem suas festas. Afinal, todos eram influenciados, 
direta ou indiretamente. 
Muitos eram amigos verdadeiros, feitos pelo poder de convico de Joo, que aonde chegava conquistava a todos. 
Nunca se preocupou com economia, e muito menos agora, que tinha muito dinheiro. Muitos dependentes de drogas 
o rodeavam e o adoravam. 
O que Joo mais gostava em toda esta trajetria era poder freqentar as festas de rock. Era um pessoal que o 
respeitava, o tratava dignamente como nunca haviam feito. Vestia uma roupa legal, quase sempre nova, comprada 
exclusivamente para aquela determinada festa, com bastante dinheiro no bolso, e belas mulheres o rodeavam. 
Quase sempre dormia em bons hotis, sempre muito bem acompanhado. Usava drogas puras, que faziam sua 
amizade crescer a cada dia, interessados nesse livre acesso. 
Distribua maconha e cocana por muitos bairros da cidade. Era o novo dono do pedao. 
Pablo e Joo comearam a investir o dinheiro que ganhavam. 
-Joo, estava pensando em montar uma central onde pudssemos controlar todo nosso imprio. O que voc acha? perguntou 
Pablo. 
-Concordo. Vamos comprar um prdio! -falou Joo. 
-Um prdio, Joo? Calma! Eu acho que a gente deveria comprar um galpo, tipo estes que a gente v nos filmes de 
cinema. 
-Que nada, Pablo. Sabe o que eu gostaria? Eu gostaria de ser dono de um morro. Morro do Joo!!! J pensou? 
-Voc t voando, Joo. A j  demais! 
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-Eu sei, mas eu posso fazer uma coisa parecida. Eu vou construir um prdio, e vou chamar este prdio de Morro. E 
a eu posso falar que sou dono do Morro. O Morro do Joo! O que voc acha? 
-Sei l, Joo, vai chamar muito a ateno. 
-Eu sei... Vamos ter que ter uma fachada... Ns faremos andares subterrneos, para uso exclusivo do nosso trfico. 
Nos andares normais ns alugaremos para o comrcio, por aluguis baixos, para que fiquem sempre alugados. E nos 
dois ltimos andares eu quero o meu conforto. No penltimo eu quero a melhor residncia de Braslia e no ltimo, 
eu quero tudo de melhor que um escritrio possa ter. E vamos contratar os melhores empregados para nos ajudar. E 
agora? O que voc acha?
-Puxa, Joo...  tentador! 
-Tudo bem... Voc fica com o andar abaixo do meu... 
-Ah... Agora ficou perfeito... 
E riram do poder que tinham. 
Uma semana depois j tinham comprado um terreno, no centro da cidade. Seis meses depois o prdio j estava 
pronto. Com tantos pedreiros, ajudantes, etc., que fosse possvel, fizeram o servio mais rpido que o normal. 
Joo, todos os dias, visitava a construo. Pablo ia de vez em quando. 
Na inaugurao foram todas as pessoas influentes da cidade. Eram polticos, empresrios, comerciantes e toda a grfinagem. 
Nunca se comeu nem bebeu tanto como naquela noite. E para os mais chegados tinha p de sobremesa. 
Na hora em que Joo e Pablo tiraram o pano para a inaugurao do prdio, houve uma esfuziante salva de palmas.
Na placa estava escrito: MORRO DA VITRIA 
A princpio Joo queria colocar Morro do Joo, mas Pablo discordou. Ficaria muito pessoal. E se colocasse Morro 
do Pablo? Nessa dvida, ficou combinado que colocariam Morro da Vitria. 
Joo, para tudo que quisesse se referir ao prdio, falava Morro. "Eu vou l no Morro. Eu vim do Morro. Vou dormir 
no Morro". Os seus amigos aprenderam a usar os termos. "Cheiravam a pura apenas no Morro do Joo". 
A locao dos apartamentos foi rpida, e conforme haviam combinado, o preo da locao era abaixo do mercado. 
Rapidamente, o prdio se transformou num local onde procuravam todo tipo de servio, bem como era ponto 
comercial, em alguns andares. 
Ningum desconfiava do entra e sai que ocorria nos trs andares subterrneos. Eram caminhes carregados 
chegando, eram carros carregados saindo. Homens e mulheres entravam e saiam, dos andares, que eram controlados. 
Na verdade, o acesso aos andares do trfico era restrito a um grupo de pessoas que trabalhavam para a recepo e 
distribuio da droga para a cidade. O poder de Joo estava no auge. Os carros saiam dali, carregados, e distribuam 
nas bocas que estavam espalhadas pela cidade. 
As autoridades sabiam o que estava acontecendo, mas como em todo lugar era inevitvel o trfico de drogas. E, 
como Joo tinha destrudo ou expulso os outros traficantes da cidade, as autoridades at estavam satisfeitas em no 
ter tantos problemas quando se havia disputa por pontos de droga. 
Joo ajudava constantemente a polcia, com doao de dinheiro e material para as delegacias. At carro ele havia 
doado. E mantinha a sua turma especial de proteo dentro da polcia. Se caso houvesse a necessidade de evacuao 
das drogas do prdio, Joo seria avisado, atravs de sua turma de proteo, infiltrada na polcia. Eles faziam 
rapidamente uma limpeza no prdio, caso houvesse algum tipo de fiscalizao. 
Essa fiscalizao ocorria, periodicamente, devido aos diversos boatos que surgiam sobre o trfico de drogas 
realizado por Joo e Pablo. Vinha do alto comando da polcia, mas nunca puderam comprovar nada. 
Joo ficava durante o dia no escritrio, localizado no dcimo terceiro andar. Durante a construo, Joo resolveu 
inverter e construiu no ltimo andar a sua residncia. Tinha at piscina. Ficou o mximo. Joo colocou em casa tudo 


o que era possvel em conforto, inclusive, uma mini academia, salo de jogos, e uma sala que ele chamava de boate, 
com som, luzes, que era onde ele trazia suas garotas. Dali, para o seu quarto era um pulo. Na boate, Joo aprontava. 
Sempre tinha cocana espalhada em uma mesa, em um cantinho. Suas visitas podiam visitar a mesa, sempre que 
quisessem. E, quando acabasse o p, sempre havia um empregado pronto a renovar. 
No escritrio, havia a sala de Joo e a de Pablo. Enquanto Pablo tratava de todo o processo de comunicao com 
outros estados e pases, Joo era encarregado do recrutamento. 
E foi num desses processos que ele conheceu o seu melhor amigo, nesta etapa de sua vida. 
No dia em que se conheceram, Joo estava muito feliz. Eram trs horas da tarde quando Natinho entrou em seu 
escritrio. 
-Boa tarde, Seu Joo! -falou Natinho. 
Joo ficou chateado. Joo estava acostumado com puxa-saco, mas odiava esse negcio. S porque tinha dinheiro e 
poder no precisava de bajulao. Joo era um negro, um metro e noventa de altura, forte e independente. Achava 
estranho aquele respeito que conquistou. 
-Ei, menino branco. O que  que voc faz aqui, subindo o Morro? Quer se divertir? -perguntou Joo. 
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#
Natinho percebeu que no seria fcil o que ele pretendia. 
-Seu Joo... 
-Olha, pivete, eu no te conheo, mas no gostei de voc. Que negcio  esse de me chamar de "Seu"? 
Natinho ficou calado. Estava humilhado demais para responder alguma coisa. 
Joo percebeu o que tinha feito, e rapidamente mudou seu tom de voz. 
-O que foi, rapaz? Fala a... -perguntou Joo. 
-Olha, Joo, eu estou precisando de emprego. Sei que voc  dono deste prdio e resolvi vir direto a voc para pedir 
emprego. Pode ser qualquer coisa. At vender drogas na rua. 
-Que negcio de drogas  este? Est maluco, cara. Eu no mexo com isso, no! 
Natinho respirou fundo e falou: 
-Joo, a sua fama corre por toda a cidade. Todo mundo sabe que voc  o Rei. Sem voc esta cidade estaria parada. 
Sem voc a nossa cidade seria uma merda. 
Joo ficou satisfeito com o status. De repente, voltou ao cho... 
-Que  isso, moleque? 
-Joo, eu quero vender drogas. Eu uso desde os quinze anos, mas agora estou querendo vender. E no quero ser 
vendedorzinho p-de-chinelo. Quero ser forte. Com o seu apoio quero me tornar no seu melhor homem. 
Joo estava surpreso com aquele rapaz que entrou tmido, humilhado, e agora estava demonstrando uma 
personalidade formidvel. 
-Qual o seu nome? -perguntou Joo. 
-Natinho. 
-Seu nome, mesmo? Qual ? 
-Eu deixei de ter nome h algum tempo. 
-Eu entendo. J passei por isso na minha vida. 
Olhou para aquele rapaz, tentando se firmar em alguma coisa e resolveu: 
-Olha, rapaz -voc est contratado. Voc ser o meu melhor vendedor. Mas, para isso, voc precisa provar que  o 
melhor vendedor. Voc  capaz disso? 
-Sou. -respondeu, Natinho, secamente. 
-Ento, daqui a pouco, s seis horas, ns vamos fazer um teste. D um tempo l em casa. Sobe e fica l. Na hora 
certa eu lhe chamo. 
Natinho ficou impressionado com Joo. Tomava as decises imediatamente, sem medo. Mandou Natinho para sua 
casa, sem nem mesmo conhec-lo. O que aquilo representaria? Sabia que era um teste. 
Na sala de Joo tinham diversos objetos de valor. Esculturas, enfeites, relgios, e outros artefatos. Alm de que, em 
um cantinho estava um pouco de maconha e outro de cocana. 
Natinho sabia que era um teste. E ele iria passar neste teste. 
Na verdade, Natinho tinha uma dependncia em cocana incontrolvel. J havia tido diversos problemas. Mas, nesse 
momento, estava preocupado em mudar sua vida. Falava em abandonar drogas, mudar amigos, conseguir um bom 
trabalho. Afinal, estava pensando em ter um futuro. 
Joo, por sua parte, fazia este tipo de teste com todos os seus possveis funcionrios. Muitos haviam passado e
muitos reprovados.  claro que era um teste injusto com os diversos viciados que entravam naquela sala, loucos de 
vontade de usar alguma droga. 
Mas, Joo, quando viu Natinho, sabia que no precisava fazer o teste. Sabia que Natinho era o seu novo brao-
direito. Sabia, que, se isso no fosse acontecer agora, aconteceria no futuro. 
Era como se uma fora muito forte o estivesse avisando para ajud-lo, naquele momento, que em outro momento 
teria o retorno. 
s seis horas Joo apareceu na sala. Faziam duas horas que Natinho estava l. A nica coisa que ele fez foi ligar o 
som. Sintonizou uma rdio que s tocava MPB. 
-Que som legal. Voc curte esse som? -perguntou Joo. 
-Adoro! Pena que o cara morreu... Seno, hoje em dia estaria no topo do mundo. O cara era mgico... 
-Se era!!! O cara era o mximo. Ainda hoje, depois de tanto tempo, est fazendo sucesso. 
-Eu fico pensando -disse Natinho. -como Deus faz as coisas. Ser que estava na hora do cara pegar aquela doena 
e morrer? Por qu no me levou no lugar dele? 
-O que  isso, cara? No entendo sobre esses negcios de Deus, mas acho que o que tem que acontecer, acontece. 
Acho que no tem esse negcio de a gente correr de acontecer s coisas. Acho que o dia que vou morrer, j est 
escrito em algum lugar. 
Natinho observava. Sabia que Joo tinha razo. O dia da sua morte estava escrito. Quem mexia com drogas assinava 
a sua morte. Mais cedo ou mais tarde. O dia de Natinho tambm estava escrito. 


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#
-Que  isso, Joo? Parece que viu anjos? Est prevendo o futuro? 
Joo riu da brincadeira. No estava acostumado a rir, assim. Sempre era levado muito a srio. Quem o rodeava sabia 
do seu poder. Sabia das mortes que carregava nas costas. 
-Vamos descer, Natinho. Quero te levar em um lugar. Se der certo, voc passa a trabalhar l. 
E desceram. Foram para o carro de Joo, que dirigiu at um determinado bairro.
-Natinho, aqui voc tem um material ruim.  cocana misturada com uns negcios a. D para sentir um pouco do 
efeito, mas se o cara for macaco velho, voc vai perder seu dinheiro. E levar umas porradas por vender material 
falso. Toma a. 
Natinho pegou o papelote na mo, olhou bem para o papel e resolveu: 
-Vou passar! 
-Quero ver! -respondeu Joo. 
Saiu do carro, viu um cara que parecia viciado vindo do outro lado da rua. Aquela esquina era um ponto de venda de 
cocana, e era fcil identificar os possveis fregueses. 
-Volta aqui... -gritou Joo, pensando em dar algum conselho para facilitar a venda. 
-Vem voc! -gritou Natinho, demonstrando sua forte personalidade. 
Encontrou com o cara. Joo os viu conversando. Natinho enfiou a mo no bolso e entregou o papelote ao rapaz. Este 
entrou no bar em frente, foi ao banheiro. Demorou um pouco. Saiu, sorrindo, e entregou algumas notas para o 
Natinho, que veio para o carro de Joo. 
-Como foi? -perguntou Joo. 
-Nem sentiu que era falso... 
-Ento entra a e vamos comemorar... -brincou Joo, festejando o incio de uma nova amizade. 
Foram para a casa de Joo. J era noite. Do celular, Joo deu ordens aos seus funcionrios. Queria encontrar trs 
amigos e mandou localizarem-nos. Pediu que os convocassem para uma reunio em sua casa, dentro de meia hora. E 
pediu que convidasse algumas garotas, para divertirem-se, aps a reunio. 
Joo chegou ao prdio, e quando foi entrar em casa, percebeu que tinha esquecido as chaves. 
-Agora que temos a casa  a chave que sempre esqueo. 
Mas, com uma ligao no celular tudo foi resolvido. 
A partir deste dia Natinho passou a freqentar a casa de Joo. Conseguiu um ponto de venda de cocana perto de 
onde realizou aquela faanha, mas sempre era chamado  casa de Joo, que reconheceu em Natinho uma pessoa 
amiga e companheira, diferente dos outros amigos, que s pensavam no dinheiro e na droga. 


Captulo 11JOO V A MORTE DE JOO ROBERTO 

Natinho crescia a olhos vistos em seu setor de vendas. Fazia amizades e controlava a regio. Sabia respeitar tanto a 
Joo quanto a Pablo como patres. Sem bajulao, mas sempre com muito respeito. 
Natinho ia a muitos lugares que Joo e Pablo freqentavam, e Joo comeou a participar da vida de Natinho. 
Em um desses eventos, ocorreu um acidente muito srio. 
Natinho fez uma freguesia nos arredores de seu ponto de venda. Tinha diversos amigos na faculdade e no colgio, 
ali perto. Freqentava os prdios, como se fosse um estudante normal. E muitas vezes passou drogas ali dentro, 
mesmo. 
Tinha alguns amigos que eram mais chegados. Um deles era o Joo Roberto. Johnny, como era chamado, era 
querido por todos. Joo Roberto era um cara legal, animado, sempre com o seu violo de lado. Tocava em qualquer 
lugar que houvesse um grupinho de rapazes ou moas. Era muito hbil em tocar os cantores brasileiros, mas curtia 
mesmo tocar Rolling Stones, Beatles e outros artistas internacionais. 
Johnny tinha uma namorada, a Letcia; L para os mais ntimos, como ela dizia. L era animada, j tinha seus planos 
de futuro: seria psicloga. At que um fato muito ruim aconteceu em sua vida. Ela havia sido estuprada. 
Joo e Natinho estavam no parque em frente ao colgio, falando sobre L. 
-Joo, eu no entendo como algum pode estuprar uma mulher, hoje em dia. Sexo  a coisa mais fcil que se tem, 
mas uns caras querem as coisas proibidas, com violncia. No d para entender. 
-Eu tambm no entendo. Eu sempre tive facilidade com mulheres. Desde cedo conheci as manhas para dar prazer a 
uma mulher. Depois de um certo tempo, elas me procuravam e me ensinavam cada coisa. Nunca forcei uma transa. 
-E a L sofreu, cara. Eu vou te falar uma coisa. Sabe o Johnny, o namorado dela? 
-Eu conheci o Johnny naquele dia l no Barzinho da Janana, lembra? Tava rolando um rock, a chamaram o cara 
para tocar Satisfaction, dos Stones. Voc lembra? 


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-Ah, lembro. Pois , cara. Ele no sabe de nada do estupro da mina. J tem um ms que aconteceu. Eu sou amigo 
ntimo dela. Ela me contou, mas no tem coragem de contar ao Johnny. 
-Puxa, cara, que chato! 
-Se . E o que  mais chato  que ela entrou em depresso e o Johnny no sabe porqu. O Johnny acha que ela se 
apaixonou por outro cara e o negcio no deu certo. Depois do estupro eles se encontraram pouco e o pouco que se 
encontraram brigaram mais do que deviam. No sei onde vai acabar. 
-Mas ela devia se abrir com o Johnny -falou Joo. -O cara vai entender e ajud-la. 
-Todo mundo acha isso, mas ela no! Ela acha que ele vai se afastar. Eu acho que ele vai se afastar se ela continuar 
do jeito que est. 
J havia passado das onze da noite. Haviam prometido uma srie de pegas para aquela noite. Johnny era fera. Era o 
melhor. Tinha um Opala azul metlico, que era conhecido por todos. E para aquela noite havia marcado um super 
pega contra o Otvio, outro fera. O que todos esperavam h bastante tempo, havia chegado. Hoje eles saberiam 
quem era o melhor: Johnny ou Otvio? 
Natinho falou com Joo: 
-Olha l o Johnny. Vamos l falar com ele? 
Johnny estava sentado em seu carro, com a porta aberta. As pernas para fora do carro, ouvia msica. A banda Cat 
Powers tocava em seu CD Player. Completamente depressivo. Aquele no parecia o Johnny, aquele cara alegre, para 
frente e sempre bem humorado. 
-E a, Johnny? Como est? -disse Natinho. 
Johnny levantou a cabea, olhou para Natinho e Joo. 
-Tudo bem, Natinho. E voc? -e esboou um sorriso. 
Natinho imediatamente percebeu que no estava nada bem. 
-Vai ter pega hoje? Voc no parece legal! 
-Ah, vai... A minha vida  isso... 
-O que aconteceu? Por qu tanta tristeza? Como vai a L? 
-Ah, Natinho, vai mal. T triste, cara, nem parece a mina que eu conheci a um ano atrs. No sei o que aconteceu, 
cara, ela mudou demais. Quase agora fui na casa dela, e at brigamos. 
-O que aconteceu, cara? -perguntou Joo. 
-A mina mudou demais. Se ela me falasse o que ela quer, mas ela no conversa. Passa tanta coisa na minha cabea. 
No sei mais de nada. No sei mais o que fazer. Aquela mina era tudo para mim. Sem ela, minha vida no tem mais 
sentido. Queria tanto ajud-la, mas ela no me deixa. Tenho as minhas dvidas. 
-No se precipite, Johnny. Deve ser s uma fase, e rpido isso passa. De repente volta a alegria no rosto dela. 
Mas Johnny no se alegrou. Sabia que o que tinha ocorrido era muito srio, seno ela tinha falado com ele. 
-Johnny -falou Natinho. -Pega isso. -e entregou um papelote da pura. -Essa  por conta da nossa amizade. 
-Valeu, Natinho, vou precisar para daqui a pouco. 
Despediram-se. Joo e Natinho foram se afastando. 
-Joo, no sei no, ele, hoje, estava mais abatido do que o normal. Ele tava com um sorriso estranho. Tomara que 
ele no esteja planejando nenhuma besteira. Sei l, eu tenho uma m-impresso. 
-Ah, Natinho, deixa para l. Voc est imaginando bobagens. 
-Tomara que sim, Joo. Tomara que eu esteja imaginando. 
E saram. 
Meia hora depois, viram que Johnny acelerou mais do que podia na Curva do Diabo, onde aconteciam muitos 
acidentes. Um caminho de combustvel vinha em direo contrria e Johnny no desviou. Acertou em cheio. A 
exploso foi enorme. As labaredas que subiram brilharam o cu, com um misto de azul, amarelo e vermelho. 
Joo e Natinho sabiam que Johnny era muito bom para ter errado a curva. Johnny era fera demais para vacilar assim. 
Eles sabiam que Johnny havia se matado. 
No outro dia foi o enterro de Johnny. 
Joo, Pablo e Natinho compareceram  cerimnia. Ningum acreditava como um rapaz to novo sofria tanto. No se 
podia sofrer por amor com aquela idade. 
Pelo menos era o que eles pensavam. 
Ainda estavam na cerimnia quando chegou outra notcia chocante. A Letcia havia se suicidado. Quando L soube 
do acidente que havia vitimado Johnny, ela no agentou o choque e se desesperou. Tomou calmante, adormeceu, 
mas, quando recuperou do choque, se jogou da janela do quinto andar. 
-Nada  fcil de explicar -dizia Natinho. -Por qu esta idade  to difcil. Eles s tinham dezesseis. 
-Eu tive uma crise sria, nesta idade, tambm -disse Joo. -Mas, para mim foi construtivo. Depois da minha crise 
eu consegui me transformar em outra pessoa. Eu conheci a poltica e batalhei por mudanas na minha cidade. 


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- mesmo? -falou Pablo. -Voc nunca me falou disso. 
-Foi um tempo muito difcil. Ao mesmo tempo em que eu ia descobrindo coisas maravilhosas, como poder ajudar 
aos outros, eu ia descobrindo o lado podre do poder. 
-E por qu voc no entra na poltica? Aqui  o lugar dos polticos -perguntou Natinho. 
-Quem sabe... Quem sabe... 
Depois da cerimnia, Natinho convidou: 
-Eu tenho uma amiga, aqui perto, que est passando uma crise muito sria. Vamos passar na casa dela? 
-Ah, sai dessa, Natinho. T virando assistente social? -falou Joo. 
-Poxa, Joo, ela  minha amiga h muito tempo. E, sei l, era amiga da L. No sei como ela ficou depois de ter
perdido a amiga. Vamos passar l.  rapidinho. 
-Vamos fazer o seguinte. Eu deixo voc l, falou? 
-Tudo bem. J  alguma coisa. 
Joo e Pablo deixaram Natinho no prdio de Clarisse e foram para o Morro. 
Natinho encontrou os pais de Clarisse na sala, entristecidos. 
-Como vo as coisas, dona Mrcia? 
-Mal, meu filho. Muito mal. A Clarisse est presa no banheiro, agora. No sabemos o que pode acontecer. 
-Eu posso falar com ela? -pediu Natinho. 
-Claro, filho. Vamos ver se ela quer falar com voc. 
Foram at a porta do banheiro. 
-Clarisse! -gritou sua me. -Clarisse! O seu amigo Natinho est aqui, e quer falar com voc. 
-Oi, Clarisse, posso falar contigo? -perguntou Natinho. 
O silncio que dominou o ambiente foi assustador. J estavam assustados com o que tinha acontecido com Johnny e 
L, e estavam com medo da reao de Clarisse. 
De repente, ouve-se um destrancar de chave. Clarisse falou, com uma voz arrastada: 
-Entra aqui, Natinho. 
Natinho balanou a cabea para a me de Clarisse e entrou. L dentro encontrou Clarisse com diversas marcas de 
cortes em seu corpo. Seus tornozelos sangravam. 
-O que voc est fazendo? Me d aqui esse canivete. 
Clarisse entregou, passivamente, o canivete a Natinho. Parece que uma onda de paz havia entrado naquele banheiro. 
Clarisse abraou Natinho. 
Chorou copiosamente. 
-Est doendo, Clarisse? 
-A dor  menor do que parece... Voc viu o que aconteceu com a L? -falou Clarisse, gemendo. 
-Eu vi, que coisa horrvel, n, Clarisse? 
Abraaram-se mais um pouco. 
-Natinho, ningum me entende. 
-No fala assim. Vamos l para o seu quarto. 
E Natinho a ajudou caminhar at o quarto. Pegou um pano com gua e limpava os ferimentos de Clarisse. 
-Natinho, quando eu me corto eu me esqueo que  impossvel ter da vida calma e fora. No  fcil ter que ser 
forte a todo e a cada amanhecer. 
-Mas, Clarisse, voc tem que lutar. Todos ns temos nossos problemas, mas precisamos levantar a cabea e 
procurar aprender alguma coisa e melhorar nossa vida. No adianta nada se entregar. 
-Ah, Natinho, eu gostaria de ter a sua fora. 
Natinho colocou um cd no som porttil de Clarisse, penteou os seus cabelos, vestiu uma roupa mais animada. 
Clarisse at sorriu. 
-Clarisse, eu estava pensando. De quando em quando  o novo tratamento? 
-Ah, esse tratamento no est adiantando nada. 
-Ento, Clarisse, eu vou procurar um pessoal para te ajudar. Voc quer? 
O silncio imperou. 
-Clarisse, se voc no quiser eu no vou fazer nada. Depende s de voc. 
-Tudo bem, Natinho, eu aceito a sua ajuda. S no sei como vamos poder pagar. 
-Deixa isso comigo. Tenho uns amigos que tero prazer em nos ajudar. Pode ficar tranqila. O que eu preciso  da 
sua palavra em querer melhorar. 
-Natinho, voc  um anjo. Quero te ver mais vezes. Voc volta amanh? 
-Prometo que sim. 


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Quando Natinho saiu, Clarisse estava trancada em seu quarto, com seus discos e livros, mas j tinha se alimentado e 
estava melhor. Nem parecia a mesma Clarisse que ele encontrou. 
Natinho agradeceu a Deus por aquela mudana. 


Captulo 12 
ALGUMAS AVENTURAS 

Joo era um negro muito bonito. Era alto, forte e sempre bem produzido. Usava roupas caras, tinha carros novos, e 
convivia com os figures da cidade. 
Suas conquistas amorosas eram inmeras, mas algumas eram marcantes. As mulheres sempre so atradas pelo 
poder, mas no caso de Joo era o conjunto da obra. Status, dinheiro e carinho. A fama de Joo como um verdadeiro 
garanho, era espalhada. Mulheres solteiras e casadas o procuravam. 
Mas, Joo tinha o cuidado e o carter de respeitar algumas virtudes. No saa com mulher casada, mas no perdoava 
as solteiras. No aceitava sair com moas virgens. 
Era extravagante. Saa com mais de uma mulher ao mesmo tempo. Contratava festinhas particulares e realizava 
diversas fantasias que o dinheiro permitia. 
Ao mesmo tempo suas conquistas cresciam. Mulheres e moas disputavam a sua presena. E muitas vezes 
disputavam tanto que saiam no brao, comparando-se uma a outra. 
Joo, ao contrrio, no se envolvia seriamente com nenhuma delas. Sempre tinha alguma preferncia, mas no se 
completava com nenhuma, a ponto de querer um compromisso mais srio. 
Gabriela era uma delas. Era uma morena alta, corpo escultural, dezoito anos. Apaixonou-se por Joo quando o viu 
em sua festa de aniversrio. Foi amor  primeira vista. Pelo menos por parte dela. 
Estava envolvida com Joo a pouco mais de seis meses. Nos primeiros dias era muito amor. Joo se dedicou mais 
tempo para Gabriela. 
Em uma noite no apartamento de Joo, Gabriela se declarou para Joo. O tiro saiu pela culatra. Joo no queria 
envolvimento srio com nenhuma mulher e se afastou aos poucos. Mesmo assim, mantinha encontros com Gabriela, 
mas nada to srio. 
Gabriela participava das festinhas que Joo fazia. No precisava nem ser convidada que j estava l, maravilhosa, 
linda, em seus vestidos colados, com adornos de ouro, que o prprio Joo lhe havia dado. 
-Joo, eu me apaixonei por voc. No sei viver sem voc. 
Uma noite, Gabriela se revela. 
-Gabi, eu tambm te amo. 
Joo falou sem emoo, enquanto vestia suas roupas, preparando-se para mais um dia de trabalho. 
-No v embora, fique um pouco mais. Ningum sabe fazer o que voc me faz.
- exagero... -disse Joo. 
-Pode at no ser. O que voc consegue, ningum sabe fazer. 
-Deixa disso! Eu sou um cara normal. Voc  que  maravilhosa. Linda, gostosa e perfeita. Voc sabe satisfazer 
todas as minhas vontades. Voc vai arrumar um cara e ser muito feliz. 
Gabriela no queria ouvir aquilo. Queria que Joo fosse esse cara. Mas sabia que precisava ir aos poucos, 
conquistando, se aquilo fosse o que o destino houvesse preparado para ela. 
Sabia que precisava manter a calma. 
-Joo, como voc aprendeu a ser to experiente? 
-Sempre fui muito malandro. Desde cedo eu j aprontava, j comia as menininhas. Ou elas me comiam, sei l! Mas, 
uma coisa que me marcou muito e que ficou na minha cabea foi a vez que um bbado me falou, quando eu morava 
na Bahia, numa cidadezinha que nem existe no mapa. 
-O que ele falou? -perguntou Gabriela. 
-Simplesmente: "Quando voc for transar, observe estas quatro regras: no tenha medo, no preste ateno, no d 
conselhos e no pea permisso". E eu tenho tentado seguir isso. No tenho medo de enfrentar nenhuma mulher, 
nem topar qualquer desafio que ela fizer. No presto ateno em mim, nem me preocupo com resultados, fao 
primeiro para a mulher, depois para mim. No dou conselhos, porque eu acho que cada um sabe o que pode e no 
pode fazer. E fao tudo, na hora que tenho vontade, sem pedir permisso. J pensou: Amor posso beijar sua boca? 
Seria ridculo. 
-Onde mora este bbado? Tenho que agradecer a ele... -brincou Gabriela. 
-Longe, muito longe... -Joo lembrou da Bahia. H tanto tempo... 


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Gabriela lembrou-se da primeira vez. Estava linda. Sabia do seu poder de seduo. Foi fcil seduzir Joo. Ele era um 
garanho. 
A primeira transa foi apenas uma semana depois que eles se conheceram. Ela no era mais virgem, mas no era to 
experiente. 
Lembrou-se da conversa, ainda na cama. Ele s a conhecia por Gabi. 
-Qual o teu nome? 
-Gabriela. 
-Qual o teu signo? 
-Virgem. 
-Quem modelou teu rosto? 
-Meus pais. Me fizeram com tanto carinho... 
-Teu corpo  gostoso... 
-Voc tambm  o mximo... 
-Teu rosto  bonito. 
E a beijou demoradamente. Parecia que nunca haveria um fim. 
Mas houve. No um fim como nos filmes de romance. Foi um afastamento. 
Foi nessa poca que Gabriela conheceu Leila. 
Gabriela participava da gangue de Joo, mas no negociava drogas. Joo, a princpio, no permitiu que ela 
controlasse nada no Morro. Depois de algum tempo, deixou que ela fosse fazendo trabalho de suporte, 
posteriormente a contratando como auxiliar. Mas, a transferiu para o setor de Pablo. 
Leila era uma menina muito bonita, comunicativa, que rapidamente conquistou Gabriela. Fizeram uma amizade 
muito forte. No Morro, era a melhor amiga de Gabriela. 
Um ms depois, Joo ficou curioso com aquela garota que estava freqentando suas festinhas como convidada de 
Gabriela. 
-Quem  essa garota, Gabi? -perguntou Joo. 
-Ela  a Leila. Ela me disse que trabalha no Correio. 
-Ela  bonita. Vamos precisar dela para um trabalho. Ser que ela topa? -perguntou Joo. 
-Ela  legal. Compra do nosso p, mas no  viciada. Compra mais para o namorado. 
-Ela tem namorado? 
-Ela namora um menino eletricista. Esto falando em casamento, mas ela me disse que no quer se casar. 
-Por qu? 
-No tem certeza... Ainda  nova. No tem certeza de que quer viver o resto da vida com esse cara. 
-Quero conhec-la. Quero que me apresente... -pediu Joo. 
Gabriela foi at a Leila, conversou com ela e voltaram. 
-Joo, esta  a Leila. 
-Prazer, Leila, seja bem vinda -disse Joo. 
-Prazer. Obrigada. 
-O que voc faz da vida, Leila? 
-Eu trabalho no Correio. Vivo andando para cima e para baixo.
- mesmo. Qual o bairro que voc trabalha. 
-Aqui no centro mesmo. 
-Voc quer fazer um bico, aqui para gente? -perguntou Joo. 
-Um bico? O que voc quer dizer com isso? 
-Ah, sei l, gostei de voc. Depois a gente conversa melhor, falou? 
-Tudo bem. Foi um prazer. 
-Para mim tambm. Fique  vontade. Vou conversar um pouco com a Gabi. 
E, pegando no brao de Gabriela, foram para outra sala. 
-Gabriela, depois eu falo o que pretendo. Por enquanto, quero que voc converse com a Leila e a deixe  vontade. 
Quero contratar ela e o namorado. Pea que os dois venham amanh  tarde, aqui no Morro. Pode ser? 
-Claro, Joo. Voc no quer me falar o que pretende? 
-Ainda no. Depois eu lhe falo. No  nada de mais. Fica tranqila. Se so seus amigos, tambm so meus amigos.
-Ah, Joo, voc  demais.  por isso que eu te amo... -falou Gabriela, abraando-o. 
-Eu tambm, Gabi. 
E saiu. 
Gabriela encontrou-se com Leila e ficaram conversando. 
-Leila, se o Joo gostou de voc  bom sinal. Ele ajuda a todo mundo de quem ele gosta. Voc vai ver. 


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-E por qu ele quer ver o Alex? 
-Sei l. Vocs no esto namorando? Ele quer ajudar os dois. 
-Ah, tudo bem. Amanh a gente v o que ele pretende. 
Joo, sabendo que os dois usavam drogas, usou o pretexto de venderem o produto entre os seus colegas, e com isso 
ganhariam algum dinheiro. Facilitou bastante as coisas para eles. 
Ningum entendia a bondade de Joo com os dois, mas Joo estava planejando algo bem grande. Joo estava 
planejando o roubo na fbrica que ficava na rua em que Gabriela trabalhava. Isso bastava. 
Mas, Joo s conversava sobre o roubo com quem estava por dentro dos planos. A princpio precisava confiar nos 
dois para ver at onde poderia us-los. 
Joo tinha concordado com o roubo  Fbrica com alguma relutncia. Seus amigos o convenceram. 
-Joo, o que voc sente no  nada perto da emoo de um roubo desse tamanho -diziam seus amigos. 
Nenhum dos quatro amigos de Joo precisaria roubar a Fbrica. A emoo, o prazer da aventura era que os estava 
fazendo agir daquela forma. Eles j tinham dinheiro, tinham pais ricos, usavam drogas  vontade, mas, depois que 
souberam o que aconteceria naquela fbrica, resolveram se dar bem para o resto da vida. 
Um dos rapazes era amigo do filho do dono da Fbrica, que era um poltico muito influente na cidade. Em uma noite 
de bebidas e drogas, o rapaz acabou entregando todo o esquema. Ele havia dado todos os detalhes. Haveria um 
grande pagamento envolvendo alguns milhes de dlares. O dinheiro ficaria na Fbrica apenas uma noite, at a 
manh seguinte, quando seguiria de avio para outro pas. 
O negcio estava envolvendo alguns polticos desonestos. Nenhum deles poderia fazer movimentao do dinheiro 
diretamente no Brasil. 
-Joo, com o seu poder, com a sua estrutura, vai dar para fazer tudo direitinho. Vamos fazer um roubo bem feito. 
-Mas eu nunca fiz isso. No, nessa proporo. E eu estou muito bem da forma que estou -respondeu Joo. 
-Parece que voc est com medo. Lembre-se, Joo: A primeira vez  sempre a ltima chance. 
Joo no tinha nada a perder mesmo. Com a sua influncia poderia fazer o que queria. E seus melhores amigos, os 
rapazes mais ricos da regio, estavam envolvidos, por qu ele no participaria? 
Depois de certo tempo, ele resolveu participar: 
-Vamos l, tudo bem, eu s quero me divertir... 
A preparao do plano foi toda feita no Morro. Joo acionou as pessoas que podiam ajud-lo no sucesso do roubo. 
Dois policiais, Pablo, cinco membros de sua gangue, e os quatro rapazes que estavam j envolvidos. 
Leila ajudou Joo conseguindo informaes sobre a vigilncia da Fbrica. Ela chegava com sua simpatia e 
conversava bastante com o pessoal que trabalhava na portaria da Fbrica. Como funcionria do Correio, aquilo foi 
bem fcil. Ela conseguiu informaes importantes. 
Alex, seu namorado, faria parte da turma que entraria no assalto. Como ele era eletricista, seria o responsvel pela 
parte eltrica, como desligar alarmes, etc. 
Fernando e Gabriel seriam os motoristas. Eram os melhores pilotos que Joo tinha e eram de total confiana. 
Jaime e Marcos fariam parte da turma barra pesada. Eram pessoas que j haviam participado de diversas manobras 
do trfico do Morro. Eram pessoas inteligentes que saberiam agir em caso de necessidade. 
Os amigos de Joo, os quatro, seriam participantes diretos, sendo da linha de frente. Era o prazer, no o dinheiro, 
que os incentivava. 
Na vspera do roubo, se reuniram para ver os ltimos detalhes. 
Todos os que iriam participar do roubo estavam presentes. Inclusive Henrique. 
-Pessoal, este aqui  Henrique, que vai trabalhar no roubo da Fbrica. Ele  segurana e vai trabalhar na noite que 
formos entrar no prdio. 
Todos olharam para Henrique e ficaram satisfeitos em saber que algum da segurana estava participando do roubo. 
Ficaram mais confiantes. 
-Quem guarda os portes da Fbrica? -perguntou Joo. 
-H dois seguranas sempre -explicou Henrique. -Trocam de turno a cada seis horas. Amanh, eles mudaro de 
turno de quatro em quatro horas. Exatamente  meia-noite haver uma troca. Eu entro neste horrio e acho que  a 
que devemos agir. 
E ficaram passando todos os papis, quem deveria fazer o qu. Aps a reunio, houve uma oferta de bebidas e 
drogas, por conta de Joo. 
J estavam comemorando h quase uma hora, quando Cludio, um dos seus amigos ricos, ofereceu herona para 
Joo: 
-Joo, voc j usou isto? -e mostrou o material. 
-Herona? No. Estou satisfeito com meu p... 
-Ento voc no conhece nada. Quem nunca usou herona no sabe o que  voar... 


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-Eu j vo muito com meu produto. 
-Se voc quiser, tenho mais aqui. D para dividir. -ofereceu Cludio. 
Joo j estava meio bbado, e o efeito do p j estava passando. A vontade de usar a maldita herona era imensa. 
Ainda mais quando ele viu que Cludio iria usar. 
-Tudo bem, vamos l. 
Joo voou. No sabia que o efeito da herona era to bom. Como aquilo o satisfazia! Foi a sua primeira, de muitas 
vezes. 
No outro dia, perto da meia-noite j estavam se preparando para atacar. Tudo aconteceu como combinado. 
Alguns dos rapazes pegaram Henrique perto de sua casa. Como era habitual, Henrique ficou de passar na casa de 
Joo Luiz, que iria trabalhar com ele naquele perodo, e iriam a p para o trabalho. Joo Luiz morava perto da 
Fbrica e ia andando para o trabalho. 
Devido aos assaltos que ocorriam, eles sempre andavam juntos. Tanto na entrada quanto na sada do trabalho. 
S que nesse dia, quando iam passando por uma esquina, os rapazes atacaram-nos, acertando principalmente Joo 
Luiz, que desmaiou e foi carregado para um carro. Marcos iria substitu-lo no planto.
 meia-noite houve a troca de segurana. Jorge e Marcos substituram os seguranas que estavam saindo. 
Um dos seguranas desconfiou e perguntou: 
-Voc  novo? No te conheo! 
-Oi, eu sou o Marcos. Trabalho na outra filial, mas me transferiram para c, hoje. Acho que  por pouco tempo. 
-Prazer. Seja bem-vindo -falou o segurana, saindo. 
Assim que os dois seguranas foram embora, o plano comeou. Houve a chegada dos carros com o restante do 
pessoal. Alex desligou todos os alarmes. Os rapazes entraram pela porta que havia sido aberta por Jorge e no deram 
chance ao restante dos seguranas de se defenderem. Todos os seguranas que trabalhavam internamente foram 
surpreendidos e amarrados. Apenas um deles reagiu e foi morto no local. 
Tudo corria bem, quando escutaram o barulho de carros do lado de fora. Houve tiroteio e um anncio: 
-Saiam com as mos para cima. Vocs esto cercados. 
Era a polcia. Algo havia dado errado. O que seria? 
Tentaram por meia hora uma negociao, tendo os vigilantes como refns, mas no adiantou. Eles no eram ladres 
profissionais para negociarem com a polcia. Renderam-se. 
Todos foram presos. 


Captulo 13PRIMEIRA VEZ NO INFERNO -A PRISO 

Joo no entendia o que havia dado errado. 
-O que deu errado? Onde vazou? -perguntava Joo, para Cludio e Marcos, que iam no mesmo carro que ele. 
-Algum nos dedurou... -falou Cludio, tambm sem entender. 
Eles no sabiam, mas o segurana que havia sado, suspeitou do novo vigilante e acionou a polcia, quando chegou 
em casa. Era s uma suspeita, mas que resultou na priso de todos os envolvidos. 
O seu camburo chegou  delegacia. Com muita brutalidade, Joo foi fichado e levado para uma cela. Ningum 
conhecia Joo naquele meio. Trataram como um criminoso normal. No o reconheceram como o poderoso 
traficante, o todo-poderoso de Braslia. 
Foi colocado em uma cela, onde passou todo o tipo de humilhao. A princpio apanhou tanto que pensou que ia 
morrer. Todos os presos antigos o humilharam. Faziam-no ajoelhar, davam tapas na sua cara, chutes em sua barriga. 
Quase sem foras, ainda foi estuprado. Era a violncia que ele no conhecia. Ouvia falar, sabia que existia, mas no 
conhecia. 
Dois dias depois ainda estava em estado de choque pelo que tinha passado. 
S com a visita de seu advogado foi que souberam quem era Joo de Santo Cristo. Uma parte da cela simpatizou 
com Joo e outra parte no gostava, devido a algum problema que eles j haviam tido no passado. 
Os advogados de Joo tentavam a todo custo tirar Joo da priso, mas estava difcil, j que a repercusso do roubo 
junto  mdia fora enorme. A notcia se espalhou como uma bomba no meio social. Diversos rapazes, ricos e de boa 
famlia haviam sido presos por roubo a uma fbrica. 
E nem se noticiou o que havia de to importante na fbrica. A mdia falava de um roubo a fbrica de determinado 
poltico, mas no especificava o que havia sido roubado, quanto havia de dinheiro no prdio, nem dava maiores
detalhes.  claro que os polticos manipularam as notcias. 
Essa agonia durou quase um ms. 


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Joo passou vinte e nove dias na priso. 
Joo voltou humilhado para o Morro. Pablo ainda estava preso e o comrcio havia parado. Todo o sistema de trfico 
havia sido prejudicado devido a Joo e Pablo terem se afastado. Alguns funcionrios ficaram receosos de que a 
polcia iria estourar o Morro, mas Natinho, assim que soube da priso, mandou limpar completamente o prdio. 
Natinho telefonou aos advogados, fez os contatos com outros estados e deixou tudo parado at que fossem libertados 
os seus amigos, o que ele esperava acontecer nos prximos dias. 
Pablo foi libertado um dia aps Joo. Um ms afastados fez com que Joo e Pablo repensassem o modo como 
viviam. 
Pablo se enclausurou. Parou de freqentar as festinhas que aconteciam, e recusava a todos os convites que faziam. 
Joo, ao contrrio, se revoltou. Queria matar a todos os que fizeram sua humilhao no presdio. 
Natinho, que agora ficava ainda mais perto de Joo, tentava amenizar o dio que Joo sentia. 
-Joo, no vai adiantar nada. Voc no vai conseguir voltar ao passado e curar as feridas. 
-Mas vou fazer com que esses desgraados no faam isso novamente com outros coitados. 
-Voc precisa se acalmar... -falava Natinho. 
-Acalmar? Voc vai ver o que  se acalmar... No estou preocupado com o que eles fizeram com meu corpo. Voc 
acha que est doendo, que ficou marcas? Natinho,  uma dor que di no peito, di no corao. 
E deu ordens: 
-Natinho, quero saber quem estava naquela cela. Quero saber quem est do meu lado e quem est do outro lado. E 
quero o mais rpido possvel. 
-Tudo bem, Joo, eu vou conseguir para voc, fica tranqilo. 
Joo sorriu. J sabia o que iria fazer. 
Desceu ao escritrio de Pablo. 
-Pablo, como esto os negcios? 
-Sei l, Joo. S tem cinco dias que a gente saiu de l. Parece que o mundo deu uma guinada, perdemos alguns 
pontos, alguns que se diziam amigos fugiram, funcionrios nos abandonaram. Est meio bagunado. 
-E voc, Pablo? -perguntou Joo. 
-Eu... Sei l... Tem hora que quero abandonar tudo e ir embora, tem hora que quero vingana... Ainda estou 
confuso... 
-Pablo, eu vou aprontar para cima dos caras. Vamos? 
-Ah, Joo. Eu estou fora. Faz o que voc quiser, onde eu puder ajudar eu lhe ajudo, mas eu no vou sair dessa sala 
para fazer nada... 
Joo deu a volta na mesa, pegou na mo de Pablo e disse: 
-Pablo, voc est conhecendo um outro Joo. A partir de agora eu sou outra pessoa e vou fazer de tudo o que for 
possvel para me vingar daqueles safados. A primeira coisa que quero que faa  conseguir engrenar o Morro, 
novamente. Faa esta empresa funcionar. 
-Quanto a isso, Joo, deixa comigo. Vamos ser maiores do que ramos. 
E voltaram ao negcio. Pablo tomou as providncias necessrias para normalizarem as atividades do trfico. 
Os jornais, a partir deste dia e durante uns dois meses anunciavam em manchete uma srie de crimes que estava 
acontecendo contra alguns bandidos da cidade. 
S quem era mais chegado sabia que era Joo que estava se vingando. Um a um, aqueles que o humilharam na 
priso, estava morrendo. E Joo fazia o servio pessoalmente, dando o ltimo tiro, em muitos casos. 
Natinho virou o brao direito de Joo, mas no concordava nem participava dos crimes que Joo andava fazendo. 
Quando Joo saiu da priso, refez seu grupo, agora mais bem armado e com pessoas diferentes. Alex comeou a 
participar mais ativamente do grupo. Leila e Alex acabaram o namoro, devido  srie de problemas que eles j 
vinham tendo e por ela no aceitar a participao no novo grupo de Joo. Sabia que eles partiriam para uma 
violncia maior do que estavam acostumados. E isso poderia ter conseqncias desastrosas. Alis, o namoro j no 
estava to legal, mesmo. 
Gabriela no mais se encontrava com Joo. Fez, com Leila, uma amizade enorme. Aonde uma ia, a outra estava 
tambm. 
-Gabi, voc est to triste -comentou Leila. 
Estavam no Parque da Cidade, vendo os pssaros, e sentindo o sol bater em suas peles, mesmo com o frio que fazia. 
-Sei l... Estou me sentindo to sozinha... -disse Gabriela. 
-Isso  paixo, Gabi -brincou Leila. -Sabe, eu fico pensando de vez em quando. Se um dia eu for rica, quero fazer 
que nem essas dondocas que existem por a. Ir pegar os filhotes na escola. Ouvir Coltrane. 
-Fumar unzinho!?! -riu Gabriela. 
-Claro! Isso no pode faltar. O que voc acha? 


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-Voc sabe que eu no fao mais isso, mas entendo muito bem... Acho que  um sonho secreto de todo mundo. 
Nunca pensei nisso. Nunca sonhei com esta liberdade. 
Gabriela lembrou-se de Joo, do tempo que ele dava todo o seu amor para ela. Lembrou-se do tempo que tinha s 
um pouco de Joo, mas era melhor do que agora, que no tinha mais nada. Depois que Joo se envolveu com a sua 
vingana, no ligava mais para ela. 
-Por qu voc ficou triste, Gabi? -perguntou Leila, vendo a mudana da amiga. 
-Ah... Nada no... Lembrei de bobagens... Do passado... 
-Do Joo? 
O silncio de Gabriela falava por ela. 
-Adoro seus cabelos... -diz Leila, fazendo carinho em seus cabelos. -Adoro a tua voz. Por qu ser que voc no d 
sorte com nenhum cara? 
-Sei l, devo estar agindo errado.
-s vezes as coisas so difceis, minha amiga... 
-Eu sei, Leila, eu sei... 
-Sabe, Gabi, acho que eu preciso de um homem... 
-Ah, Leila, eu tambm! 
E ficaram rindo do que falaram. 
Enquanto isso, Joo conversava com Natinho, em sua casa. Eram quatro horas da tarde. 
-Natinho, esses seus amigos vm? -perguntou Joo. 
-Ficaram de vir, Joo. Voc vai conhecer pessoas maravilhosas, voc vai ver. 
-S vou conversar com eles porque so seus amigos, seno, voc sabe, esses negcios de compra e venda  l com o 
Pablo. 
-Eu sei, Joo, mas o que lhe custa conversar com os caras. 
Eduardo e Mnica ficaram de visitar Joo, a fim de comprar uma casa. Joo e Pablo tinham bastante imveis, alguns 
comprados e outros recebidos como pagamento do trfico. Natinho era muito amigo do casal e fazia questo que 
Joo os conhecesse. Sabia que, para efetuar o negcio, nem precisaria da presena de Joo, mas achava que os dois 
eram uma boa influncia na vida de Joo, que estava muito violento, ultimamente.
s quatro e dez o casal chegou. Natinho os recebeu e os apresentou a Joo. 
-Joo, esse  o Eduardo, meu amigo que lhe falei. E esta  a Mnica, esposa de Eduardo. 
-Oi, muito prazer. Como esto? -Joo os cumprimentou, cortesmente. 
-Tudo bem, Joo? Natinho nos fala bastante de voc, e ficamos muito curiosos em lhe conhecer -falou Eduardo. 
-Espero que esteja falando bem... -brincou Joo. 
-Claro -falou Mnica. -Se voc soubesse como ele idolatra voc... Parece que o considera mais que o pai dele. 
-Nem tanto -falou Natinho. 
Conversaram sobre diversas coisas at que Joo puxou o assunto. 
-Eduardo, o Natinho falou que voc est interessado em comprar uma casa. 
-Pois , Joo, ele estava falando que voc tem alguns imveis para venda, e ns aproveitamos esta desculpa para te 
conhecer. 
-Voc queria uma casa em que bairro? -perguntou Joo. 
-Na verdade, eu e a Mnica estamos montando um consultrio. Uma coisa pequena, mas que tivesse a nossa cara. 
No sei se voc sabe, mas ela  mdica e eu sou psiclogo. Resolvemos fazer um trabalho em conjunto, cada um 
saindo de seu emprego atual. J estamos planejando isso h um tempo e s agora conseguimos juntar algum 
dinheiro para realizar. Ns queramos trabalhar aqui perto, voc tem alguma coisa? 
-Tenho um ponto aqui perto que cairia como uma luva para uma clnica. 
E ficaram conversando sobre a localizao do ponto, o que poderiam fazer, valores, etc. At que Eduardo resolveu 
comprar o prdio. Estava tudo acertado. 
-Joo, voc  muito simptico. Gostei bastante de voc. Agora sei porque o Natinho vive falando seu nome -disse 
Eduardo. 
-Natinho fala demais -brincou Joo. -Mas o Natinho  meu melhor amigo. Gosto muito dele tambm. 
E abraou Natinho, levantando-o no ar. Joo era bastante forte e Natinho bem menor e mais magro. Sofreu nos 
braos de Joo. 
-E vocs, esto casados h muito tempo? -perguntou Joo. 
-J! Faz mais de dez anos que a gente mora junto. 
-Tem filhos? 
-Temos gmeos. J tem nove anos. Dois meninos maravilhosos. E voc Joo,  casado? 
-Ainda no. Ainda no achei quem me tolere... -brincou. 


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-Que  isso... Mulher chove nos ps desse cara... Ele que  duro e no quer ningum -disse Natinho. - um 
garanho! 
Joo sorriu. 
-Mas estou esperando aquela que vai me prender. Dizem que todo sapo tem sua sapa. 
-Ah, ah, ah... No seu caso seria o qu? Uma sapa linda? -falou Mnica. 
-Deixa disso... Estou com cimes... -brincou Eduardo. -Mudando de assunto, vocs viram que chato aconteceu 
com o Johnny? 
-Muito chato. A gente tava l, na hora do acidente, no  Joo? -falou Natinho.
-... Foi muito chato mesmo... O cara era muito legal, eu gostava para caramba dele. 
-E a L, hein? -falou Mnica. -Estava com aquele segredo o tempo todo. Eu no sabia de nada. E olha que eu 
conversei bastante com ela e ela no me disse nada... 
-Acho que ela deveria ter falado com o Johnny. O Johnny era legal e iria entender. Acho que perdemos dois amigos 
por falta de dilogo. 
-Depresso  duro, gente -falou Natinho. -Eu tive uma crise no ano passado que eu vou falar para vocs, s quem 
passa sabe o que pensa. Eu s pensava em tirar minha vida. Achava que isso resolveria os problemas. 
-Mas no adianta -falou Joo. -O suicdio no resolve nada. 
-Ainda estou com medo da Clarisse. Ela estava to mal -falou Mnica. 
-Voc encontrou com ela esta semana? -perguntou Natinho. 
-Esta semana, no. A ltima vez que a vi foi na poca do acidente. 
-Ah, ento voc vai ter uma surpresa... -falou Natinho. -Ela melhorou bastante. Conseguimos, eu e o Joo, levantar 
sua moral. 
-Eu? -perguntou Joo, surpreso. 
-Voc est pagando o tratamento dela naquela clnica, voc esqueceu? 
-Ah,  mesmo... Eu no sabia que era para ela... 
-E como voc conheceu a Mnica -perguntou Joo, de surpresa para Eduardo. 
-Ah, faz tanto tempo -falou Eduardo. -Parece que foi numa festa... Como foi, Mnica? 
-Esqueceu? Foi naquela festa do Jaiminho...
- mesmo! Fiz de tudo para chamar a ateno da Mnica. 
-A gente tinha tanta coisa diferente e acabou dando tudo certo. 
-Joo, essa menina me ensinou quase tudo o que eu sei -falou Eduardo, abraando Mnica. -Quando nos 
conhecemos ela era bem mais esperta que eu. Eu era um moleco. Ela  mais velha que eu. Se formou primeiro, j 
andava e eu engatinhava.
-Que engraado...  mesmo? -perguntou Joo. 
-Se ? Ela fazia muitos planos, e eu s queria estar ali, sempre ao lado dela. Fui aprendendo os macetes da vida. A 
gente fez muita coisa juntos. 
-Evolumos... -brincou Mnica. 
-J tivemos bastante aventuras. Viajamos, fizemos cursos, um monte de coisa. Voc viaja muito, Joo? 
Joo parou e percebeu que no viajava, mesmo tendo condio. 
-No, Eduardo, eu quase no viajo. 
-Voc precisa viajar. Voc precisa conhecer o Brasil. Tem cada lugar incrvel. Nossas praias, montanhas, vales. O 
Brasil tem tanta diverso. J fizemos tanta coisa. Voamos em balo, de asa delta, at descemos corredeiras de 
caiaque. 
-Conta daquela vez que pulamos de Bungee Jump... -falou Mnica. 
-Foi l no Cear. Ela insistia que eu pulasse e eu insistia que ela pulasse. A ela disse: "Voc tem medo!" e eu disse: 
"Quem tem medo  voc!". Ficamos nesse empurra-empurra e o cara nos convenceu a pularmos juntos. Pulamos. 
Quando a gente foi conversar... 
-...Os dois estavam morrendo de medo... -completou Mnica. 
-As minhas diverses eram diferentes -falou Joo. -Sempre fui beberro, briguento e curtia outras coisas. Se fosse 
lembrar do passado s podia lembrar da primeira vez que briguei, da primeira vez que bebi, etc. 
-E como foi a primeira vez que bebeu? -perguntou Eduardo. 
-Ih... Aquele gosto amargo ficou na minha boca por mais tempo do que eu gostaria... Foi terrvel... -e todos riram. 
-E vocs vo viajar este ano? -perguntou Natinho a Eduardo e Mnica. 
-Este ano, no. O nosso filhinho est de recuperao e ns no poderemos... J pensou no que  uma famlia? 
E todos riram. 
-Eduardo, vamos embora? -perguntou a Mnica. 
-Ainda  cedo! -falou Joo. -Gostei muito de vocs. 


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- que a gente ficou de ir no cinema -falou Mnica. -Que horas so, Edu? 
-J so quase nove. Nossa! Como o tempo passou rpido! 
-Vamos perder o filme... 
-Calma. A gente chega na sesso das dez... 
-Est cedo ainda... 
-Est nada, Joo. 
-Ento apaream mais vezes. A gente precisa se conhecer mais... 
-Tudo bem! 
-Ento voc vem no dia que marcamos com o Pablo para acertarmos tudo sobre a casa, ok? 
-Ok, Joo. 
E despediram-se. 
-Natinho, que pessoas legais. Se voc tiver mais amigos assim, eu quero conhecer. Parece que a gente nem vive do 
modo que vive. So to alegres, n? 
-E como so, Joo. Mas todos ns podemos ser assim, basta a gente procurar... 
-Tenho algumas coisas a fazer, Natinho, mas, neste vero ns vamos viajar. Vamos para uma praia na Bahia. Que 
tal Porto Seguro? 
-No conheo Porto Seguro... 
-Ento vamos ns dois... Neste vero ns vamos para Porto Seguro. 


Captulo 14 
TEMIDO E DESTEMIDO 

Ainda naquela noite. 
-Natinho, chama o pessoal que temos uns negcios a acertar. 
-Quem, Joo? 
-Chama os quatro. O Alex, o Rodrigo, o China e o Mundo. Chame eles porque hoje quero dar uma supervisionada 
no servio dos pontos. Depois da priso, deu uma diminuda. Quero animar o pessoal. 
"Os quatro" era como Joo se referia ao seu grupo predileto. Eram pessoas de sua confiana, fortes e que no tinham 
medo de nada. Eram corajosos a ponto de obedecer cegamente a uma ordem de Joo. Cada um deles j tinha alguma 
morte no currculo. 
Meia hora depois estavam na rua. O primeiro ponto estava correto. O pessoal atento, sem usar drogas, como Joo 
mandava. S usassem mais tarde, quando fossem parar o movimento. 
Joo inspecionou um a um os pontos de venda de drogas que ele mantinha na regio. Em dois pontos ele teve 
problemas. 
Em um dos pontos Joo parou um pouco afastado do local e percebeu que tinha gente suspeita rondando o 
movimento. Demorou um pouco e mandou o China comprar alguma coisa do cara. 
China foi, como se fosse um viciado. 
Joo viu o China encostar no cara, conversar alguma coisa e voltar para o carro. Entrou no carro e mostrou ao Joo 
que algum estava passando drogas no ponto de Joo. 
Vamos pegar aquele rapaz. China voltou para conversar com o cara, enquanto o carro era ligado e encostava-se a 
ele. Rapidamente, o rapaz foi jogado dentro do carro. Levaram-no para um campo abandonado, onde era comum o 
encontro de traficantes e seus clientes. 
-Qual o seu nome, rapaz?
-Esdras -falou o rapaz, preocupado. -O que vocs querem?  assalto? Toma o dinheiro... 
-Que assalto, cara! Quem te mandou vender droga ali, no meu ponto? -perguntou Joo. 
O rapaz entendeu onde havia entrado. 
-Olha, cara, foi s hoje. Eu estava de bobeira e precisava vender alguma coisa para poder usar. 
-Eu acho que voc est mentindo. 
Joo deu um murro no estmago do rapaz que caiu no cho, gemendo. 
-Acho melhor voc falar a verdade, seno voc no sai daqui vivo... 
O rapaz percebeu que no tinha muita coisa a fazer. 
-Eu recebi o produto de uns amigos. Eu vim do Rio de Janeiro. Um pessoal me trouxe aqui e foi embora. Eu devia 
um dinheiro para eles l no Rio e eles me trouxeram para c, para vender para eles, at pagar a conta. 
-E quem mais veio com voc? 


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-S mais um cara. Eu nem conheo. Est l na outra rua. Daqui a pouco a gente vai embora. Estamos morando 
juntos. 
Joo se preocupou. 
Deixou Alex e Rodrigo no campinho e foram atrs do outro. 
Levaram o rapaz no carro at onde ele disse que estava o outro rapaz. Se no fosse verdade, o matariam ali mesmo. 
Era verdade. L estava o outro cara, perto de outro ponto de venda. Da mesma forma, empurraram-no para dentro do 
carro o levaram para o campinho. 
-O que voc estava fazendo ali, meu chapa? O que voc estava fazendo no meu ponto? -gritou Joo. 
-Pode falar, que o seu amigo j se abriu -disse China. 
O rapaz percebeu que estava em perigo. Quando ia falar, Alex deu um murro em seu rosto. Joo segurou Alex e 
mandou ele ficar quieto. 
-Esse safado... -disse Alex. 
Joo ficou surpreso com Alex. Nunca era to violento espontaneamente. Sempre esperava ordens, mas, hoje, estava 
tomando a liderana. 
-Fica quieto, Alex -falou Joo. E virando-se para o rapaz: -Fala, cara, se no quiser coisa pior. 
E o rapaz falou a mesma coisa. Era mandado do Rio de Janeiro. 
-Escuta, rapaz -gritou Joo, para Esdras. -Voc vai voltar para o Rio de Janeiro e dar um aviso aos seus amigos. 
Virou para o segundo rapaz, e, a sangue frio, deu um tiro na testa dele, que caiu morto instantaneamente. 
-Volta l, e fala para esses caras para que eles no apaream mais por aqui, seno a coisa vai ficar feia para o lado 
deles. Eu no quero ver a sua cara nem a de nenhum amigo seu por aqui. Entendeu? 
O rapaz estava em estado de choque. 
-Entendi... Entendi... 
E saiu em desabalada carreira. 
Joo no sabia que teria problemas terrveis no futuro. Ah, se ele tivesse bola de cristal... 
No outro dia ele falou com Pablo. 
-Pablo, quero que voc observe o que est acontecendo. Ontem  noite tive que tomar as providncias de expulsar 
dois caras do ponto nove. Estou achando que algum est tentando entrar no nosso comrcio. 
-Joo, foi voc quem matou aquele cara do campinho? 
-Foi, sim. Quem te falou? 
-O pessoal de l. No entendi nada, mas agora estou compreendendo. 
-Pablo, tinham dois caras vendendo drogas no nosso ponto. Eu matei um e mandei o outro dar o recado de que aqui 
quem manda  a gente. Mas, eu no sei quem so os chefes deles. Parece que eles estavam s de olho como funciona 


o nosso esquema. 
-Vou ficar de olho, Joo. Deixa comigo. 
-Ah. Na prxima semana vou passar uns quinze dias em Porto Seguro, na Bahia. Eu iria s daqui a um ms, mas 
resolvi ir logo. Voc fica de olho se aparece alguma novidade e me telefona, caso encontre algum suspeito. Voc 
sabe que eu volto aqui na hora, e arraso com qualquer um que queira se intrometer. 
-Eu sei, Joo. S no sei se esse  o mtodo certo, entendeu? 
-O qu? Violncia? A violncia  to fascinante... 
-Joo, cuidado, voc no pode ser to violento... 
Joo no ligou para o que Pablo disse e saiu. Estava preocupado com quem eram os chefes dos rapazes, mas achava 
que com a morte de um e a expulso do outro o assunto seria encerrado. 
Encontrou-se com Natinho. 
-Natinho, providencie o que for necessrio para passarmos uns quinze dias em Porto Seguro.Leve meu carro para 
um check-up, pois vamos nele. Providencie todas as reservas e o que for necessrio. Vamos ver se viajar  bom 
mesmo. 
-Ok, Joo. Quem mais vai com a gente? 
-Ningum. Vamos s ns dois. L no vai faltar companhia. J escutei muita coisa desse lugar. 
-Falou, Joo. Vou falar com o Eduardo para ver se eles nos indicam alguma coisa. 
Uma semana depois estavam em Porto Seguro. 
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Captulo 15A VERDADEIRA PAIXO 

Em Porto Seguro deu tudo certo. Com as dicas de Eduardo tudo foi melhor. Em primeiro lugar ele mandou os 
rapazes ficarem no Arraial d'Ajuda, onde o ndice de drogas e mulheres era muito maior do que Porto Seguro. 
Eduardo disse: "A juventude fica no Arraial. Os velhos em Porto Seguro.E realmente era verdade. 
-Natinho -disse Joo, de papo para o ar, na praia. -Eu sou um pssaro. Me trancam na gaiola. Aqui, no! Aqui 
estou livre. Que delcia! 
-No te falei que voc ia gostar? 
-Estava precisando disso. Nada como umas frias. Voc viu como aqui tem mulher bonita? 
-E no estamos nem na temporada. 
-Rapaz, quanta bunda!!! 
E Joo ficava admirando o que ele mais gostava: mulheres. No final da primeira semana, Joo e Natinho j 
conheciam todos os macetes do Arraial d'Ajuda. Sabia que na Broduei, a rua dos bares, era fcil encontrar um 
baseado. Depois, a caa s garotas acontecia entre a Broduei e o Shopping, um pequeno comrcio do local, onde 
havia uma srie de bares. Joo rodava entre os bares at encontrar a garota que ele queria. Era um garanho. 
Chegava a namorar at trs garotas em uma noite. 
Natinho ficava mais tranqilo, apenas acompanhando Joo nos baseados e na bebida. Na hora da caa, cada um por 
si, mas Natinho era tmido e ficava na dele. 
-Vamos l, Natinho, tanta mulher e voc a, devagar para caramba... -dizia Joo, brincando com Natinho. 
-Deixa para l, Joo, na hora certa a minha princesa vai aparecer -se desculpava Natinho.
 tarde, Joo gostava de ir para a Barraca do Parracho. Era a barraca de praia mais movimentada do Arraial. L, 
escolhia sua mesa e descia bebida, tanto para ele quanto para os amigos nativos. Em poucos dias Joo j tinha uma 
amizade muito grande. 
Mas, naquele domingo, tudo mudou. Joo estava h pouco mais de meia hora na praia. J passava das trs horas 
quando apareceu aquela morena. Cabelos longos, corpo escultural, olhos verdes. Era uma mulher linda, que se 
destacava muito das outras, parecendo ter um brilho diferente de tanta beleza. 
Ela chegou, escolheu uma mesa afastada a trs mesas de Joo, colocou sua bolsa na mesa, tirou os culos escuros, 
balanou a cabea, arrumando os cabelos. De costas para Joo, levantou a sua camiseta, lentamente, tirando-a. 
Ainda de costas, abaixou lentamente sua saia, revelando um pouco mais de sua beleza. 
Joo parecia hipnotizado por aquela mulher. Bronzeada, parecia uma deusa. Viu quando ela estendeu uma toalha 
sobre a cadeira de sol e se deitou, de bruos. Joo no percebia malcia naquela mulher, era uma coisa natural. 
Joo tremeu na base. Nunca houve uma mulher que Joo no conseguisse conquistar, mas essa mulher era especial. 
Precisava preparar alguma coisa a mais, porque ela merecia. 
Pensou em como se aproximar. Aps alguns minutos que ela estava em sua cadeira viu quando outro rapaz se 
aproximou, puxando conversa. A mulher tinha o sorriso mais lindo que ele j vira. Mas, estava acompanhada. 
Joo percebeu que no teria chance, at que o rapaz levantou-se e saiu. A mulher continuava natural, com seu rosto 
demonstrando muita calma, sem aborrecimentos. Era sinal que conhecia o rapaz que havia se aproximado. 
Joo se levantou e sentou-se na cadeira ao lado dela. 
-Oi -falou Joo. 
-Oi -ela respondeu. 
Joo engoliu seco. Que voz maravilhosa. 
-Venho todos os dias aqui e nunca te vi. Quando voc chegou? 
-Cheguei hoje -ela respondeu. 
"Ela parece no querer conversa", pensou Joo, "mas porque est sorrindo?" 
-Voc  de onde? 
Ela ficou sria por um instante. 
-Qual o seu nome? -ela perguntou. 
-Joo. Joo de Santo Cristo. 
-Eu sou Maria Lcia. Voc  de que estado? 
-Eu sou de Braslia... E voc... -Joo parecia um boneco nas mos de Maria Lcia. 
-Que coincidncia. Eu sou de Gois... 
Maria Lcia voltou a sorrir. E Joo voltou a dominar. 
-Voc est to... bronzeada... Voc chegou hoje?
- que estava h dez dias em Morro de So Paulo. Conhece? 
-No... Ainda no... -respondeu Joo, perdendo o domnio, novamente. 


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-Voc est de frias? 
-Mais ou menos. Tenho um comrcio prprio e resolvi passear por uns dias -Joo resolveu esnobar um pouco. Sabe 
como , n, devemos gastar um pouco, de vez em quando, e no s ganhar... N? 
Maria Lcia voltou a ficar sria. No respondeu a Joo. Joo percebeu que aquele tipo de demonstrao de poder 
no a conquistaria. 
De repente, o rapaz que cantava na barraca comea a tocar uma msica famosa, que fala das areias de Itapo. Joo 
percebeu que Maria Lcia prestou mais ateno  msica. 
-Que msica linda, no? -perguntou Joo. 
-Linda... D vontade de voar... 
Falou assim e parecia indefesa. Joo neste momento queria t-la nos braos, apert-la e proteg-la. Joo olhou para 
Maria Lcia e no soube reagir. 
-Voc  to diferente -Joo falou. 
-Diferente? Como? 
-Eu no sei... Eu me sinto to bem ao seu lado... Parece que te conheo a tanto tempo, mas ao mesmo tempo no sei 
nem ao menos reagir ao seu encanto. 
Maria Lcia sorriu. Um sorriso sedutor, que faria qualquer homem se entregar completamente. 
-Olha, Joo, eu digo o mesmo. Parece que te conheo de algum lugar. O que voc faz em Braslia. No me diga que 
 Deputado? -brincou. 
-Tenho uma empresa. E uma srie de imveis. Na verdade, sou scio de um amigo, inclusive ele est no controle 
dos negcios, agora, enquanto estou aqui, de papo para o ar. 
Maria Lcia ficou novamente sria. Joo notou que no a conquistara, como achava, a poucos instantes. 
-Mas  por pouco tempo... -emendou Joo. -Preciso voltar para fazer a minha parte. 
Notou que Maria Lcia ficou impaciente. Estava comeando o ax. 
-Joo, vamos danar? Voc curte ax? 
-Nunca gostei... Quem sabe hoje eu no aprenda o que  gostar, de verdade... 
E foram. No palco montado na barraca comearam um srie de apresentaes de danarinos de ax e de outros 
ritmos do vero. Joo ficou ao lado de Maria Lcia balanando-se ao ritmo da msica, tentando acompanhar a 
coreografia que os danarinos faziam. Maria Lcia danava bem. Joo, apesar de seu corpo, sua cor, e toda sua 
desenvoltura, ficava devendo. Quem sabe com um pouco mais de treino? 
Aps o ax, Maria Lcia e Joo voltaram para a mesa, agora, juntos. Natinho ficou na outra mesa, sozinho como 
sempre. 
-Voc tem namorado? -Joo perguntou. 
Maria Lcia no falou nada. Fingiu que no escutara. 
-Joo, eu vou subindo. 
-J? Fique mais um pouco... 
-No... Est na hora... J vai escurecer... 
-A gente se v? 
-Quem sabe! 
-Daqui a pouco? 
-Quem sabe? 
-Aonde? 
Maria Lcia simplesmente se vestia enquanto Joo se desesperava. 
-Tchau... Gostei de voc, mas... Tchau, Joo... 
E saiu. 
Joo no conseguiu nem segui-la, de to espantado que estava. Voltou para sua mesa, onde estava Natinho. 
-Natinho... Eu no sei o que me aconteceu... 
-Est passando mal, Joo? -Natinho perguntou, levantando-se. 
-No, no  isso... Eu no sei o que ... 
Natinho entendeu o que era. Joo havia sido dominado por uma mulher. Nunca vira aquilo. 
-Joo, quem era ela? 
-Uma deusa... Um anjo... Sei l, Natinho. Acho que meu corao no me pertence mais... 
-Como est romntico... 
Joo estava mais do que romntico. Estava apaixonado por uma mulher que ele no sabia se iria ver de novo. Como 
encontr-la? 


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Subiram para a vila. Foram  pousada. Natinho acendeu um baseado, mas Joo no quis. Apenas se preparou para 
uma noite de amor com uma linda mulher. Um banho, um perfume, boas roupas e dinheiro no bolso. O resto, Deus 
lhe deu. A perfeio de um homem bonito. 
Saram, j era quase onze horas da noite. Foram aos diversos bares do lugar. Em nenhum deles encontraram Maria 
Lcia. Joo estava impaciente. No via nenhuma outra mulher, no queria beber, no conseguia ficar em um lugar 
apenas. 
Andava e andava... Procurava... e nada. 
Resolveram comer uma pizza na Pizzaria Caminho da Praia, a melhor pizzaria do Arraial. Foram atendidos pela 
dona, a Marlene, que indicou alguns bares legais que ela mesma freqentava. Ao final, eles escolheram parar um 
pouco num lugar que eles j conheciam.
-Joo, vamos ficar aqui, neste bar. O Beco das Cores  legal. Olha l o Rafael e sua me, Neca. O rabe  o um dos 
melhores lugares do Arraial. Esto tocando rock. Olha que som legal! Vamos tomar alguma coisa?
Joo foi com Natinho ao rabe. Rafael veio atend-los. 
-E a, Natinho? Joo? Como vo? 
-Tudo bom, Rafael? E os bebs? 
-Esto timos. O que vai ser hoje? -disse Rafael, filho da dona do bar, pai de gmeos aos quinze anos. 
-Traz o de sempre. 
Rafael trouxe, mas Joo no bebeu. 
-Joo, o que voc tem? 
-No sei, cara, no sei... 
A noite demorou para passar para Joo. No encontrou Maria Lcia, e nem ao menos sabia como encontr-la. J 
passava das duas. 
-Natinho, vamos ao lual? 
-Mas, Joo, voc no gosta disso! 
-Mas hoje eu quero ir... 
-Vamos... Rafael!!! 
Pagou a conta e foram. 
Na prpria Barraca do Parracho acontecia o Lual. No encontraram Maria Lcia, tambm, entre as centenas de 
mulheres que ali se encontravam. E, para surpresa de Natinho, Joo no quis sair com nenhuma delas. 
-Joo, voc est doente? 
-S se for! 
Joo dormiu mal. Queria encontrar Maria Lcia. Sabia que precisava dominar aquela mulher e ela seria dele para 
sempre. Precisava encontr-la. 
No outro dia, foi mais cedo para a praia. Ficou na mesma mesa, na mesma barraca. Perto das trs horas ela chegou. 
Maria Lcia, com sua beleza aproximou-se de Joo, falou um oi, simples, como se no estivesse nem reconhecendo-


o. Joo ficou louco. Queria voar em cima daquela mulher, mas se segurou. 
-Natinho, eu no sei, mas estou inseguro com essa mulher. 
-Ah! Algum mexeu contigo! Cuidado, no v se apaixonar... 
-Apaixonado? Eu? O Joo garanho? Sai para l... 
Mas, Joo sabia que o negcio era diferente. No era mais o mesmo. 
Na primeira oportunidade, se aproximou. 
-Oi, Maria Lcia. Tudo bem? 
-Oi, Joo, tudo timo. E com voc? 
Joo ficou feliz pois ela havia lembrado seu nome. 
-Tudo bem. Lhe procurei ontem e no achei. Que lugar voc ficou? 
-Ah... Ontem eu fiquei na pousada... No tava a fim de sair. 
Joo parecia um menino. Observava a sua angstia em achar Maria Lcia e ela nem a, nem ligando para ele. 
-Pois ... -falou Joo. -Eu dei umas voltas, desci at para o Lual... Estava legal... Bastante gente. Voc vem ao 
lual? 
-No gosto de Lual, Joo. Eu no gosto desta azarao... Gosto de um lugar mais calmo, mais tranqilidade, 
entende? 
"Entendo, entendo..." Joo quase gritou.
-Mais calmo? ... Aqui  difcil... -apenas respondeu. 
Conversaram bastante. Neste dia no danaram ax. Maria Lcia no bebia nada alcolico e Joo resolveu tambm 
no beber. Maria Lcia no fumava e Joo resolveu no fumar. Afinal, Joo seria at um escravo para aquela 
mulher, se ela pedisse. 
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Na hora de ir embora, aconteceu a mesma coisa. 
-Vamos nos ver, hoje? 
-Joo, hoje no vai dar... Acho que vou descansar... 
-Posso ir em sua pousada, conversar um pouco mais? 
-Hoje, no, Joo. Outro dia, quem sabe! 
E foi. 
Joo ficou triste. No conquistou Maria Lcia. Era a primeira mulher que no cedia aos seus encantos. 
Voltou para sua mesa. 
-Natinho, alguma coisa est errada. 
-O que foi, Joo? 
-Eu no consigo conquistar esta mulher. O que estou fazendo errado. 
Natinho sabia o que estava errado, mas receava falar com Joo. 
-Joo, na verdade, voc conheceu uma pessoa diferente... 
-Como assim... Diferente, como? 
-Essa mulher no  como as outras, que se apaixonam pelo que voc tem, pelo que voc representa. Ela pode se 
apaixonar pelo que voc . 
-Pelo que eu sou? E o que eu sou? 
-Voc  uma pessoa boa, uma pessoa que ajuda, trabalhador, honesto, calmo e que gosta de coisas boas. 
-Natinho, voc sabe que eu no sou assim! Ento, ela no gosta de mim! 
-Joo, voc pratica muito boas aes. S no percebe. Ajuda instituies de caridade, no ajuda? 
-S trs. Mas  para lavar dinheiro... 
-No quero saber. O que voc ajuda  contado. Voc ajuda a pagar a clnica de Clarisse, lembra? 
-Ah, mas e as coisas ruins, as pessoas que matei, as pessoas que bati...? 
-Joo, voc no pode s pensar nisso. Aprenda a ver as coisas com o corao. Quem sabe no chegou a sua chance 
de aprender mais um pouco. Aprender a amar. Aprender a usar o corao. 
Joo ficou pensando naquelas palavras. No saiu  noite. Dormiu mais cedo e no dia seguinte, pela manh, resolveu 
caminhar na praia. Andava calmamente, sentindo o vento em seu rosto, o sol em seu corpo e a gua, ainda gelada, 
em seus ps. 
Algum o alcanou. Era Maria Lcia. 
-Oi, Joo, logo cedo na praia? 
-Oi, Maria Lcia -disse Joo, abrindo um lindo sorriso. -Que alegria te encontrar. 
-Eu tambm digo isso, Joo. 
Caminharam um pouco, sentindo o vento, sentido a areia, sentindo a gua do mar... 
-Joo, voc v que esta cidade dorme at tarde? Aqui  to diferente...
-, Maria Lcia. Aqui  muito diferente... 
Joo parou, pegando no brao de Maria Lcia. Ela parou, de frente para Joo. Estavam sozinhos e aconteceu o 
primeiro beijo. 
-Joo... -disse Maria Lcia, abraando-o. 
-Maria Lcia. acho que estou apaixonado por voc! -disse Joo, como nunca havia dito em sua vida. 
Maria Lcia ficou sria. J tinha vinte e dois anos e era experiente. Sabia que no podia acreditar em tudo, muito 
menos em uma coisa criada em to pouco tempo. 
-Joo, eu tambm gostei de voc, desde quando o vi. 
Joo pensou em como era uma mulher. Apesar de ter gostado de Joo ela no tinha demonstrado isso. Joo achava 
que agora tudo seria fcil. 
Mas, no seria. Maria Lcia o chamou: 
-Vamos voltar, meu nibus est saindo daqui a pouco. 
-Seu nibus? Voc j vai embora? 
-Daqui a pouco, Joo... Daqui a pouco. 
-No pode ser... Fique um pouco mais... 
-No posso, Joo. Tenho que trabalhar depois de amanh. Estou de frias e no posso ficar mais. 
Joo no sabia o que falar. Voltou com Maria Lcia, foi at sua pousada. 
-Joo, at aqui est bom. No  bom voc entrar... 
-Por qu no? 
-No  isso que queremos. Voc sabe disso! 
Joo no sentia mais vontade de transar com Maria Lcia como fazia com todas as outras. Queria Maria Lcia em 
seus braos, com beijos, carinhos, e queria a retribuio. Queria senti-la em seus braos. 


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Abraou demoradamente Maria Lcia. Ela o havia conquistado. 
-Como posso te encontrar em Gois? 
-Vou te dar meu telefone. Quando voc quiser, me liga. 
E escreveu o nmero em um papel. Joo tambm escreveu o seu nmero. 
Despediram-se. 
Joo voltou  sua pousada com uma cara de que havia morrido uma pessoa que ele gostava demais, mas ao mesmo 
tempo tinha o brilho nos olhos quando olhava aqueles nmeros. Aquele telefone poderia significar a sua verdadeira 
felicidade. 
Dois dias depois Joo j estava chamando Natinho para voltarem. No conseguiu mais beber, nem curtir, nem usar 
nenhum tipo de drogas. No namorou mais e s pensava em Maria Lcia. 
Voltaram no dia seguinte. No mesmo dia em que chegou em Braslia ligou para Maria Lcia. Ela no estava em 
casa, estava trabalhando. Ficou de ligar  noite.
 noite ligou. 
-Oi, Maria Lcia, sou eu, o Joo. 
-Joo...? 
-... l da Bahia... Lembra? 
-Lembro. Mas voc j voltou? 
-J, e quero te encontrar. Me d seu endereo? 
-Calma, Joo. Voc vem para c? 
-Agora mesmo, se voc quiser... 
Maria Lcia ficou feliz, mas o telefone escondia o seu sorriso. Ela tambm havia se apaixonado por Joo. 
-Anota Joo. Mas, no precisa tanta pressa. Fica um pouco longe. 
E passou o endereo. 
-No  to longe, assim! Amanh, mesmo, estou a... 
Conversaram ainda mais de meia hora, sempre Joo puxando um assunto diferente, como se no quisesse desligar. 
Por fim, desligou. 
Nem se preocupou com o Morro, nem conversou com Pablo sobre o que tinha acontecido, nem se preocupou com os 
problemas que podiam estar ocorrendo nos pontos de trfico. Arrumou-se e no dia seguinte partiu. Foi em seu carro, 
ele mesmo dirigindo. 
Quando chegou, foi logo ao endereo que Maria Lcia havia passado. Era um domingo e Maria Lcia estava 
esperando. 
-Entre, Joo. 
Joo entrou e conheceu a colega de casa de Maria Lcia. Moravam juntas, onde dividiam os afazeres e as despesas 
da casa. 
-Ento voc  o Joo? Ouvi tanto falar seu nome aqui que quase enlouqueo. Meu nome  Suzi. 
-Prazer Suzi. Estavam falando bem ou mal? 
-Bem... Muito bem... -brincou Suzi. 
Maria Lcia abraou Joo e o levou at a sala. Conversaram bastante, at que Maria Lcia achou que seria bom para 
Joo encontrar um hotel para passar os dias que ficaria por ali. 
Joo esperava ser convidado para ficar em sua casa, mas, tudo bem. 
Perto de onde Maria Lcia morava, havia um hotel, pequeno, mas muito bom. 
Os dois, juntos, fizeram a reserva do quarto, subiram, abriram a porta, entraram e Maria Lcia arrumou as coisas de 
Joo. 
Joo a abraou e pela primeira vez, tentou ir alm do abrao. Com as mos, acariciou suas costas, descendo um 
pouco mais... 
-Joo, calma, ainda no... -disse Maria Lcia. 
Joo estava entregue. Obedeceu cegamente. Beijou-a, fez carinho em seus cabelos, sentia os braos daquela mulher. 
-Joo, estou indo. Amanh a gente se v, ok? Trabalho meio perodo, aparea s trs da tarde que j estarei em casa. 
-Est cedo, fique mais um pouco! 
-Hoje, no. Quem sabe outro dia. 
Beijou Joo e saiu. 
Joo deitou na cama, ainda vestido e sentiu-se diferente, como se houvesse sido atingido por um raio de paz, de uma 
coisa que no se lembrava de jamais ter sentido em sua vida. 
No dia seguinte se encontrou com Maria Lcia. Ela estava linda, como tambm estaria nos dias seguintes. Apenas 
no oitavo dia em que Joo estava em Gois, Maria Lcia se entregou a ele. 


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Tudo aconteceu no quarto do hotel de Joo, naturalmente, de todas as formas, menos da forma que Joo imaginaria 
acontecer. Nunca havia passado momentos to bons com uma garota. Sempre pensava em sexo, mas, desta vez, o 
sexo estava ligado ao amor. 
Maria Lcia o conquistou completamente. 
Um ms depois j tinham alugado uma casa e passaram a morar juntos. 
-Joo, no sei se  melhor voc abandonar tudo e ficar aqui. Ser que voc vai se acostumar? -disse Maria Lcia, 
uma semana antes de alugarem a casa. 
Joo havia falado de sua vida para Maria Lcia. Falara de seu comrcio, falara de seu passado e prometera-lhe um 
futuro. Resolveu abandonar o crime, resolveu abandonar as drogas, parou de beber e at abriu mo do negcio em 
favor de Pablo. 
Voltou a Braslia apenas para falar pessoalmente com Pablo o que estava planejando.
- isso mesmo, Pablo. Resolvi mudar o rumo da minha vida. 
-Joo, voc no vai agentar essa vida. 
-Vou, Pablo, agora eu sei que posso! Encontrei uma razo para mudar toda minha vida. Quero um futuro. Acho que 


o meu futuro, da forma que estamos indo, no  bom para mim. 
-Joo, voc quem sabe. Quando quiser voltar, a sua parte estar garantida. 
-No quero, Pablo. Tudo o que existe  seu. Vou recomear. Quero at sofrer, se for o caso, mas no quero levar 
nada do que existe neste passado sujo. 
E voltou para Gois. 
Uma semana depois j estava trabalhando em uma carpintaria perto da casa que alugaram. Maria Lcia trabalhava 
tambm, como balconista, ganhava pouco, mas ajudava em casa. O salrio de Joo era muito pequeno, mas o seu 
corao estava feliz, e isso bastava. 
Captulo 16O AMOR DE JOO DE SANTO CRISTO 

O amor que Joo sentia por Maria Lcia superava a necessidade de bens e dinheiro. Maria Lcia era independente e 
morava sozinha j h alguns anos. Havia se mudado para a cidade a fim de estudar e resolveu no voltar mais para 
casa. J estava com vinte e trs anos. Passou a morar com Suzi h um ano, com quem dividia todas as despesas, at 
que resolveu morar com Joo. 
Joo e Maria Lcia ganhavam o suficiente para o aluguel, as despesas da casa, e tinham uma vida normal, como 
qualquer famlia. A dificuldade em comprar mveis, em guardar dinheiro, em pagar as contas, era imensa, j que 
combinaram em no usarem nada do passado de Joo, que consideravam que foi ganho de forma errada, j que 
vieram das drogas. 
Se amavam e achavam que s isso bastaria. O amor  inexplicvel. 
O dia-a-dia dos dois era s romance, amor e cheio de carinho. Certo dia Maria Lcia foi deitar-se: 
-Joo, deita aqui, perto de mim. 
Ele no resistiu. Estava preparando suas roupas para o dia seguinte, mas no queria desperdiar qualquer momento 
dos braos de Maria Lcia. 
-Voc  a mulher dos meus sonhos. 
-E voc  mais do que os meus sonhos. 
Beijaram-se com todo o carinho possvel. 
-Joo, eu lhe amo. No imaginava ser possvel me apaixonar dessa forma. 
Joo ficou feliz com as palavras de Maria Lcia. 
-Eu tambm lhe amo demais. Nunca senti isso por ningum. E no sabia que era to bom. 
E a abraou. 
-Maria Lcia, quero te amar sempre mais e mais. Nunca deixe diminuir esse amor. Hoje eu quero fazer tudo por 
voc! E sempre vai ser assim, voc pode apostar. 
-Sou tua deusa, meu amor. 
Tiveram uma noite maravilhosa, onde amor e sexo formam uma coisa s, como se s existissem os dois em todo o 
mundo e ao mesmo tempo como se o mundo fosse acabar dali a uns poucos instantes. 
E Joo percebia todo o amor que sentia por Maria Lcia. Todos os minutos eram pouco para fazer todo o carinho 
que aquela mulher merecia. 
Maria Lcia retribua o carinho de Joo, feliz por ter encontrado a sua outra metade. 


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Algumas vezes, Maria Lcia costumava esperar Joo no porto de sua casa. Joo saa s seis da tarde e como 
morava perto, em vinte minutos estava em casa. 
-Meu amor, o que foi? Aconteceu alguma coisa? 
-No, s estou te esperando. 
-Mas, no  preciso. Os vizinhos podem comentar. 
-Se fiquei esperando o meu amor chegar, o que eles tem a ver com isso? 
-Voc tem razo, eu amo voc. 
Abraaram-se e entraram. 
Certo dia, Joo voltou com um presente para Maria Lcia. 
-Adivinha o que eu trouxe para voc? -disse Joo, mostrando uma pequena caixa. 
Maria Lcia pegou a caixa. No era pesada, mas havia alguma coisa viva dentro. Maria Lcia j esperava o melhor. 
-No acredito! Voc  louco... Voc comprou... -dizia, abrindo a caixa. -Que lindo. 
Era uma cachorro lindo, de raa Basset, marrom com manchas brancas. 
-Adorei! 
Beijou Joo, tirando aquele filhotinho da caixa. 
-Que nome vamos dar a ele? -perguntou Joo. 
-No sei... Que tal Lulu? 
-Lulu j tem um monte. Nem Lili, que  nem de cadela, e ele  muito macho. 
Riam a valer com o cachorrinho. No final das contas deram o nome de Nick em homenagem a um cachorrinho que a 
famlia de Maria Lcia teve quando ela era pequena. 
O Nick corria por toda a casa, fazendo a felicidade dos dois. 
-Joo, voc  maravilhoso -disse Maria Lcia. 
-Eu te amo, Maria Lcia -falou Joo. 
E beijaram-se, trocando carinhos. 
-Eu te amo -disse Maria Lcia. -Eu te amo. -Eu te amo. -Eu te amo. -Eu te amo. -Eu te amo. 
-Calma! para que tanto? 
-O tempo passa rpido e eu no quero perder tempo! 
-Sossega! Temos todo o tempo do mundo. 
-Mas eu lhe amo tanto e no sei at quando ficaremos juntos. E se eu morrer? E se voc for embora? 
-Voc no vai morrer nunca. Eu te amo muito e nunca vou deixar voc morrer. Eu morro em seu lugar. E s assim 
eu vou embora. E quando eu for embora, no chore por mim. 
-Joo, eu te prometo. Se voc morrer antes de mim, eu me mato para lhe acompanhar para sempre por toda a 
eternidade. 
Abraavam-se, beijavam-se e sentiam o amor diretamente na alma. Sabiam que aquilo seria eterno. 
Naquela noite, Joo no conseguia dormir. Ficou acordado pensando em como estava feliz. 
Olhava para Maria Lcia, dormindo ao seu lado, seu rosto lindo. Lembrava dos momentos de violncia, drogas, sexo 
e coisas ruins que passou em toda sua vida. Foi difcil chegar at ali. Fugir dos vcios, a princpio no foi fcil, mas, 


o amor que sentia por Maria Lcia conseguiu ser maior do que a necessidade de usar drogas e bebidas. 
No bebia mais. Nem fumar, ele fumava. 
O dinheiro no estava fazendo falta, e nem o luxo que tinha no passado o fazia duvidar de que seria feliz. Aquela 
mulher era a razo de sua felicidade. 
Comeou a chover. Joo adorava a chuva. Maria Lcia se impressionava como Joo gostava dos pingos de chuva 
caindo nas poas d'gua, na terra, em seu corpo. 
Joo, que por toda sua infncia no via tanta chuva por morar em um lugar castigado pela seca, no conseguia 
esconder o prazer que tinha com a chuva. 
Joo foi at a janela, ficou olhando a rua, com suas luzes, e a chuva batendo na janela. 
Olhou para Maria Lcia, dormindo. Sorriu. Ela se mexeu. Olhou para ele, meio sonolenta. 
-Meu amor, no dormiu ainda? 
-Gosto de ver voc dormindo. Que nem criana, com a boca aberta. Voc  linda. Voc e a chuva que cai l fora. 
Maria Lcia espreguiou-se, levantou-se e abraou Joo. Encostaram os dois na janela e ficaram olhando a chuva. 
-Gosto dos pingos da chuva -disse Joo. 
-Eu sei, meu amor, eu sei... Voc me disse isso quinhentas vezes. E eu adoro a chuva porque voc tambm adora. E 
eu gosto dos relmpagos e dos troves, tambm... 
Beijou Joo. 
-Estou com sono. Vamos dormir! -Maria Lcia carregou Joo. 
Com seis meses de convvio, Joo j pensava no futuro de sua famlia. 
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#
-Maria Lcia, eu quero um filho seu! 
-Voc acha que a gente deve, Joo? No ser muito cedo. Vamos aproveitar mais um pouco... 
-Um filho seria um trofu para ns. -disse Joo. 
E a partir daquele dia comearam a preparar a chegada de um filho. 
A partir desse dia Maria Lcia deixou de evitar a fecundao. Estava nas mos de Deus. Estava no seu 
relacionamento. Tudo sairia normalmente. 
Joo era o mais empolgado. Quando tinha um momento de paz ficava pensando em como seria o filho, como o 
chamaria, aonde iria com ele, e todas as idias que um pai poderia fazer com o filho. 
-Meu filho vai ter nome de santo -dizia Joo, para Maria Lcia. 
-Sei, Joo, sei... -brincava Maria Lcia. 
-Acho que vou chamar de Abel. Ou ento Daniel! 
-Joo, Abel e Daniel so nomes bblicos, mas no so nomes de santo. 
-Ento vou chamar de Igor. 
-Muito menos. Igor tambm no  nome de santo. E nem  nome bblico. 
-Ah, sei l... Quero o nome mais bonito. 
Maria Lcia ficava feliz com a alegria de Joo. 
Mas, o tempo ia passando e nada de Maria Lcia engravidar. 
-Joo, ser que temos algum problema? J parei de evitar o filho h uns cinco meses. No  bom a gente fazer um 
exame? 
-Ah, deixa disso, Maria Lcia. Voc vai engravidar a qualquer momento. Vamos treinar? 
-Ah, Joo, deixa de ser bobo... 
E se abraavam, se beijavam e acabavam treinando. 
Mas, nada. Maria Lcia achava que o problema estava com ela. 
-Joo, acho que nunca vou engravidar. 
Ele j no estava to empolgado como antes. Sabia que alguma coisa estava errada, mas, onde estaria a falha? Ser 
que Maria Lcia no poderia engravidar? Mas Joo no aceitava que fosse ele quem tivesse algum problema de 
sade. No queria fazer o teste. 
Maria Lcia se desculpava. 
-Por favor, amor, acredite. No h palavras para explicar o que sinto... 
-Deixa disso, Maria Lcia, estar contigo  o bastante. 
Joo abraou Maria Lcia e viu como ela sofria em querer lhe dar aquele filho e percebia que precisava fazer 
alguma coisa. 
-Maria Lcia, no fica assim. Vamos fazer uma festa? Uma pequena reunio de amigos? 
Maria Lcia olhou para Joo. Sabia que ele estava tentando consol-la e ficou feliz em saber que ele ainda gostava 
dela. 
-O que podemos fazer, Joo? 
-J sei, vamos chamar nossos amigos, a gente faz uma feijoada. 
E assim foi feito. Naquele sbado apareceram todos os amigos de Joo e Maria Lcia para uma feijoada que eles 
cozinharam. Joo ajudou a Maria Lcia enquanto ela cozinhava.
-Vem c, meu bem.  bom te ver alegre. Est tudo bem, acredite -disse Joo. 
Joo serviu algumas cervejas para os amigos, e com tanta insistncia ele colocou um copo para ele tambm. Depois 
de tanto tempo Joo estava bebendo novamente. 
Maria Lcia via Joo bebendo, mas no se incomodou. Ela sabia dos problemas que ele teve no passado, mas no 
achava que Joo mudaria tomando alguns copos de cerveja, afinal, os seus amigos tambm estavam bebendo. 
Mas, depois de um ano e trs meses de casado, Joo se embebedou pela primeira vez. No fez nenhum escndalo, 
mas a partir deste dia, comeou a beber novamente. 
Quase um ms depois, Maria Lcia sentia que Joo estava sofrendo porque ela no podia ter o filho que ele tanto 
desejava. Conversavam a respeito, mas Joo sempre dava as desculpas normais e no aceitava fazer exames. 
Maria Lcia fez exames e descobriu que ela no tinha problemas. Joo, ao contrrio, no aceitava fazer os exames e 
se afundava mais na bebida. Comeou a chegar mais tarde em casa. 
Um dia chegou em casa com um cheiro diferente. Maria Lcia sentiu que Joo havia fumado maconha. 
-Joo, voc no est pensando em ter os problemas que tinha no passado, est? 
-Deixa disso, Maria Lcia, estou numa boa. 
-Joo, voc fumou maconha... 
-Fumei, sim, mas maconha no vicia. Fica tranqila. No se preocupe comigo. Se preocupe com voc. 
-O que voc quer dizer, Joo? 


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-Nada, nada... 
-Voc est insinuando alguma coisa sobre o nosso filho, no ? 
Joo se calou. 
-Pois fique sabendo que fiz os exames e no tenho problemas... 
-Voc fez os exames, escondida? 
-Fiz, Joo, e no tenho nada. Por qu voc no faz os exames, para fazermos um tratamento e termos o nosso filho? 
Joo saiu de perto de Maria Lcia. Achava que no devia fazer o exame. Ele no tinha nada. Era mentira dela. Ele 
sabia que ela estava mentindo. 
E cada vez mais se aprofundou na maconha e nas bebidas. Agora o dinheiro no dava, mesmo, para pagar todas as 
contas e despesas da casa. 
Foi nessa poca que resolveu ligar para o Pablo. 
-Al, Pablo? 
-Joo, no acredito, cara, voc t vivo?
-, cara, quem est vivo sempre aparece? Como vo as coisas? 
-Mais ou menos, Joo, e com voc? 
-Aqui tambm est mais ou menos. Pintou a saudade e resolvi te ligar. Como est o movimento? 
-Joo, nada bem. Sabe aquele pessoal do Rio de Janeiro que tinha mandado aqueles dois caras, que voc deixou s 
um voltar? 
-Lembro, Pablo, um voltou vivo, voc diz? 
-Cala, Joo, sei l os grampos dos telefones... 
-Que quer dizer? No est amparado pelo pessoal de cima? 
-Perdemos um bocado do nosso poder. Uma parte do pessoal que nos apoiava deixou a gente, Joo. Esto com os 
caras do Rio. Eles j tomaram metade do nosso movimento. Est ficando difcil.
- mesmo, Pablo, e o que voc fez? 
-Joo, voc sabe que eu no sou igual a voc. Estou fazendo o possvel, mas no est dando para controlar todo 
mundo. 
-E o nosso pessoal, est unido contigo? 
-Que nada, Joo, tem um pessoal que continua do nosso lado. Outra turma virou para o lado dos caras. Quando  
que voc vem por estas bandas, Joo? Estamos precisando de voc. Por qu voc no volta? 
-No quero saber mais dessa vida, Pablo, agora quero outros lances. 
-Joo, voc nasceu para isso, no pode fugir do seu instinto. 
-Mas vou tentar, Pablo, eu vou tentar... Um abrao. D um abrao em todo o pessoal. Quando der eu dou um pulo 
a, falou? 
-Est jia, Joo. Um abrao. 
Joo desligou e ficou pensando em como Pablo havia permitido o pessoal do Rio tomar conta da metade do 
movimento. 
A partir daquele dia Joo no agentava mais de vontade de ir embora. 


Captulo 17 
A PROPOSTA DO SENHOR DE ALTA CLASSE 

Joo bebia cada vez mais. Voltou a fumar. Comeou a faltar no emprego, principalmente na segunda-feira, quando 
estava com uma ressaca incrvel, e muitas vezes virava a noite na bebedeira, com novos amigos que havia feito. 
Estava ficando complicada a vida com Joo, mas Maria Lcia tinha a esperana de que aquilo acabasse a qualquer 
momento e Joo voltaria a ser aquela pessoa maravilhosa que ele sempre foi. 
At o dia em que Joo recebeu uma visita. 
Eram oito horas da noite, em um dia que Joo resolveu no beber e estava em casa. Maria Lcia estava ao seu lado, 
no sof, assistindo o jornal, quando algum bate na porta. Maria Lcia foi atender.
-Boa noite.  aqui que mora o Joo de Santo Cristo? 
Maria Lcia se admirou. Conhecia o nome completo do seu marido. Joo se levantou e foi at a porta. 
-Sou eu. 
-Boa noite, tudo bem? 
Era um senhor bem vestido, aparentando mais de cinqenta anos. 
-Boa noite -disse Joo. 


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#
-Eu vim de Braslia. Conversei com seu amigo Pablo e ele me deu seu endereo. No sei se voc se lembra, mas eu 
te ajudei quando voc comeou a construir o seu prdio. 
-Qual o seu nome? 
-Dr. Everaldo. Sou militar. 
Joo se lembrou do Doutor Everaldo e de como era influente. Lembrou de como ele o ajudara a iniciar todo o seu 
comrcio. Sabia que era melhor escut-lo. 
-Entra, doutor, desculpa, mas eu no lhe reconheci. 
-Que nada, Joo, j faz tanto tempo... Como voc est? 
-Tudo bem, doutor, mudei um pouco a minha vida, mas estou bem. 
-Joo, tenho uma proposta a lhe fazer, mas precisamos conversar a ss. -disse isso, olhando para Maria Lcia que 
estava sentada no sof. 
-Vamos para a cozinha. 
Sentaram-se  mesa. 
-Desculpa, doutor, eu no tenho o luxo que tinha quando morava em Braslia -desculpou-se Joo. 
-Que  isso, Joo. Voc sabe que eu no ligo para luxo. 
-Mas, o que trouxe o senhor at aqui? 
-Joo, estou precisando de um favor seu. No quero que pense que estou cobrando nada do passado, mas preciso de 
uma pessoa de confiana para fazer uma coisa muito arriscada, e depois de pensar muito, cheguei  concluso de que 
essa pessoa  voc. 
-Antes que o senhor fale mais alguma coisa, quero que saiba que estou mudado. Estou vivendo uma vida diferente 
da que vivia em Braslia. 
-Eu sei, Joo, mas escute a minha proposta e pense a respeito. 
-Fale, Doutor. 
-Eu e mais cinco amigos, todos do alto escalo do governo, influentes em muita coisa, inclusive no mercado que 
vocs trabalham em Braslia... 
-Trabalhava, doutor... -cortou Joo. 
-Trabalhava! Ento, todos os meus amigos so influentes, como eu, Joo. Precisamos providenciar uma srie de 
atos que faro melhorar o nosso comrcio, e estou precisando de voc e de seus amigos. 
-O que temos que fazer? 
-Estamos tendo uma srie de inconvenientes com alguns concorrentes nossos na rea da educao, e precisamos 
criar uma situao em que as pessoas comecem a ter medo de freqentar alguns tipos de estabelecimentos e virem 
nossos clientes. 
-Doutor, o senhor est enrolando... 
-Joo, precisamos criar um problema em uma srie de colgios, e em alguns shoppings. 
-Como assim, criar problemas? 
-Joo, precisamos sabotar estas empresas. 
-Sabotar como? 
-Algo muito srio. Bombas. 
-Onde eu entro nisso tudo? 
-Temos o dinheiro que voc quiser. O preo voc vai mandar. Quero que voc e sua turma coloquem estas bombas 
de maneira que crie tumulto na cidade, fazendo com que os estabelecimentos dos meus concorrentes sejam 
desmoralizados. 
-Deixa ver se eu entendi? Eu e minha turma vamos colocar bombas em escolas de crianas e adolescentes e em 
shoppings, onde existem centenas de pessoas passeando e trabalhando, sem um motivo srio, ou seja, um motivo 
banal, onde o senhor e sua turma ganhariam mais dinheiro?
- mais ou menos isso... 
-E quer que mate algum? 
-Joo, tem que ter vtimas, seno, como ficariam desmoralizados?. 
Joo ficou esquentado. No acreditava na proposta daquele homem. 
-O que o senhor est achando que eu sou? 
-Um bandido que eu financiei quando precisava de apoio financeiro e poltico. 
-Eu j parei com tudo o que voc est insinuando e no participo mais dessas coisas?
-Joo, voc  um bandido. Nada mais do que isso.  um traficante, um assassino. Joo, ns j computamos quarenta 
e duas mortes a voc e a seu bando. Talvez seja at mais. Se fosse feita a sua priso voc pegaria uma pena acima de 
cem anos. 
Joo se enervou. 


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-O senhor est na minha casa. Queira se retirar. 
Nisso, Maria Lcia entrou na cozinha, preocupada com os gritos. 
-Saia imediatamente da minha casa -disse Joo. -O senhor no devia brincar comigo assim. O que eu fui j no sou 
mais. Eu no quero saber do meu passado. 
Doutor Everaldo levantou-se e ia seguindo em direo  porta, assustado com a reao de Joo, preocupado, no 
imaginando que o rapaz ficaria to zangado. Mas, doutor Everaldo nunca havia recebido um no como resposta. 
Quando abriu a porta, dois seguranas seus, que estavam no carro vieram para o seu lado. 
-Tudo bem, doutor? -disse um deles. 
-Tudo bem -disse Doutor Everaldo. 
E virando-se para Joo. 
-Joo, eu vou te dizer uma coisa. Neste momento voc acabou com a sua vida. Eu vou fazer tudo o que eu puder 
para te prejudicar. Tudo o que fiz a seu favor eu agora vou fazer contra. Voc perdeu a sua vida. Eu tenho sua vida 
na minha mo. 
Joo pulou para agarrar o homem, mas foi afastado pelos seguranas. 
Doutor Everaldo foi para o carro com os seguranas e saram. 
Joo voltou para casa, percebendo que alguns vizinhos saram na porta para ver o que estava acontecendo. 
J na sala, conversou com Maria Lcia. 
-Maria Lcia, eu posso te falar? 
-Fala, Joo. O que aconteceu? 
-Maria Lcia, eu tentei fugir do passado, mas no teve jeito. E olha que eu tentei o meu caminho, mas tudo agora  
coisa do passado. Esse homem conseguiu me atrapalhar a vida. Quando eu achei que viveria bem, ele veio me 
oferecer dinheiro para fazer um atentado em Braslia. Ele acha que eu ainda sou bandido e me cobrou ajuda para ele. 
Nem quis saber que estou mudado. 
-Calma, Joo. No ligue para o que ele disse, vamos esquecer tudo isso e vamos viver a nossa vida. 
Mas Joo estava muito nervoso. Preparou-se para sair. 
-Joo, no me diga que voc pretende sair? -disse Maria Lcia. 
-Vou dar um pulinho ali no bar da esquina e j volto. S vou espairecer o juzo. 
E saiu. 
Joo s voltou quando o dia estava raiando. Maria Lcia passou a noite toda acordada, apreensiva com o que poderia 
acontecer. Joo bebeu e fumou maconha. 
Como chegou, dormiu e no foi trabalhar. Isso aconteceu durante toda a semana. Entrou em conflito com o seu 
passado e nem percebeu que estava se entregando  bebida e s drogas. No dia que usou cocana resolveu ligar para 


o Pablo. 
-Pablo, por qu voc mandou esse general aqui? 
-Joo, no foi possvel disfarar. Falei para ele que voc era outra pessoa, tinha mudado, deixado os vcios, mas ele 
no quis saber. Falou que voc precisava pagar o que ganhou no passado. E me pressionou tanto que ia acabar com 
tudo o que temos aqui, que no restou alternativa. O que aconteceu? 
-No vou nem lhe falar. O cara quer acabar destruindo toda Braslia. Queria pr bomba at em banheiro de posto de 
gasolina... O cara estava louco... Me jurou de morte... 
-Joo, voc discutiu com ele? 
-Se discuti? Mandei aquele cuzo para puta que o pariu! 
-Joo, voc bebeu? Voc usou drogas? 
-Usei, Pablo, usei... Por qu? Vai me regular, tambm? 
-Joo, quer voltar? Eu mando algum te buscar... 
-Fica na sua. Quando eu quiser voltar eu sei o caminho... 
E nem deu tempo para Pablo responder, desligou o telefone. 
Joo estava no bar, rodeado de amigos quando soube que o seu patro, da carpintaria, havia mandado um recado 
para ele, que ele no precisava ir mais trabalhar. Soube at que seu patro j havia contratado outro para o seu lugar. 
O motivo para beber aumentou ainda mais. 
Em casa, comearam os conflitos. Quando chegava, Maria Lcia ficava perto de Joo, mas percebia que ele no 
queria mais conversa. No conseguiam dialogar. No eram mais carinhosos um com o outro. 
Maria Lcia falou primeiro: 
-Joo, cad seus planos? Voc agora enche a cara e cai pelas esquinas... O que voc pretende para o seu futuro? 
-Aqui? Nada... Estou pensando em ir embora... 
-Joo, no v. Voc vai abandonar nossos planos? Como vamos ter nosso filho? 
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-Ns nunca vamos ter esse filho, voc sabe disso. O que eu tenho  s um emprego e um salrio miservel. E agora, 
nem isso eu tenho mais... 
-Voc foi despedido?
- o que falaram. Eu nem fui l, naquele cara miservel... Patro mesquinho... 
Joo estava revoltado e Maria Lcia sabia que precisa ir com jeito. 
-Joo, no abandone a sua mudana. Voc pode voltar a ser como era, quando veio para c. 
-Resolvi que vou embora, amanh cedo. 
Maria Lcia chorou bastante naquela noite. Seu sonho estava acabando-se muito rapidamente. Sentia um amor 
incontrolvel por Joo, mas sabia que ele precisava ir embora para aprender alguma coisa. Aprendeu que nada 
forado dava certo. 
No dia seguinte, Joo j havia arrumado as malas e estava na rodoviria. O nibus chegou. 
-Vai, se voc precisa ir. No quero mais brigar. Vou ficar aqui. 
-Obrigado, Maria Lcia, mas acho que  o que devo fazer. 
-Sei que existe alguma coisa incomodando voc. Mas, onde voc estiver, sempre, saiba que eu lhe amo. Sempre vou 
lhe esperar. Prometo. 
-Guardo um retrato seu... E a saudade mais bonita... -disse Joo. -Eu vou voltar. Espere e voc ver. 
Maria Lcia comeou a chorar. 
-Pare, Maria Lcia. Eu juro que no queria deixar voc to triste. 
-Vai, Joo... Seu olhar no conta mais histria... 
-Eu juro que no foi por mal... Eu no queria machucar voc... 
-Sempre as mesmas desculpas... 
Joo entrou no nibus. 
Maria Lcia viu o nibus indo embora. 
"Joo, eu sei porque voc fugiu... Mas no consigo entender porqu..." 


Captulo 18JOO ABANDONA MARIA LCIA E VOLTA AO CRIME 

Maria Lcia sofreu muito naqueles dias. A todo instante lembrava-se de Joo. Continuou morando na mesma casa, 
mesmo estando sozinha. Tudo voltava a ser como era antes, com exceo das mudanas de esprito que Maria Lcia 
tinha todos os momentos. 
Quando conseguia ficar alegre por instantes, rapidamente vinha uma onda de descontentamento que a fazia ficar 
triste e lembrar de Joo. 
Mais triste ficou ainda, quando uns quinze dias depois Joo ligou: 
-Oi, amor -disse Joo -Que besteira eu fiz? Por qu voltei? Abandonei voc, no foi? 
-Oi, Joo, volta, amor... Eu no sou nada sem voc... 
-Voc vai se acostumar... Assim que der eu vou te buscar... 
-Eu no me perdi e mesmo assim voc me abandonou... Voc quis partir e agora estou aqui sozinha... 
Joo ficou em silncio do outro lado da linha. Maria Lcia ouviu Joo chorando. 
-Mas vou me acostumar com o silncio da casa, com um prato s na mesa. 
-Na prxima semana eu vou lhe visitar! Eu prometo! De corao. Prometo por tudo o que h de mais sagrado no 
mundo... 
-Que dia, Joo? Voc vem mesmo? 
-Vou, Maria Lcia. Pode me esperar... J deixei de cumprir uma promessa a voc? 
Maria Lcia no falou nada. Esperava que fosse verdade o que Joo estava falando. 
Mas, no dia marcado, nada de Joo. Apenas, trs dias depois, Joo telefona: 
-Oi, amor... No deu para ir... 
-Oi, Joo... 
-Maria Lcia, desculpa por no ter ido, mas os negcios aqui esto complicados... No vai dar para ir a, por esses 
dias... 
-Joo, eu j sabia que voc no viria... 
-Me desculpa, amor... Eu no queria te magoar... 
-Joo, eu cansei de sofrer. Eu no quero mais chorar. Eu espero conseguir aceitar o que passou. Vou ser feliz. Hoje 
eu j sei o que sou e o que eu preciso ser. 
-Ah, amor, no fala assim. Quando lembro das tardes que passamos juntos... 


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-Joo, deixa de falsidade. Fala a verdade, fala que me esqueceu... Fala que nunca me amou... 
-Eu sempre lhe amei, voc sabe disso, mas, agora, eu preciso estar aqui... 
Maria Lcia percebeu que havia perdido Joo. 
-Eu continuo aqui, Joo. Meu trabalho e meus amigos. Continuo na mesma casa. Me lembro de voc, dias assim, 
dias de chuva... E o que sinto no sei dizer... 
Joo ficou em silncio. 
-E quando me lembro de voc que acabou indo embora, cedo demais... -disse Maria Lcia. -Percebo que deveria 
aprender alguma lio para a minha vida. Nunca mais vou me entregar a um homem como me entreguei a voc, 
Joo. 
-Maria Lcia, eu para sempre vou te amar... Um dia vou te buscar... No momento, no posso fazer isso, mas um dia 
vou voltar... Confie em mim... 
-Joo, viva a sua vida... Esquea de mim. 
Maria Lcia estava disposta a recomear a sua vida. 
Alguns dias depois ouviu o noticirio na televiso sobre a srie de exploses que ocorreram em Braslia. Depois 
disso, sabia que nunca mais veria Joo. Ser que foi Joo quem fez isso? Ser que aceitou o trabalho? 
Joo, bem longe dali, tambm via o noticirio na televiso. Algum tinha aceitado o trabalho que o Doutor Everaldo 
havia oferecido a Joo. 
Joo, quando voltou, percebeu que Pablo tinha razo quando falou que eles teriam problemas para voltarem a ser 
como eram no passado. 
Havia um grupo de traficantes unidos para tomar o poder de Joo e Pablo. O controle do trfico que Joo dominava 
ia minando aos poucos, e conseqentemente, o poder de seus concorrentes ia aumentando. Joo buscou solues em 
quem o havia ajudado no incio de suas vendas, mas, como o Doutor Everaldo havia mencionado, no era mais a 
mesma coisa. 
Havia se instalado um poder paralelo, onde os chefes estavam no Rio de Janeiro. Joo percebeu que havia uma 
comunicao entre o pessoal do Rio e de Braslia, mas ningum aparecia. Joo suspeitava de que a alta cpula de 
empresrios e polticos estava por trs deste poder. 
Joo, aos poucos foi refazendo a sua turma, que havia se espalhado. O Rodrigo, o China e o Mundo concordaram em 
voltar ao grupo de proteo ao Morro. Alex foi mais difcil de ser encontrado. Espalharam os boatos de que Joo 
queria encontrar Alex, o ex-namorado de Leila. 
Alguns dias depois, Alex apareceu no Morro. 
-Joo, como vai? Queria me ver? 
-Queria, Alex. Como vai? 
-Tudo bem. 
-Demorou para aparecer. O que aconteceu? -perguntou Joo. 
-Estava viajando, Joo. Voc sabe... Depois que voc foi embora as coisas mudaram, o Pablo no tem a mo forte 
como voc tinha, e eu me senti deslocado. Ainda bem que voc voltou. 
-Ento, voc aceita voltar para turma? 
-Estou de volta, Joo, da mesma forma que antes. Sabe que eu no o abandonaria por nada. 
E assim, Joo conseguiu recuperar alguns amigos que haviam ido embora devido  confuso instalada no trfico, 
com a chegada deste novo pessoal. 
Joo tentou recuperar alguns pontos de venda. No primeiro em que tentou a invaso armada, acompanhado de seis 
amigos, teve que se retirar rapidamente, j que houve um contra-ataque muito forte por parte dos que estavam no 
ponto. 
-Joo, voc viu que arsenal? Os caras tinham armas que ns nunca vimos. 
-Se vi! Os chefes tem poder... Eles so peixes muito grandes... 
Na mesma noite, conversando com Pablo. 
-Pablo, o negcio est pior do que eu esperava. Por qu voc deixou acontecer isso? Est tudo bagunado. 
-Joo, eu no sou to forte como voc. Voc sabe disso. Quando me dei conta j estava feita a desgraa. 
-Agora vai ser difcil voltar a ser como era... Mas eu vou tentar... 
-Joo, e a ltima notcia que o Rio de Janeiro no vai mandar mais cocana para gente. 
-E voc tinha voltado a pegar do Rio? Parou com a Bolvia? 
-Parei, Joo, fui forado por uma turma grande, a. 
-Ento, a partir de agora, esquece o Rio e volta a buscar a droga na Bolvia. 
-Hoje mesmo vou fazer os contatos. 
-Quero que voc viaje para l, o mais rpido. Agora mesmo, se for possvel. 
-Ok, Joo! J vi que voc voltou com todo o gs... Isso  muito bom... 


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Pablo foi para a Bolvia, fez os contatos que devia e voltou a pegar a cocana daquele pas. Quando encontrou com 
Joo, deu-lhe um presente. 
-Joo, deu tudo certo. Basta um telefonema e tudo vir para c. 
-Beleza, Pablo. Agora vamos voltar a brigar de frente com os caras. O material  bom?
-, Joo, como sempre foi. 
Abriu a gaveta e tirou um embrulho. 
-Joo, trouxe um presente para voc. 
E o entregou a Joo. 
Joo, abriu o pacote e sorriu. Era uma arma. Uma espingarda Winchester 22, como dos filmes de faroeste. 
-Que linda, Pablo. Obrigado. 
Deu um abrao no amigo. 
Joo guardou a Winchester em seu quarto, no Morro. Colocou como destaque em sua estante. Era muito bonita, 
parecia uma escultura. 
Se orgulhava da arma, e sempre queria us-la contra algum, mas nunca a tirou da estante. Tinha outras armas, 
normais, mas aquela era o seu xod. 
-Pablo, vou fazer um ataque contra os nossos inimigos -falou Joo. -O que voc acha? 
-Joo, disso eu no entendo e deixo por sua conta. Perdemos mais da metade de nossos pontos, neste ltimo ano. 
Ontem fiquei sabendo que mais um ponto foi abandonado pelo nosso pessoal. S sei que precisamos fazer alguma 
coisa. 
-Ento, arruma uma turma para mim. Vou deixar voc selecionar a turma. Arruma uns dez caras, de preferncia 
conhecidos. 
-Deixa comigo -falou Pablo. 
E assim Pablo fez, arrumou o pessoal, que a partir desse dia vivia grudado em Joo, tanto para atacar novos pontos, 
quanto para defender pontos que pudessem estar sofrendo ataques. 
Pablo escolheu os quatro que andavam com Joo -Alex, China, Mundo e Rodrigo -e mais sete rapazes. Todos eram 
famosos por suas loucuras. 
Mas, mesmo assim, estava difcil para Joo. Enquanto ele reconquistava um ponto, perdia dois outros em contra-
ataques do pessoal do Rio. 
-Pablo, acho melhor mudarmos nosso mtodo. A partir de agora, vamos tentar defender o que j temos. 
Joo no sabia, mas a apenas um quilmetro do Morro, um prdio estava sendo vendido para o pessoal do Rio de 
Janeiro. Os chefes estavam chegando. 


Captulo 19 
JEREMIAS APARECE E QUER O PODER 

J estava completando dois anos que Joo havia abandonado Maria Lcia e voltado para Braslia. Estes dois anos 
foram cheios de altos e baixos. Em todos os sentidos. O lado financeiro de Joo j no o permitia fazer tanta loucura 
como antigamente. Via-se claramente que Joo estava se desfazendo de seus bens para liquidar suas contas. 
No lado sentimental, Joo sentia falta de Maria Lcia. Nunca mais conseguiu se relacionar com uma mulher, sem 
pensar em Maria Lcia. Era a mulher de sua vida e ele sempre falava que voltaria para busc-la e viveriam bem, em 
Braslia. 
No lado comercial, depois que foi inaugurado o outro prdio, administrado pelo pessoal do Rio, o seu prdio teve 
uma reduo considervel de locatrios e de clientes. 
Tambm, o seu controle no trfico caa vertiginosamente. 
Um determinado dia, Joo teve uma visita inesperada. Um jovem, como ele, solicitava uma reunio com Joo. Joo 
concordou em jantar com esse rapaz, depois de perceber que ele estava sendo apresentado por uma turma do alto 
poder de Braslia. 
No jantar, Joo foi apresentado a Jeremias. 
-Joo, muito prazer. J ouvi falar muito de voc. Meu nome  Jeremias. 
-Jeremias? 
-Isso mesmo, Joo. Estou chegando  Braslia, e tenho uma proposta a lhe fazer. 
-Prazer, Jeremias. No me parecia um jantar de negcios. Voc  rpido no gatilho, hein? O que voc quer? 
-Vamos pedir um drinque, primeiro, Joo? 
Pediram bebidas e alguns tira-gostos. Falaram amenidades, ambos sentindo um clima de tenso. 


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-Bem, Joo, vou direto ao assunto. Eu sou Jeremias, vim do Rio de Janeiro e sou o novo dono do Avenida 
Vermelha, o prdio que voc j deve ter ouvido falar. 
Joo engoliu em seco. Jeremias era o seu concorrente? 
-Bem, Joo, o que quero lhe propor  uma unio entre nossos dois grupos. Voc sabe que eu domino mais da 
metade do nosso comrcio, que voc sabe qual , mas eu quero unir a voc para podermos administrar juntos e 
dominar completamente o trfico em Braslia. 
-Bem, Jeremias, acho que voc me conhece. Deve ter ouvido falar que sou meio ignorante e que no aceito dividir o 
que eu tenho. 
-Joo, no  questo de dividir. A gente s divide o que a gente tem. No seu caso, voc j perdeu o que tinha. Eu 
tenho a maioria dos pontos e estou dando chance a voc de participar da administrao. 
Joo ficou vermelho de dio. No entendia como havia sido chamado para uma reunio desse tipo, apenas para ser 
humilhado. 
-Acho que no falaram muito de mim, para voc, no. Eu sou uma pessoa perigosa e que no gosta de gozao. Eu 
sou meu prprio lder, e nunca vou aceitar ter um scio como voc. 
Disse isso, levantou-se e bruscamente foi para o lado de Jeremias. 
Nisso, trs rapazes, bem vestidos que estavam na mesa ao lado, levantaram-se entraram no meio dos dois, 
protegendo mais a Jeremias. 
-Deixem! -falou Jeremias. 
Joo percebeu que eram do grupo de Jeremias. 
-Joo, acho melhor voc sair de Braslia. Aqui no  lugar para ns dois. 
E virou as costas para Joo, sendo seguido pelos outros rapazes. Jeremias havia conseguido o que queria, que era 
humilhar Joo, e mostrar que estava chegando para dominar o trfico em Braslia. E j sabia todo o seu 
envolvimento com aquela linda mulher. Que bobo que era Joo em abandonar aquela mulher. 
Jeremias comeou a ser paparicado por todos os jornais e revistas da cidade. Era convidado e ia em todas as festas, 
dava entrevistas na televiso, e virou o novo namoradinho da cidade. As mocinhas ficavam cadas por ele. 
Era um rapaz alto, de quase dois metros de altura, tinha vinte e seis anos de idade, era forte. Era branco, rico e tinha 
um pouco de estudo. Mais do que Joo. Sabia falar bem, e no tinha timidez em tentar alguma vantagem at com os 
mais poderosos da cidade. 
No prdio que comprou, construiu uma estrutura como a que Joo tinha no Morro. E, como no Morro, construiu os 
seus aposentos nos andares superiores. 
Comeou a chamar os boyzinhos para o seu lado, fazendo festas e mais festas. O seu apartamento vivia cheio de 
gente. Eram rapazes e moas que corriam atrs de drogas e diverso. 
Jeremias aproveitava-se disso para seduzir garotas. Era um namorador nato e no costumava perguntar a idade de 
suas conquistas. O maior prazer que tinha era receber as meninas, ainda moas, em seu quarto. Sabia que com o 
poder que tinha, e com as drogas que vendia, conseguiria conquistar estas garotinhas como quisesse. 
Promovia festas regadas a bebidas e drogas. Chamava estas festinhas de Rockonha. A maconha era oferecida sem 
controle, mas a cocana era permitida apenas para alguns. Havia uso indiscriminado de bebidas e eram distribudos 
convites a seus amigos. Esses convites eram disputados a grito. 
Permitia o uso aos seus clientes. Sempre usava a melhor, a mais pura. 
Como Joo, no incio, tinha total apoio de todos os rgos superiores. Comprava todo mundo, e se exaltava disso. 
Estava orgulhoso com a sua transferncia do Rio de Janeiro para Braslia. At a televiso havia anunciado que um 
poderoso empresrio do setor de diverso havia se transferido para Braslia. 
Joo sabia que precisava ficar atento com o poder que Jeremias tinha, e que, agora que conhecia o inimigo, deveria 
modificar o modo de ataque, mas, principalmente, saber como se defender. 
Sempre andava com uma turma. No freqentava mais as festas como antigamente. Alis, diminuram os convites 
para as festinhas. Da mesma forma, Joo perdia seu poder, e no podia mais fazer tanta extravagncia como no 
passado. E como os maiores amigos esto ligados ao poder, Joo perdeu muitos amigos, que agora andavam com 
Jeremias. 


Captulo 20JOO CONTRA JEREMIAS -A EMBOSCADA 

Joo andava sempre em bando. Tinha um grupo de pessoas que andava sempre juntos. Sabia da necessidade da 
unio, se quisessem permanecer vivos. 

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Joo passou a receber a visita da polcia mais vezes em seu prdio. E, nem sempre era avisado de que o pessoal 
viria. Quando ia conversar com os policiais que eram seus informantes, eles falavam que Joo no estava mais 
colaborando como antigamente, e que precisavam de dinheiro para poder trabalhar. 
Joo sabia que no pagava tanto como antigamente, mas percebeu que o que ocorria era que Jeremias pagava mais 
do que Joo, e comprou a todos. 
De vez em quando, Joo ia parar na priso, mas no mesmo dia voltava para casa devido a um bom trabalho de seus 
advogados. Era uma briga de gato e rato. Mas Jeremias estava por cima e no passava por isso. Os mesmos 
informantes de Joo agora estavam com Jeremias. 
Joo se aprofundava cada vez mais nas drogas. Havia usado herona algumas vezes, mas conseguiu escapar do vcio. 
Maconha e cocana eram iguais a comida para Joo. Usava diversas vezes por dia. Bebia regularmente. Voltou a ter 
a vida que tinha no passado, antes de morar com Maria Lcia. 
Numa dessas noites, Joo teve a idia de fazer um ataque surpresa a Jeremias. Iria invadir cinco pontos de drogas ao 
mesmo tempo, j que todos os cinco eram prximos. 
Reuniu o pessoal, para combinarem. 
Todos estavam presentes em sua casa, naquela noite. Joo, Pablo, Alex, China, Mundo, Rodrigo, e mais os rapazes 
que serviam de fora de frente para Joo. 
-Resolvemos fazer um ataque surpresa -disse Joo. -Vamos pegar Jeremias e sua turma de surpresa. Vai ser 
amanh  noite. Ns vamos invadir cinco pontos ao mesmo tempo. Ns vamos mostrar para esse cara que ainda 
somos fortes. 
Colocou no papel toda a sua estratgia. Todos deram opinies, falando sobre o que podia acontecer, onde estava o 
perigo, e ao final, concordaram com uma estratgia em que corriam pouco risco de serem pegos. 
Como iriam atacar perto, resolveram dividir o grupo. Joo, Alex, China, Mundo e Rodrigo iriam atacar dois lugares. 
Os outros rapazes atacariam outros dois pontos. Iriam se juntar em determinada rua que era comum aos dois pontos 
e iriam, todos juntos, atacar o ltimo lugar, onde Jeremias costumava ficar, pois era perto de sua boate preferida. 
Pablo no participaria. Ficaria no Morro, comunicando-se com os dois grupos, prestando assistncia, caso fosse 
necessrio. 
Tudo estava acertado para o dia seguinte. 
No outro dia, passaram o dia preparando as armas, compraram munio e fizeram os ltimos preparativos para tudo 
dar certo. 
Quando a noite chegou, todos se reuniram no Morro.  meia noite em ponto foram atacar. Chegaram em 
determinado lugar e se dividiram. Dois carros para cada grupo. 
O grupo de Joo chegou ao primeiro ponto que ia atacar e teve uma surpresa pela facilidade que encontrou. 
Encontraram apenas duas pessoas no ponto, que no ofereceram resistncia. Joo os amarrou, saqueou o que havia 
no prdio, levando dois revlveres, alguma droga e todo o dinheiro que havia. O que Joo mais queria era 
desmoralizar Jeremias. 
Saiu do primeiro ponto e foi para o segundo, que ficava a trs quadras de distncia. A facilidade foi a mesma. Ficou 
admirado como Jeremias no se preocupava com esse tipo de segurana. 
Mas Joo estava enganado. Tudo no passava de uma grande tramia. Quando Joo saa do ponto, em direo aos 
carros, sentiu que alguma coisa estava errada. Ainda dentro do ponto, viu que um dos seus parceiros estava tenso. 
-Alex, o que foi? No est passando bem? 
Alex olhou para os lados. 
-No  nada, Joo, s estou com um mau pressentimento. 
-Vamos embora -disse Joo. 
Quando j estavam na rua, para entrarem no carro, Joo ouviu o barulho dos primeiros tiros. Algum estava 
atirando. 
Joo conseguiu se arrastar pela rua, mas quando j ia entrando no carro, percebeu que China, o seu motorista, havia 
sido morto, com a garganta cortada, sentado no banco do motorista. Neste mesmo momento aconteceu uma rajada 
de tiros no seu carro. No o acertou por milagre. 
-Vamos, para o matagal. 
Pularam os quatro para o matagal. Joo, Alex, Rodrigo e Mundo. Todos bem armados, conseguiram desvencilhar 
das balas e cambalear at atingir uma casa em construo. Na casa, percebiam que estavam sendo cercados. 
-O que aconteceu, Joo? -perguntou Rodrigo. 
-Acho que camos numa emboscada. No sei direito. Algum est ferido? 
-Eu estou -respondeu Mundo. 
S a Joo percebeu o risco que corria. Mundo havia sido acertado no ombro esquerdo e sangrava um pouco. 
Nenhum dos outros havia se machucado. 


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-Voc tinha razo, Alex, havia alguma coisa errada. 
Alex ficou calado. Ainda estava tenso e Joo percebeu isso. Joo viu muito mais do que estava acontecendo. 
Naquele momento Joo entendeu tudo, mas no podia se precipitar. 
De repente veio a rajada de metralhadora, acompanhada por diversos tiros, de todos os lugares. Joo e seus amigos 
abaixaram-se. Os tiros pararam. Joo se levantou um pouco e viu algum se mexendo. Com apenas um tiro Joo o 
acertou. Era um dos capangas de Jeremias, que caiu com um tiro na cabea. Joo sabia atirar muito bem. 
Joo pensou que seria um bom lugar para testar a Winchester como nos filmes de faroeste. 
-Joo, eles so em quantos? -perguntou Rodrigo. 
-No deu para perceber, mas so quase em dez. Acertei um. Vamos reagir. Precisamos nos defender at que os 
outros rapazes sintam nossa falta e nos resgatem. 
E assim fizeram. 
Jeremias no contava com aquela casa em construo. Tinha escolhido o lugar exato para acabar com a vida de Joo, 
mas no contava com aquele esconderijo. 
Jeremias j sabia de todo o plano de Joo. O seu informante o havia avisado. Tudo estava certo para acabar com 
Joo. Ele equipou os seus dez melhores homens, os colocou em pontos estratgicos, mas, mesmo assim, Joo 
conseguiu escapar do primeiro ataque. Mas eles iriam peg-lo ainda, era s questo de tempo. 
Jeremias deu o apoio ao pessoal e recuou. No podia arriscar a sua vida. E tinha os melhores homens, os mais bem 
pagos. Era uma questo de tempo para tudo acabar bem para a sua turma. 
Quando o grupo que foi atacar a outra turma fizesse o servio, voltariam para onde estava Joo e acabariam com ele. 
Joo, no sabendo de onde, tirou toda a calma do mundo e ficou esperando o ataque de Jeremias. Se a sua outra 
turma no chegava era porque eles haviam sido mortos. J era quase quatro horas da madrugada e eles estavam 
ficando cansados. 
Joo foi onde estava Mundo, o nico ferido do grupo. 
-Como voc est? 
-Estou s um pouco cansado, no sei se isto termina logo... Meu joelho di... 
Joo percebeu que, alm do tiro no ombro, Mundo havia sido atingido na perna, de raspo. 
-Joo, estamos perdidos. No vamos conseguir escapar dessa... -disse Mundo. -Como eles nos descobriram? 
-Eu no sei, Mundo, eu s sei que Jesus foi trado com um beijo. 
Mundo entendeu o que Joo queria falar. S no percebia que o traidor estava muito perto e escutava tudo o que 
Joo falava. 
Ainda estavam conversando quando Joo percebeu que eles comearam a se movimentar mais do que o normal. 
-Presta ateno -falou baixo. -Esto preparando alguma coisa. 
Foi s falar que comearam a atirar. Joo percebeu que dois deles estavam tentando se aproximar pelas costas. Um 
tiro de Joo e outro de Rodrigo conseguiram derrubar os dois. 
O tiroteio cessou. 
-Joo, estou sangrando muito. Acho que estou morrendo. Tudo est perdido... -disse Mundo. 
-Quando tudo est perdido sempre existe uma luz -disse Joo. -Resista, Mundo, eu preciso de voc, aqui, do meu 
lado. 
Aquilo foi um grande estmulo para Mundo. Recuperou suas foras depois das palavras de Joo. 
-Joo, quem  o inimigo? 
-Eu j estou em dvida. Eu sei que o Jeremias est envolvido nisso, mas quem mais poderia estar contra a gente? 
-Ser que vamos conseguir vencer? -perguntou Rodrigo. 
Joo no respondeu. 
-Sabe o que estou pensando? -falou Joo. -Eu sempre gostei de faroeste. Lembra de quando os ndios ficam 
cercando os mocinhos? Estou me sentindo assim. 
-Isso no  hora de brincar, Joo. 
-Mas o que eu mais gostava era que os mocinhos sempre ganhavam dos ndios. No final todos os ndios eram 
mortos. 
Pela primeira vez em sua vida estava ficando com medo. J estava quase amanhecendo e nada de ajuda. De vez em 
quando havia uma troca de tiros, mas nenhum dos dois grupos conseguia tirar alguma vantagem. 
Joo lembrou-se da droga que haviam encontrado no ponto de Jeremias. Procurou o pacote. No encontrava... 
-Algum de vocs tem cocana? -perguntou. 
Alex tirou um papelote do bolso e entregou a Joo, que o usou imediatamente, recuperando uma fora que estava 
quase perdida. 
Levantou-se, inesperadamente, gritando. 
-Quem  voc? Acabe logo com isso... 


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Nem bem acabou a frase, comeou uma chuva de balas. Joo foi acertado no brao direito e na perna. Caiu 
imediatamente. Aos poucos os tiros foram parando. 
-Joo, voc est bem? -perguntou Rodrigo. 
Joo apenas gemia, sentindo a dor do ferimento. 
-Voc teve sorte, Joo, foi s de raspo. 
-No sei mais se  s questo de sorte. Pode at ser. Mas eu estou pronto para outra... 
Joo se arrastou e pegou sua arma. Mirou em algo que ningum via, apenas ele. Atirou e viu algum gritando. 
No mesmo instante o restante do grupo voltou a atirar. 
O dia ia amanhecendo, quando Alex resolveu assumir o grupo, j que Joo no estava bem. 
-Vamos nos preparar para fugir. 
-Eu no posso andar -disse Mundo. -Eu vou ser baleado se tentar me mover. 
-A noite acabou. Talvez tenhamos que fugir sem voc. 
Joo escutou aquilo e reagiu. 
-Alex, deixa de covardia. O que voc quer? Que acabemos mortos? 
-Mas, Joo, e se nada acontecer? Vamos ser alvo fcil daqui a pouco. 
-Ser que nada vai acontecer? -disse Rodrigo. 
-Eu acho que vai acontecer algo muito bom -disse Joo. -Algo me diz que ns vamos sair vitoriosos. 
-Isso  impossvel, Joo, se continuarmos assim... No temos chance! -falou Alex. 
-Eu j disse: quando tudo est perdido sempre existe um caminho. 
Neste momento eles viram uma movimentao do pessoal. De repente alguns tiros, e comeou um grande tiroteio. 
Joo e os rapazes viram alguns dos seus inimigos se aproximarem, assustados, olhando para frente e para trs, e a 
sada era atirar. E matar. 
A cavalaria havia chegado. 
Pablo foi o primeiro a se apresentar, acompanhado de Natinho. 
-Vocs esto bem? -gritaram. 
-Estamos feridos, venham aqui. 
Pablo sentiu que as coisas no haviam corrido como o planejado, ligou para Natinho, que rapidamente recrutou 
cinco amigos de alguns pontos de Joo e foram socorrer os amigos. Foram ao ponto em que estava a outra turma. 
Dois dos rapazes foram mortos, outros trs estavam feridos e apenas um saiu ileso. 
Pablo chegou com o pessoal na hora que os rapazes j estavam quase ganhando a batalha, mas conseguiram ajudar 
no desfecho. 
Rapidamente foram onde estava Joo, e aos poucos, sem os rapazes perceberem, se aproximaram, devagarzinho, at 
pegar todo mundo de surpresa. 
-A gente no queria lutar. Agora veja quantos corpos no cho -disse Natinho. 
Eles haviam assassinado todos os membros da gangue de Jeremias que participaram da emboscada. 
Joo ficou muito feliz com a chegada de Pablo e realmente no esperava que o amigo, pessoalmente, fosse defendlo. 
Foram levados a uma clnica de um amigo de Joo, onde ele tinha certeza que estariam protegidos, tanto da 
polcia quanto da gangue de Jeremias. 
Doutor Euclides, pessoalmente, os atendeu. 
Joo estava com um ferimento de bala no brao e outro na perna. Mas, ambos eram superficiais. Joo no corria 
risco de vida. 
Mundo estava ferido com mais gravidade. Os seus ferimentos eram mais srios e foi conduzido para a CTI da 
clnica, para um acompanhamento mais srio. 
Alex e Rodrigo no se feriram na emboscada. 
China havia sido morto, ainda no carro. 
Na outra turma, dois haviam morrido na hora do ataque. Trs estavam feridos superficialmente e um saiu ileso. 
Pablo, Natinho e os seus cinco amigos estavam bem. 
Joo e seus amigos feridos ficaram alguns dias na clnica, at se recuperarem totalmente. 
Pablo e Natinho visitavam Joo e seus amigos todos os dias. Ficavam horas conversando. Em uma dessas visitas 
Joo abriu os olhos de Pablo. 
-Cad o Alex, que ainda no veio nos visitar? -perguntou Joo. 
-Apareceu l hoje, de manh. Apenas perguntou como vocs estavam. Parecia meio perdido. Ser que ficou 
chocado com o que aconteceu? 
-Fica de olho. Estou desconfiado de que ele est entregando nosso jogo para Jeremias. Manda algum segui-lo. 
Enquanto eu estiver aqui, disfaradamente, mande algum ver o que ele anda fazendo. 
-Deixa comigo, Joo. Vou fazer isso, hoje ainda. Como voc desconfiou? 


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-Ele ficou muito estranho todo o tempo da emboscada, parecia perdido. Percebi que ele atirava a esmo. No acertou 
ningum. E, tambm, estava com o bolso cheio de cocana. Ele tava querendo passar a perna na gente. Fica de olho. 
E Jeremias ficou e descobriu que Alex teve um encontro em um dos pontos de droga de Jeremias. O seu 
comportamento estava muito estranho. Mesmo assim, Alex voltou ao Morro, hoje pela manh. 
No outro dia, Pablo e Natinho voltaram  clnica. Quando estavam chegando, viram uma gritaria. 
-O que est acontecendo? -perguntaram para a enfermeira. 
A enfermeira Simone, vinha sorrindo pelo corredor. 
-Todos os doentes esto cantando. 
Era tpico do Joo Irreverncia. Depois de tanto sufoco, tanta violncia, e ele, rindo. 
-Agora chegou a hora da injeo. Vamos l? -Simone brincou com os dois. 
Entraram na enfermaria. Todos cantavam e Joo mudou a letra da msica, para homenagear a Pablo. Falava algo 
sobre o herosmo de algum que venceu uma guerra. 
-Vamos acalmar, chegou a hora da injeo -disse Simone, pegando no brao de um dos rapazes. -Esse aqui  
difcil, no tem mais lugar para as agulhas entrarem... 
-Aplica na testa... No  de graa? -brincou Joo. E todos ficaram rindo. 
-Tanta doena e vocs ficam a, rindo? 
-E quem sabe no sero nossos ltimos momentos divertidos? -falou Joo. 
-S por Deus! -falou Simone, balanando a cabea. 
Simone aplicou as injees e saiu. Pablo conversou com Joo.
-Realmente, voc tem razo sobre aquele assunto.  fria! Mas, ele est dos dois lados. 
-Deixa comigo! Amanh a gente vai ter alta e a eu vou acertar com ele. 
-Vamos pensar nisso, depois, no vamos falar para os outros ouvirem -disse Pablo. 
E escutaram os outros conversando como foi o tiroteio. 
-Legal foi quando o Joo se encheu de coragem e gritou no meio do tiroteio: "Quem est a? Quem  voc?" E a 
choveu um monte de bala nele, falando quem eles eram. 
E morriam de gargalhar. 
-Foi a cocana. Eu fiquei doido. 
-Eu s sei que no entendi nada. Vi voc se levantando, gritou e de repente vi voc cair. Achei que voc iria morrer 
ali. 
E ficaram conversando bobagens. 


Captulo 21JOO E O TRAIDOR 

No dia seguinte quase todos tiveram alta, da clnica. Apenas Mundo continuou internado, para acompanhamento, 
mas j estava bem melhor. 
Joo marcou uma reunio com todos os seus vendedores, todos os que participavam da gangue, todos os 
funcionrios dos andares de baixo, como ele falava. 
No dia seguinte, s nove da noite, todos estava l. Reuniram-se nos pavimentos subterrneos, onde era controlada a 
droga. 
Joo comeou falando. 
-Pessoal, eu estou bem, passei por uma tentativa de assassinato, mas est tudo bem. Alguns aqui estavam comigo, 
naquele dia. Foi um negcio muito srio, que me ensinou muito. 
-Eu estava ferido, no meio de uma construo, num lugar sem segurana nenhuma, e via a morte se aproximando. 
Neste momento eu percebi o que  morrer. Eu nunca vivi pensando em morrer, pelo contrrio, tomei algumas 
decises pensando ser imortal. 
-Mas, naquele momento, fiquei com medo. Percebi que estava levando alguns de vocs comigo, s por amizade, e 
outros, por poder, dinheiro, e sei l o que vocs pensam. Cada um pensa uma coisa. Mas, naquele dia eu vi amigos e 
inimigos. E tambm, vi amigo que era inimigo. E fiquei com medo. Fiquei com medo de confiar em todo mundo. Eu 
tenho todos os defeitos que um homem pode ter, mas sempre confiei em quem est do meu lado. 
-E quase morri por isso!. 
Joo parou um instante de falar. Respirou. Tudo estava calmo quando comearam uns burburinhos no salo. Alguns 
entendiam o que Joo estava falando e outros estavam completamente perdidos. 


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-Primeiro, quero falar com vocs que estamos numa concorrncia muito sria, contra um outro grupo que vocs 
conhecem. O Jeremias est crescendo demais. Eu quero falar para vocs que estamos reduzindo a nossa produo. 
Agora vamos trabalhar com menos produtos, devido a alguns probleminhas que tivemos. 
-Devido a isso, dou todo o direito a vocs para decidirem o que querem fazer. Se vocs quiserem ficar comigo, eu 
ficarei muito feliz, mas no teremos mais o modo de trabalho que tnhamos. Teremos que ficar mais vigilantes, 
devemos andar armados, preparados para todo o tipo de surpresa que possa ocorrer. 
-Quem quiser ir embora, no h problema. Eu s no quero que fiquem insatisfeitos. Se vocs estiverem aqui, 
devem se dedicar totalmente ao nosso negcio. Ao contrrio, se pensam em dividir as atenes entre eu e Jeremias, 
queiram ir embora. Tem gente que est do meu lado, mas deveria estar do lado de l. Eu no vou ficar chateado. Eu 
prefiro isso, a ter que tomar decises mais srias no futuro, se  que vocs me entendem.
-No precisam ir agora. Amanh, quem no vier trabalhar preferiu o outro lado, ok?  s isso!. 
-Era o que tinha para falar nessa reunio -disse Joo. 
Foi uma reunio rpida. Formaram alguns grupinhos que ficaram discutindo o que fariam. Cada um tinha a sua 
opinio. Alguns eram mais corajosos, outros nem tanto. Sabiam que o imprio estava desmoronando, mas tinham 
receio da deciso que tomariam. 
Aos poucos foram indo embora. Inclusive Alex, que ficou meio escondido durante toda a reunio. No foi como no 
passado, quando ficava sempre perto de Joo. 
Alex j ia saindo, quando dois rapazes impediram a sua sada, falando que Joo queria conversar com ele. Ele 
voltou-se e viu Joo acenando, chamando-o. Os rapazes o acompanharam. 
Foram para uma salinha, em separado. Nesta salinha estavam presentes Natinho, Pablo, Joo e trs rapazes, que 
agora acompanhavam Joo em todos os momentos. 
-Alex, quero te fazer umas perguntas -falou Joo. 
-O que foi, Joo? -perguntou Alex, assustado. 
-O que aconteceu naquela noite? Por qu voc errou tantos tiros? 
-Eu no errei no, Joo... Sei l, se eu errei, eu estava nervoso... No sei o que aconteceu... 
-Eu sei o que aconteceu. Como voc pde me trair dessa forma? 
-Trair? Eu nunca tra voc, Joo. 
-Eu mandei seguirem voc, Alex, e sei tudo o que anda fazendo. Foi voc que passou tudo o que iria acontecer 
naquela noite. Foi por isso que estava to fcil no comeo. Eu quase morri a menos de trinta e duas horas atrs e 
voc  o culpado. Voc queria que eu morresse... 
-Eu no fiz nada disso, Joo. 
-Alex, eu sei de tudo. Voc me deu sua palavra de confiana, e agora apronta isso? 
-Eu no fiz nada, Joo, pelo amor de Deus. Se dez batalhes viessem  minha rua, e vinte mil soldados batessem  
minha porta  sua procura, eu no diria nada... Eu te dei a minha palavra! 
-Seu interesse  s traio... E mentir  fcil demais! 
Joo deu o primeiro murro, que acertou no estmago de Alex. Este caiu gemendo no cho. 
-Quando eu penso no que voc fez, eu tenho febre... 
E chutou o rosto de Alex. 
Alex tentou se levantar mas tomou alguns murros dos seguranas de Joo. 
-Parem! Levantem-no! 
Levantaram Alex, que no conseguia ficar em p. Alex sangrava pela boca. Joo, sem d puxou os cabelos de Alex, 
levantando sua cabea. 
-Veja bem quem eu sou, desgraado! Voc nunca mais vai trair ningum! 
-Joo... Eu juro... que... nunca mais... fao isso... Eu no sei... mais mentir... 
Alex falava, e o sangue escorria de sua boca. 
-Beba desse sangue imundo. 
Joo levantou a cabea de Alex, fazendo ele se engasgar com o prprio sangue. 
Soltaram Alex, que caiu no cho, sem foras. 
Joo puxou o seu revlver. 
-Alex, voc nunca mais vai trair nem mentir para ningum. 
E deu o tiro final. Alex estava morto. 
Joo sentiu a morte de Alex. Tanto que confiou neste rapaz e ele fez isto com Joo. A partir deste dia Joo no 
conseguiu confiar em mais ningum. Nem em Pablo, nem em Natinho, em ningum. 
Joo passou a beber com mais intensidade, enquanto usava drogas mais pesadas. Passou a ser viciado em herona. 
Enquanto isso, Jeremias tomava cada vez mais o poder. Metade dos funcionrios de Joo pediram afastamento, 
principalmente quando souberam o que aconteceu com Alex. 


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Joo tinha muita rivalidade com Jeremias. 
Certa vez conseguiu escapar de um atentado contra seu carro, por milagre. Quando parou num sinal, uma moto com 
duas pessoas parou ao lado e dispararam diversas vezes contra o carro de Joo. Neste atentado morreram dois 
seguranas de Joo, mas, milagrosamente Joo no foi atingido. 
Em outras ocasies aconteceram fatos semelhantes. E sempre quando Joo tentava eliminar Jeremias, percebia que 
no tinha poder para isso. 
Dessa forma, Joo se trancou em casa. Bebia e usava drogas, e comeou a se afastar da vida. Um dia estava to mal, 
que no conseguia reconhecer nem Natinho, nem Pablo. 
-Joo, voc est bem? -disse Natinho. 
-Oi... Estou... bem... Muito bem... Quem  voc? 
-Voc no se lembra de mim, Joo? 
-Esqueci seu sobrenome, mas me lembro de voc... 
-Joo, eu sou o Natinho... 
-Escrevi seu telefone num pedao de papel... Voc conhece essa msica? 
No dia seguinte, Joo estava melhor. Natinho e Pablo ficaram com ele durante toda noite. Tiraram toda a droga do 
apartamento e foraram Joo a no usar drogas, nem beber. Foi difcil, mas Joo estava to debilitado que no 
reagiu. 
Joo ainda tentou se recuperar, mas, quando viu uma pichao na parede do Morro, ficou desesperado. A pichao
escrevia: "OS TAMBORES DA SELVA RUFARAM: A COCANA NO VAI CHEGAR". 
-Pablo, tudo o que vier agora, vai comear a ser o fim...
-, Joo, eu no tenho esperanas de melhorar nada. 
-Pablo, vou ficar uns dias numa clnica, para desintoxicar. Voc me ajuda. Administra o que resta? 
-Vai, Joo. Voc est precisando. No temos muita coisa, mas eu tomo conta. 
E Joo foi para a clnica, com toda a ajuda de Natinho. 


Captulo 22JOO SE ARREPENDE 

Natinho visitava Joo todos os dias. No incio Joo nem o recebia, tanto que sofria com a dependncia da herona. 
Mas, conseguiu, aos poucos, recuperar um pouco da sua personalidade. 
Joo j tinha trinta e dois anos e no havia um bom futuro para ele. Ele comeou a se preocupar com isso. 
Natinho, sempre que o visitava, levava livros e cds que continham mensagens positivas, msicas de bom gosto, com 
boas letras, e fazia o possvel para recuperar Joo. A princpio, Joo reagia rispidamente a esta tentativa de 
recuperao que Joo planejava. 
Natinho, sempre procurava aproveitar todos os momentos de suas visitas para ajudar Joo a se encontrar. Ele sabia 
que, psicologicamente, Joo estava vulnervel. Era a chance que Natinho queria para realizar a mudana final na 
vida de Joo. Agora era tudo ou nada. Natinho sabia disso. 
Andando pelos jardins da Clnica, Joo j completava vinte dias de tratamento e j estava mais calmo, mas ainda 
tinha recadas, necessitando de drogas. Nesses momentos de recada Joo mandava Natinho trazer alguma coisa para 
ele. Natinho, que h alguns anos tambm tinha passado por um tratamento parecido, se afastava, ficava alguns dias 
sem visitar Joo, e quando voltava, a crise j havia passado. 
-Joo, voc est bem melhor -disse Natinho. -Voc percebe como est mudando. 
Joo no respondeu. 
-Voc est bem, Joo? 
-Natinho... Voc vem aqui com esse papo de melhorar minha auto-estima, viver melhor... Voc acha que  o qu? 
No me olhe assim com esse semblante de bom samaritano. 
Natinho percebeu que havia sinais de recada. Foi devagar. 
-Joo, voc precisa ter mais f. Ter f em voc, em primeiro lugar. Voc precisa ter f em Deus. Ter f em que vai 
melhorar. Voc precisa acreditar mais do que todos ns. 
-Ningum me entende... 
Por coincidncia, naquele horrio, do lado de fora da Clnica, estavam saindo com uma procisso da igreja. 
-Olha, Joo, o que  ter f... Todos seguem um santo, uma santa, e jogam as suas esperanas nas mos desse santo. 
Acreditam que seguindo em procisso, podem conversar e serem escutados pelo santo. Vamos ouvir o que eles esto 
cantando? 
"Nossa Senhora do Serrado, protetora dos pedestres..." 


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-Voc ouviu, Joo? -disse Natinho. - uma Santa. 
Natinho olhou para Joo que olhava atento as pessoas em fila, alguns levando cartazes, com dizeres estranhos: 
URBANA LEGIO OMNIA VINCIT. 
Joo comeou a chorar. 
-No me olhe assim. 
-Calma, Joo, chorar  bom para a nossa alma, para o nosso esprito. Voc j percebeu que quando chora fica mais
leve.  como se tirasse um peso das costas. 
E Joo chorou mais uma vez. 
-Joo, voc tem que entender que Deus  bom. Ele no quer nada mais que nos dar amor e que possamos dar esse 
amor para os outros. 
-Natinho, voc sabe que eu nunca acreditei em Deus. 
-Nunca  tarde, Joo. Voc lembra daquela passagem na bblia que fala que devemos amar as pessoas como se no 
houvesse o amanh? 
-Ouvi alguma coisa parecida. 
-Pois ento, no precisa ir a igrejas, freqentar cultos, basta voc amar as pessoas.
- muito difcil amar as pessoas, Joo. 
-Eu sei que , mas faa o possvel. 
-Eu sempre odiei, e agora, devo amar? 
-Exatamente, Joo, nunca  tarde. 
Joo parou um pouco para pensar. Lembrou do que sofreu em sua vida, sem ter famlia, sempre sendo rejeitado, 
sempre tendo problemas. Era muito difcil amar. 
-Natinho, os meus sonhos esto acabando. No acredito mais nos meus sonhos. 
-Nunca deixem que lhe digam que no vale a pena acreditar nos sonhos que se tem. 
-Mas, no meu caso, o sonho de poder, de riqueza, no ser mais possvel. 
-Mas voc teve tudo na sua mo. A diferena  que voc no soube dar o valor na hora certa. E voc tem que 
perceber que os sonhos mudam. Quando voc teve dinheiro e poder voc no se realizou. Quando foi que voc foi 
mais feliz em toda a sua vida? -perguntou Natinho. 
Joo no hesitou em responder. 
-Quando eu estava com Maria Lcia. Foram os melhores dias que vivi. 
-E voc era rico, nesta poca? Voc no abandonou tudo, para ser feliz? 
-Foi, Natinho, s no soube segurar a minha felicidade. 
-Mas pode preparar o seu futuro. Voc precisa mudar daqui para frente, e quando tiver uma outra oportunidade, 
voc deve perceber o que est acontecendo e segurar de todas as formas. Pense em amar, Joo. 
Joo pensou. Era muito difcil. Sempre quando lembrava no amor, lembrava de Maria Lcia. 
-Natinho, como voc consegue ser to forte. 
-Eu sou diferente de voc, Joo. Sempre que eu me relaciono com algum, eu penso em amar esta pessoa primeiro. 
V que a minha fora  quase santa? Eu consigo atingir os meus objetivos sem disparar uma bala, sem dar um soco. 
Eu amo os meus amigos, eu amo as amigas. Amo quem conheo hoje, e quem conheci a dez anos. Joo, sem amor 
eu nada seria. S o amor conhece o que  verdade. 
-Obrigado, Natinho, hoje eu consegui perceber que posso modificar minha vida. Vou pensar no que voc falou. 
Sabe por qu? Porque eu vou reconquistar Maria Lcia. Eu quero essa mulher novamente ao meu lado. 
-Falou bonito, Joo. Procure dentro de voc onde est o amor, que voc vai encontrar. Faa assim, todos os dias 
antes de dormir, converse com sua alma. Feche os olhos e converse com Deus. Faa perguntas, escute as suas 
respostas. Agradea o que conseguiu e prometa alguma coisa para Deus. Voc vai ver que vai se sentir bem melhor. 
J estava na hora de Natinho ir embora. 
Joo achava que seria fcil fazer o que eles haviam conversado, mas no era. Havia os momentos de sossego, 
quando ele conversava com Deus, mas tambm havia os momentos que uma fora maligna invadia os seus 
pensamentos e fazia Joo se lembrar do que ele j havia feito na vida. Os assassinatos, as brigas, as festas, vendas, 
uso de drogas. Lembrava do rosto de Alex, que foi morto brutalmente. 
Joo buscava refgio, nestes dias, nos livros e cds que Natinho e Pablo trazia. 
Com dois meses, voltou para casa. Mas apenas dez dias depois j havia usado cocana novamente. Bastava ter uma 
lembrana negativa do passado, que condenava o seu futuro. As drogas perseguiam-no. Passou um ano muito difcil, 
de altos e baixos. Voltou  Clnica algumas vezes, mas percebeu que no era to fcil se afastar dos vcios. 
Morava com Pablo, em uma casa que havia sobrado de todo o seu imprio. O seu prdio havia sido vendido para 
sanar as suas dvidas. No tinham mais poder, tinham poucos pontos de venda de drogas. Haviam definhado, 
seriamente. 


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-No existe beleza na misria, Pablo. 
Pablo estava no sof, assistindo televiso. Era um domingo, e como em todos os domingos, no h nada para fazer.
-, Joo, j percebi... 
-No temos mais nada... 
-No fala assim... Era para estarmos muito pior. No se esquea que somos criminosos e poderamos estar presos. 
Ento, devemos estar satisfeitos em termos a nossa liberdade. 
-No acho muita coisa. E mesmo se eu tiver a minha liberdade, no tenho tanto tempo assim. 
-O que voc quer dizer, Joo? 
-Acho que vou tentar a reconciliao com Maria Lcia. 
-Joo, voc precisa mudar algumas coisas para viver com ela.
-Eu sei. s vezes fao planos. s vezes quero ir... Voltar a ser feliz... 
-Eu entendo, Joo. 
-Quem diz que me entende, nunca quis saber de mim.  s fingimento. 
-Voc mesmo disse, Joo. Quando se aprende a amar o mundo passa a ser seu. 
-Eu aprendi a amar, mas de uma forma diferente. Eu sei que Maria Lcia ainda me ama. Ela era bem apaixonada 
por mim. Apesar de j estarmos separados a mais de quatro anos, ainda acho que ela me ama. 
Natinho chega  casa de Joo. Mais tarde convida Joo para dar uma volta. J era tarde do domingo. Eles moravam 
num bairro mais afastado, e numa hora daquelas todo mundo j estava dormindo. 
-Sabe, Natinho, ontem eu tive um sonho. Sonhei com meu pai. Nem me lembro como ele era, mas ele apareceu no 
meu sonho. A gente estava na Bahia, e sa para caminhar com meu pai. A gente ficou andando pelas ruas de Boa 
Vista, a cidade que nasci, e conversamos sobre coisas da vida. 
Natinho ficava em silncio, apenas escutando.
- curioso o sonho.  como se meu pai quisesse me avisar alguma coisa. Lembro que ele me falava sobre tentar ser 
forte a todo e a cada amanhecer. 
-Eu entendo esse sonho, Joo. O que voc est planejando? 
-Estou pensando em voltar a ver Maria Lcia. 
Natinho balanou a cabea. 
-Voc acha que est na hora certa. J tem bastante tempo que vocs no se encontram. 
-Eu sei que ela est me esperando. 
-E se ela mudou? Voc j ligou para ela? 
-Tentei, mas mudou o nmero. Se ela se mudou, eu a encontro. 
Joo sentou-se na guia da rua, e colocou as mos na cabea. 
-Natinho, o que h de errado comigo? Eu no sei mais do que sou capaz... 
-Voc est confuso, Joo. Mas, cuidado para no tomar a deciso errada. 
-Olhe, Natinho, para essas casas. Estou acordado e todos dormem. Estou conversando com voc como se eu fosse 
um doente. Eu preciso fazer alguma coisa para ser feliz. Eu vou voltar para Maria Lcia, voltar a trabalhar, e 
viveremos felizes. 
Joo colocou a cabea entre as pernas e chorou. 
-Joo, no esconda sua tristeza de mim. 
-Natinho eu vou tentar alguma coisa. E se eu tentasse recuperar os pontos? 
-Joo, pense s um pouco. No existe nada de novo. O que era para acontecer, j aconteceu. Voc vive insatisfeito e 
no confia em ningum. No acredita em mais nada, e agora  s cansao. 
-Acho que entendi o que quis dizer, mas existem outras coisas. 
-Que outras coisas? -perguntou Natinho. -Tnhamos um plano, voc mudou de idia. No auge de seu comrcio 
voc procurou o seu amor. Por qu no ficou com Maria Lcia? Agora quer tentar recuperar o qu? No v que tudo 
est perdido? 
Joo se levanta. 
-Tudo est perdido, mas existem possibilidades... 
-Quais so essas possibilidades? 
Joo finalmente se entrega. Seu corao est apertado. Sabe que precisa aprender a viver como est, sem seu 
imprio, sem seu poder, e que nunca mais vai conseguir o poder novamente. 
Joo chora, solta as emoes atravs das lgrimas. Natinho deixa Joo chorar, sabe que  o melhor no momento. 
Depois de alguns minutos, Natinho se aproxima de Joo. 
-J passou! J passou! Acalme-se! 
Joo se acalma aos poucos. 


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-Sou um animal sentimental... -fala Joo. -J enfrentei tanta confuso, j matei gente, e estou aqui, chorando, que 
nem uma criana. 
Natinho sabe que  melhor Joo desabafar. 
-Sempre que tentaram a me obrigar a fazer o que eu no queria, eu reagia violentamente. Nunca fui dominado. 
Antes eu era duro, violento e forte. Hoje estou mudado, sou novo ainda e estou enfraquecendo. 
-No  isso, Joo. Voc est percebendo que o caminho que voc percorreu at hoje no te levou a lugar nenhum. 
-Antes eu sonhava... -disse Joo. -Agora, j nem durmo! 


Captulo 23SEGUNDA VEZ NO INFERNO -JEREMIAS E MARIA LCIA 

Joo e Natinho foram para Gois. Natinho resolveu acompanhar Joo, pois este no estava muito bem. Natinho sabia 

o que o esperava. Depois de mais de quatro anos tudo haveria de estar mudado. Seria quase um milagre se Maria 
Lcia continuasse igual, principalmente porque Joo, quando entrou em contato com Maria Lcia s atrapalhou 
ainda mais as coisas. 
Desta vez, foram de nibus. Desceram na rodoviria e tomaram um coletivo at o bairro onde Joo havia morado 
com Maria Lcia. Em frente a casa, havia uma praa. 
Nesta praa, Natinho se despediu de Joo, desejando-lhe toda a sorte do mundo. Ficaria ali o tempo necessrio, at 
que os dois conversassem e se acertassem. 
Joo se dirigiu  casa. Tocou a campainha e pouco depois Maria Lcia apareceu na porta. Ela continuava linda, 
agora mais madura, mas Joo estava muito mais acabado do que quando havia vivido com ela. 
-Oi, Maria Lcia. -disse Joo. -Resolvi lhe procurar para conversarmos. 
Maria Lcia se assustou. No esperava que Joo aparecesse mais na sua frente. 
-Oi, Joo. Que surpresa! -disse Maria Lcia, sem demonstrar alegria. 
-Tudo bem? Vim lhe ver. Podemos conversar um pouco? 
-No sei se isto  bom. As coisas mudaram, Joo. 
-Vamos conversar! O que perderemos com isso? 
Maria Lcia convidou Joo para a sua sala. Ainda morava na mesma casa, mas havia mveis diferentes. 
-O que trouxe voc aqui, Joo -falou Maria Lcia, rispidamente. 
-Maria Lcia, eu aprendi muito com tudo o que aconteceu com a gente. Quando eu te deixei, era diferente. Eu 
pensava diferente e no sabia o que estava fazendo. Percebi que  s voc a razo de minha alegria. Eu no sei viver 
sem voc. S no voltei antes porque no pude mesmo, a vida me deu umas porradas. 
Maria Lcia percebia um outro Joo. Era inseguro, maltratado pela vida, e aparentemente, no tinha abandonado os 
vcios. 
-Joo, tudo mudou. Nada mais  como era no passado. 
-Maria Lcia, eu sinto a sua falta. Nunca mais eu fui o mesmo depois que eu fui embora. Eu sei que eu sou um 
idiota, mas deixa eu voltar para casa. Eu sinto falta do teu corpo junto ao meu... 
-Voc teve isso, Joo. E jogou tudo fora... Voc lembra? 
-Lembro, mas me arrependi de ter ido embora. Eu aprendi muita coisa depois que eu fui embora... 
-Agora as coisas esto diferentes. Esse "eu te quero" j no me convence mais. Voc s aparece quando convm 
aparecer. 
-Maria Lcia, eu lhe amo. No sei viver sem voc. A nica coisa que tenho  uma pequena foto sua. Achei o trs 
por quatro teu e no quis acreditar que tinha sido a tanto tempo atrs. Quando eu lhe vejo nesta pequena foto, 
como se o meu corao criasse foras para enfrentar o mundo.  s voc que me d essa fora... 
-Voc falou tudo, Joo. J faz muito tempo. Eu no gosto de ser rejeitada. Voc se lembra de quando me ligou. 
Falou que vinha e s alguns dias depois, voltou a telefonar dando as piores desculpas. Eu mudei, passei uma fase 
muito difcil na minha vida. Tudo o que sei  que voc quis partir. Demorei para esquecer. Demorei para encontrar 
um lugar onde voc no me machucasse mais. Descobri que o tempo  mercrio-cromo. 
-Eu sinto falta de voc, Maria Lcia -falou Joo. -Descobri que  s voc que me entende do incio ao fim. Eu no 
posso viver sem voc. Eu nunca mais vou embora, nunca mais vou lhe abandonar... 
-Joo, voc se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era para sempre? 
-Eu lhe falei que me arrependi das bobagens que fiz no passado... Nunca mais consegui sair com mulher nenhuma. 
Quando penso em algum, s penso em voc. E os sonhos no acabam. Vamos ficar juntos para sempre, se voc 
quiser... 
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-Joo, o que voc acha que eu sou? Voc me abandonou! Simplesmente pensando apenas em voc, resolveu ir 
embora. S voc sabe o motivo. Voc diz que tudo terminou, e agora, quer voltar? O que voc quer que eu faa. 
Simplesmente o deixe entrar casa adentro, e ignore o sofrimento que me causou. 
-Voc disse que me amava... 
-Eu amei voc, Joo. E vou lhe falar uma coisa. Em nenhum momento eu deixei de lhe amar. O que eu procurei  
me amar mais do que eu amava. Eu me preocupava com os outros e esquecia de mim. Acabou! Agora eu amo mais a 
mim... 
Joo resolveu mudar de estratgia e tentou abraar Maria Lcia. Achava que a aproximao a faria sensibilizar-se. 
-Eu te amo, e preciso de voc, Maria Lcia. 
Maria Lcia o empurrou. 
-No venha para c, que eu no quero mais saber de voc. 
Maria Lcia levantou e ficou do lado oposto de Joo, percebendo que ele tinha um pacote na mo, e no sabia o que 
poderia ter naquele pacote. Ficou com medo de rejeitar Joo e tornou-se mais cautelosa. 
-Joo, eu sofri muito. O tempo passava e voc no aparecia. Voc no telefonou. Quatro anos, Joo! J tem quatro 
anos que voc se foi. Joo, enquanto a vida vai e vem, eu procurava algum que me dissesse: "Quero ficar s com 
voc. 
Joo percebeu que tudo estava acabado, e resolveu jogar sua ltima cartada. 
-Me disseram que voc estava chorando, por isso resolvi voltar...
-Quem te disse isso, Joo. Deixa de ser mentiroso. Voc nunca ligou para mim.  isso mesmo, voc nunca ligou 
para mim, s ligou para voc mesmo. O seu cinismo, essa seduo... Volta para o esgoto, baby, v se algum lhe 
quer. 
Maria Lcia estava muito zangada. 
-No me ofende. Eu posso ter meus problemas, mas estou melhorando. Pensei que voc pudesse me ajudar, mas 
estou percebendo que estou perdendo tempo.
- isso mesmo, Joo, voc est perdendo seu tempo. Sai de mim que eu j no quero saber de voc... 
-No tem jeito? 
-Agora j no tem mais volta... 
Joo voltou-se a sentar. Neste momento entra na sala um menino, de uns dois anos. Corre para os braos de Maria 
Lcia. 
-Acordou, filhinho. Viu s, ns assustamos o menino. 
Joo percebeu que Maria Lcia era me. Ento ele realmente  que tinha problemas para ter um filho. Maria Lcia 
tinha razo. Se ele tivesse feito os exames e fizesse tratamentos talvez hoje seria o pai daquela criana. 
-Quem est ao seu lado, agora? -perguntou Joo. 
Maria Lcia estava linda abraando aquele menino.
- uma longa histria. Acho que Deus me odeia. Jogou este homem na minha vida e ele vem e vai. O nome dele 
Jeremias.  do Rio de Janeiro, mas est morando em Braslia. 
Foi como se Joo tomasse um tiro. Doeu mais do que qualquer coisa que tinha acontecido em sua vida. Jeremias 
conseguiu destruir tudo em sua vida. Aquele maldito, alm de derrub-lo em seu comrcio, ainda acabou com a sua 
nica chance de paz. 
Abriu o pacote, tinha a Winchester 22. Joo pegou aquilo nas mos, olhou para Maria Lcia com seu filho no colo. 
Maria Lcia se encolheu no canto da parede. Sabia que Joo a mataria. Sabia que Joo estava louco de cime e faria 
aquela tragdia. 
-Maria Lcia, olhe para mim... -disse Joo. 
Maria Lcia olhou, devagar, para Joo. 
-Maria Lcia, eu estou derrotado. Vocs ganharam. Quero que receba isso, como uma lembrana minha. Foi a coisa
mais valiosa que me foi dado com carinho por algum que eu tenho certeza que gosta de mim, sem interesses.  a 
coisa mais importante na minha vida... 
Maria Lcia foi aos poucos se libertando daquele medo, e esticou devagarzinho a mo, at pegar na arma. Tomou-as 
em suas mos. Era realmente, muito bonita. Nova, brilhando. 
-Fique sossegada. Nunca foi usada. Esta est virgem. Eu prometi que s a usaria quando fosse capaz de mudar toda 
uma vida. Seria a ltima bala da minha vida. Mas, agora estou vendo que nunca a usarei. Quero que a guarde, e se 
lembre que voc foi a pessoa mais importante na minha vida. Eu te amei, eu te amo e sempre te amarei... 
Falou isso, virou as costas, saiu. Maria Lcia viu que Joo estava chorando. Viu Joo se dirigir para a praa, 
encontrar com outro rapaz. Saram em direo contrria  casa de Maria Lcia. 
Tudo estava acabado. Mas Maria Lcia ainda amava Joo. 


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Captulo 24 
O DUELO 

Natinho percebeu o que havia ocorrido assim que viu Joo saindo da casa de Maria Lcia. No quis conversar com 
Joo, porque sabia que o que ele falasse no ajudaria. Agora, s o tempo consertaria o seu corao. 
-Natinho, quem inventou o amor? 
Natinho sabia que era uma pergunta sem resposta. 
-Vamos embora, Joo, tudo agora  coisa do passado. 
Foram para a Rodoviria, e pegaram o nibus para Braslia. Tudo estava acabado. Joo sabia que tinha que comear 
uma vida diferente de tudo o que tinha. No tinha mais o comrcio, nem os amigos, e muito menos dinheiro e 
condies de reconstruir tudo. S restava a Joo voltar a vender drogas, ou trabalhar. 
Trabalhar, ele no conseguiria, mesmo porque continuava viciado. Vender drogas seria a soluo. 
Quando chegaram em Braslia, Joo procurou uma forma de fazer o seu prprio ponto de venda de maconha. Era um 
quartinho que no tinha nem camas. Tinha um colcho velho em cima de caixas de tomate, onde ele dormia, e ali 
mesmo ele passava a droga. Mas, cada vez estava ficando mais difcil, porque ele usava mais do que vendia. 
Joo, naquela tarde teve uma surpresa muito desagradvel. 
Jeremias foi visit-lo. 
-Joo, eu sei o que voc est passando, e quero lhe oferecer um emprego. Voc ser chefe em um ponto de drogas. 
Que tal? 
-Jeremias, voc deve ser muito burro em vir me oferecer uma coisa dessas? Voc acabou com a minha vida e agora 
quer que eu me humilhe para voc? Saia daqui, seu idiota! 
Os dois capangas de Jeremias quiseram segurar Joo, mas Jeremias no deixou. 
-Idiota  voc... Voc no v que est acabado? Eu tomei tudo o que voc tinha! At a sua mulher... Ou voc acha 
que eu amava Maria Lcia? 
-Voc acabou com a vida daquela mulher. -Joo estava vermelho de dio. -A nica mulher que eu amei de 
verdade. Uma pessoa boa, que no merecia nunca o que voc fez com ela.
- isso mesmo, Joo. Voc viu que filho lindo.  a minha cara! Fiquei sabendo que nem isso voc conseguiu... 
Joo agora era s dio e no conseguia se controlar. 
-Jeremias, vamos ver se voc  homem. Amanh eu quero te enfrentar em um duelo. S eu e voc. Quem for 
melhor, vence. O que voc acha? 
Jeremias olhou para Joo naquela colcho, naquele quarto todo sujo, aquele idiota. Joo no tinha nem arma, com 
certeza. 
-Est aceito, Joo, um duelo ao modo antigo? Que legal, vai parecer um filme! 
-E escolha suas armas, seu porco traidor. Eu acabo mesmo com voc de qualquer jeito. 
-Amanh eu lhe espero, Joo. 
Joo no sabia o que estava fazendo, mas sabia que sua vida estava acabada, mesmo. Tinha fumado maconha, 
naquele dia, mas precisava de cocana. Tinha um papelote. Esparramou sobre a cadeira e cheirou. Pegou o litro de 
conhaque, no canto da parede, e o bebia, quando olhou a sua televiso. Era um modelo bem pequeno, devia valer 
muito pouco, mas resolveu troc-la por herona. 
Ligou-a pela ltima vez. J estava escurecendo, e ele viu o anncio: 
"Amanh, haver o grande duelo. O faroeste caboclo ao vivo na praa Sete de Setembro, s duas da tarde. 
Como os reprteres sabiam do duelo? Isso era coisa do Jeremias. 
Joo pegou a televiso e assim que a levantou, encontrou, embaixo dela, um papelote de cocana. Resolveu cheirar 
mais uma vez. Nem percebeu o efeito que aquele papelote fez. Era muita droga e bebida num dia s, e ele caiu em 
seu colcho, desacordado. 
S se levantou s dez e meia da manh. Joo afobado, procurou Pablo. 
-Pablo, eu preciso de um revlver. 
-O que voc aprontou, Joo? 
-Nada, no. Mas, confia em mim, pela ltima vez. Me arruma um revlver, preciso enfrentar um cara. S Deus sabe 
se eu vou usar esse revlver, mas eu preciso. 
Pablo tambm estava maus. A vantagem que estava tendo em relao a Joo era que no usava drogas. Conseguiu se 
libertar do vcio antes que o mesmo dominasse sua vida. Haviam vendido todos os bens e perderam todas os pontos 
de droga para Jeremias. 
Pablo estava penando em conseguir algum dinheiro para sobreviver, mas estava pensando em viajar para a Bolvia, 
tentar alguns contatos e recomear a sua vida. 


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Tinha uma arma, a sua ltima. Resolveu emprest-la a Joo. 
-Joo, eu s tenho essa arma. Voc promete que me traz de volta? 
-Claro, Pablo, claro. 
Pegou a arma e saiu. Precisava chegar na praa antes de Jeremias. 
S que Joo no sabia que nesta mesma praa, uma rede de televiso estava filmando uma minissrie chamada 
Faroeste Caboclo, misturando o passado dos faroestes dos ndios, e o presente, do faroeste dos bandidos, das drogas. 
Foi este anncio que ele viu na televiso e imaginou que fosse a divulgao de seu duelo. 
E Joo no sabia que Maria Lcia havia se arrependido de tudo o que fez com Joo, e que tinha vindo  Braslia,  
procura dele, para voltarem a viver juntos. 
E chegou a hora da disputa. Joo apareceu mais cedo. Jeremias apareceu um pouco mais tarde, acompanhado de 
diversos capangas. Joo sabia que de qualquer forma iria morrer. 
No sabia como lidar com a situao. A televiso filmava a minissrie. Ele estava do lado oposto da praa onde 
estava Jeremias. 
Jeremias j havia visto Joo, mas estava esperando as coisas acalmarem. Tinha muita gente na praa. 
Joo se aproximou. 
-Jeremias, seu safado, vamos comear nosso duelo -e sacou sua arma. 
Jeremias viu que a hora havia chegado. Pegou a sua arma, tambm. 
As pessoas que estavam perto acharam que era parte da minissrie. Um cmera desavisado comeou a gravar o que 
se passava. O cmera filmou quando Joo virou as costas e Jeremias abriu um sorriso enorme. Apontou sua arma 
para Joo e disparou. 
Joo caiu, atingido. Quando caiu, a sua arma voou longe. Joo sentiu que o tiro havia atingido um ponto mortal, mas 
ainda viu quando Natinho chegou acompanhado por Maria Lcia. 
-Me tire essa vergonha, meu Deus, me tire dessa vida -falou Joo, sentido a dor do tiro. 
Joo no sabia se era o sol, mas ele via uma luz diferente em Natinho. Ele reconhecia que Natinho estava possudo 
por uma coisa muito boa. Ele conseguia sentir isso. Ser que era o amor que Natinho tanto falou? 
Maria Lcia o abraou e chorou. 
-Eu queria que o tempo pudesse voltar dessa vez. Acho que s agora comeo a perceber tudo o que voc me disse. 
Est mais certo do que eu queria acreditar. Voc gostava mesmo de mim. 
Viu Jeremias sorrindo sem perceber que ela retirava a Winchester 22 de um pacote e a entregava a Joo. 
-Toma, Joo. Use a ltima bala como voc queria e mude uma vida. Mate este idiota! 
Joo olhou pras bandeirinhas que tremulavam ao vento. Olhou para o povo aplaudindo a cena, muito bem ensaiada, 
no sabendo que era de verdade. O sorveteiro, tambm sem saber da realidade, vendia sorvetes calmamente, 
tentando aproveitar o movimento maior naquele dia. E as cmeras da televiso agora estavam todas filmando os 
dois, com transmisso ao vivo para todo o Brasil. 
Joo sentia a morte se aproximando. Viu seu pai correndo daquele policial. Reencontrou com Z Luiz na beira do 
rio. Viu suas aventuras amorosas, as janelas que pulava, o reformatrio, a poltica. Reencontrou com Seu Fernando 
na rodoviria de Salvador. E estava ali, agora, com o sangue na garganta, j sentindo que o final estava chegando. 
No se sabe de onde, Joo tirou suas ltimas foras, agarrou a arma que Maria Lcia lhe trouxe, engatilhou. 
-Jeremias, eu sou homem, coisa que voc no , e no atiro pelas costas, no. Vira para c, filha da puta, sem 
vergonha, d uma olhada no meu sangue e vem sentir o seu perdo. 
Joo deu cinco tiros em Jeremias. Seus capangas no sabiam o que fazer e fugiram, deixando o seu chefe, morto, 
estirado no cho. 
Joo de Santo Cristo caiu morto, com os braos abertos, como Jesus crucificado, com a Winchester 22 ao seu lado. 


Captulo 25 
A MORTE DE SANTO CRISTO 

Joo morreu sem ver quando Maria Lcia o abraou, soluando, arrependida de t-lo recusado. No tinha mais 
sentido a sua vida sem Joo. Joo no viu quando Maria Lcia pegou o seu revlver e deu um nico tiro em seu 
corao, acabando com sua vida. 
Joo morreu sem saber que Pablo assumiu novamente todo o poder que eles tinham. Sem Jeremias, Pablo, pouco a 
pouco, passou a trabalhar para o pessoal do Rio de Janeiro. E Joo tambm no soube que, o mesmo pessoal do Rio 
de Janeiro acabou matando Pablo, dois anos depois de sua morte. 

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Joo morreu sem saber que a cidade de Boa Vista, depois de tanto tempo, conseguiu eleger o primeiro prefeito da 
oposio. O doutor Jos Luiz conseguiu se formar mdico e, depois de um trabalho bem feito, conseguiu derrotar 
toda a estrutura da posio. 
Joo morreu sem ouvir os comentrios das pessoas que estavam presentes, admirando as belas cenas dos artistas da 
televiso. Quem  aquele? No conheo aquele ator. Aquele que morreu? 
Outros chegavam mais perto, e verificaram que no era a minissrie.
- sangue mesmo... Isso no foi gravao da televiso,  de verdade! 
E outros: 
-Vai passar na televiso? 
A multido s abriu espao quando viram a veraneio vascana virando a esquina, com quatro policiais, vindo ver o 
que havia se passado. Em pouco tempo, chegou toda a estrutura de policiais e bombeiros para darem assistncia aos 
feridos. 
Passou  noite na televiso. Alguns acreditaram, outros no, como sempre acontece. Usaram a histria de Joo como 
exemplo poltico, como exemplo social, como mau exemplo. Mas no resolveram nada. 
O que chocou, e repercutiu entre todos os que assistiram quela cena, foi o final da transmisso, quando a cmera ia 
se aproximando do corpo de Joo de Santo Cristo, todo ensangentado, virado para cima.
Na sua camiseta estava escrito: VIVER  FODA, MORRER  DIFCIL! 
E em algum lugar o Brasil, algum falou. 
-Vamos fazer um filme? 
FIM 


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